7 de maio de 2017

Do lado de fora


Entre a esquerda e a direita, um abismo. Depressão que se expande e traga. Traga uma cerveja, um champanhe, para celebrar este nada, este zero! Traga tudo para dentro de si, imploda aquilo que ainda resta como alicerce. Se quisesse iria para Cuba ou Miami? Se pudesse me estabeleceria na balbúrdia, já que o elitizado é só repudio e desaprovação. Fora! Tem! Ermo! Dentro! Livro! Me! Um bocado de cultura, um pouco de vergonha pelo entorno brasil. A realidade é surreal, inacreditável é a notícia disseminada, os planos do planalto, assalto do direito pelo destro e o canhoto. Capiroto solto, louco pelo descrédito do inferno diante do que aqui faz-lhe concorrência, com o despótico da história, o arbitrário do estabelecido. Como os livros contarão esses dias? Restarão livros para tamanha ignorância? Ignoro os avisos e aceito convite para bares e afins, para dar um trago. Trago comigo o embargo, aquele amargor que não é o da cerveja trincando. Amargor de fim de festa a qual sequer fui convidado. E que eu seja assim persona non grata, nem penetra, nem VIP. Só aquele que assiste a tudo bebericando um café, tomando umas com a maldita companhia, apenas observando... do lado de fora...


30 de abril de 2017

Na Estante 73: São Bernardo (Graciliano Ramos)


Livro: São Bernardo
Autor: Graciliano Ramos
Editora: Record
Ano: 2014
Páginas: 270

Lembrar de São Bernardo, de Graciliano Ramos, ou relê-lo, é recordar-me da professora Catarina que deu aula de literatura e língua portuguesa para mim no Ensino Médio. Ela apenas o recomendara como uma das leituras para aquele ano, mas numa conversa em particular, mostrou-se emocionada toda vez que falava sobre este clássico do Modernismo. Instigado pelo componente sentimental do relato dela fiz a minha primeira leitura da obra, a qual eu guardo boas impressões, apesar da imaturidade em compreender as entrelinhas, porém novamente foi a releitura que revelou a magnitude da prosa graciliana. Lá estão novamente a palavra no lugar exato, a concisão de um narrador-protagonista pouco afeito a rebuscamentos desnecessários tão comuns à linguagem literária.
Paulo Honório é um sujeito bruto, ríspido que ambicionou uma vida de conquistas e posses e conseguiu-a aos poucos. Venceu a pobreza, possuidor de um bom tino para os negócios, foi de empregado a patrão adquirindo a fazenda que tanto almejara, a São Bernardo do título, e a administra de maneira austera.
O dinheiro é um elemento que ronda e media a vida de Paulo Honório e sua relação com os empregados, o pequeno círculo de amizades. Mas até o homem mais bronco sente a necessidade de uma companhia e entra nessa equação Madalena, professora com quem Paulo Honório se casa. No entanto a mulher torna-se questionadora dos métodos e ideias do marido, desencadeia um embate com o capitalismo e o patriarcado que o protagonista representa e, consequentemente, desperta os ciúmes dele, ciúmes que a sufocam de uma maneira incontornável.
Se Otelo surgiu como exemplar máximo da temática do ciúme na literatura universal e Dom Casmurro conseguiu ser a grande referência do tema na literatura brasileira no final do século XIX, São Bernardo parece reforçar genialmente essa tradição no século seguinte.
O que comove em São Bernardo é a solidão esmagadora de Paulo Honório seja pela administração à mão de ferro que ele executa na fazenda que possui, seja pela personalidade rústica no trato com as pessoas, afastando-as, seja pelos ciúmes que o levaram a acusar a esposa Madalena de traição. Tamanha isolamento que faz com que essa figura procure uma das mais solitárias atividades do ser humano que é arte de escrever e confessar na forma de um livro, nas palavras do mestre Antonio Candido, sua derrota, a violência que infringe aos outros e a si mesmo. E agora, voltando ao tempo, eu entendo o que pode ter provocado tamanha emoção na minha professora ao simplesmente recordar-se deste livro...

16 de abril de 2017

Nebulosidade


Está tudo nebuloso, impreciso. Um silêncio incomodante, uma paz quando tudo deveria ser caótico. Não entendo a passividade, aguardo o estopim, a faísca necessária para o início do grande incêndio, aquele que porá tudo abaixo, aquele que reduzirá as coisas à cinzas. Tudo que acreditamos, pó. Aquilo que está posto, gás carbônico. A realidade que vivemos, passado. Enquanto isso encontram maneiras de sabotarmo-nos, o golpe preciso e mortal. A rasteira invisível a qual não enxergamos quem, só percebemo-nos em queda. Ou seria suspensão? Ou seria apenas impressão? Sonho? A existência assemelhando-se a um pesadelo. Os monstros do imaginário popular metamorfoseados em seres legislativos e executivos a nos forçar o medo, a nos operar lobotomia, a nos empurrar um prato frio (como vingança. De quê? O que fizemos? Que culpa temos nós?) e podre. Engolindo a seco tudo que se encerra nesse pacote. Anseio pela revolta, mas eu mesmo encontro-me refém da situação, mobilizado pelos afazeres, pelas obrigações, pelos débitos na conta corrente. Tentando caminhar e persistir em meio a tanta névoa, a visão turvada pela neblina. Nebulosidade que me impede (e aos meus também) enxergar além, vislumbrar uma réstia que seja de luz, um fio esperançoso, a trazer luminosidade, a trazer calor, a esquentar os ânimos a tal ponto que, quiçá, uma combustão irrefreável se inicie, enfim, e as chamas se espalhem rapidamente, como num mato seco...