7 de agosto de 2017

Na Estante 77: Quincas Borba (Machado de Assis)




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Quincas Borba, de Machado de Assis, sucede a Memórias Póstumas de Brás Cubas e, apesar de aproveitar uma personagem secundária do livro anterior como mote para este romance, não trata-se de uma continuação da trama do defunto-autor. Quincas Borba, para quem leu o livro que deu início ao Realismo-Naturalismo no Brasil, era um dos amigos de Brás Cubas, acometido pelas ideias filosóficas do Humanitismo, estava na miséria e depois recebeu uma herança que o permitiu desenvolver as suas teorias. Morando em Minas Gerais, Quincas Borba tem Rubião como parceiro e cuidador de suas enfermidades que presencia os lampejos de loucura no amigo e o agravar do estado mental de Quincas. Quincas Borba também é o nome do cachorro que mora com o ensandecido filósofo.
“Ao vencedor, as batatas”, frase síntese da filosofia humanitista pregada por Quincas, é uma sátira às teorias positivistas e darwinistas tão em voga na época, as quais Machado guarda desconfiança e sequer aderiu a elas em sua literatura. Enfim, Quincas viaja para o Rio de Janeiro, falece e deixa Rubião como único portador da herança, sob a condição de cuidar do cachorro do amigo. Rubião decide mudar-se para a então capital do país e, numa viagem de trem, conhece o casal Palha e Sofia, com quem inicia uma longa amizade e de quem ele se torna sócio do marido e nutre uma paixão não correspondida pela esposa.
Duas palavras podem definir Quincas Borba: loucura e oportunismo. A primeira, tema recorrente em diversas narrativas machadianas. A segunda, sentimento frequente, mesmo que de forma sutil, na conduta de várias de suas personagens.
Não somente a loucura explícita de Quincas Borba, assim como os sinais mínimos que vão tomando conta de Rubião ao longo do romance, numa, como já disseram vários especialistas, espécie de herança maldita do filósofo ao amigo. Oportunismo, pois Rubião aproveita-se e omite a loucura cada vez mais crônica de Quincas para manter-se beneficiado no testamento, além dele próprio ser enganado e explorado pelas amizades que faz no Rio de Janeiro, incluindo o sócio e amigo Palha, que abusam da hospitalidade e o esbanjamento do dinheiro com luxos e favores.
A tinta da melancolia sublima a pena da galhofa e do cinismo de Memórias Póstumas, melancolia que se acentua perfeitamente nos romances posteriores de Machado de Assis (de Dom Casmurro a Memorial de Aires).
Recomendo a leitura de Quincas Borba em edições com textos de apoio e/ou notas de rodapé, é notória a grande erudição que o Bruxo do Cosme Velho possui e o autor lança diversas referências à cultura greco-romana, europeia, cristã e não saber o motivo de estarem ali (no que as notas ajudam bastante) é perder parte do entendimento do texto e as delícias de analisá-lo mais plenamente. Conhecimento que nunca vai parar à primeira leitura, Machado de Assis, como todo grande mestre da literatura, é um convite à releitura.



13 de julho de 2017

A culpa

Marcos Oliveira/Agência Senado

Não culpem os patos, não culpem as panelas. Não culpem o PT. Nem Dilma e nem Lula. Não culpem a esquerda e nem a direita. Nem Temer, nem Maia e Renan, nem Cunha. Não é responsabilidade sequer do Senado ou da Câmara. Vamos isentar nossos governadores e prefeitos também. Da mesma forma não vamos apontar os dedos para a elite e nem para os pobres (e a classe média que transita física e psicologicamente entre os dois extremos). O motivo dessa bagunça toda é mais ancestral, mais arraigado do que imaginamos. Impossível não vislumbrar o hoje sem olhar retrospectivamente. Não me proponho um estudo histórico-sociológico para não gerar bocejos, já basta a educação básica que causa essa reação, além da pior indiferença. Sugiro esta viagem no tempo para que juntos pensemos em que momento da vida brasileira tudo se perdeu inexoravelmente. Não, não foi com o pedido de impeachment, como os esquerdistas pretendem afirmar. Não, não foram as marchas de junho de 2013 que a direita cooptou. FHC, Itamar, Collor, Sarney, Diretas Já, Ditadura? A quem responsabilizamos este verdadeiro imbróglio político de consequências catastróficas? Quem, meu Deus? Jesus Cristo? Noé? Adão e Eva? O Big Bang? Onde estou querendo chegar? Nada mais original que a própria explosão que deu início ao que somos (nada mais propício do que um meteoro para dar fim aos dinossauros que ainda restam aqui no planeta Terra). Pois ela permitiu a criação do universo e, consequentemente, o homem em meio de sua vastidão, e em meio ao homo sapiens, o brasileiro, com seu jeitinho, seu sorriso inatingível, sua mania de rir da própria desgraça e continuar seguindo com a sua existência como se nada tivesse acontecido. Hum, avancei bilhões de anos novamente... Recuar mais para quê? Se em meu país, voltamos no tempo através das leis e das medidas provisórias? Leis que logo nos reduzirão novamente aos nossos antecessores, às gerações anteriores, até virarmos átomos, nêutrons e outras partículas ainda menores, nos recolherão cativos das nossas próprias necessidades de sobrevivência. De quem é a culpa? Pergunta retórica que aponta para múltiplas direções às quais é inevitável não ficarmos desnorteados. Distribuamos a culpa então, inclusive um pouco para mim e para você. O problema é saber o que faremos daqui para frente...

10 de julho de 2017

Por quanto tempo?


Por quanto tempo eu tenho que esperar a poeira baixar para as coisas melhorarem ou simplesmente mudarem de forma? Por quanto tempo eu tenho que esperar a revolução acontecer e, se eu mesmo faço a minha própria rebelião, de onde devo arrancar tanta coragem para tal? Por quanto tempo eu tenho que esperar a brisa ir embora, e tudo ao meu redor parar de girar em torno do meu próprio eixo, sou planeta Terra em translação ou rotação? Ainda há tempo para aguardar? O relógio prossegue na sua contínua tortura psicológica. Amanhece e anoitece, faz um frio e não sei se é possível esquentar-me por dentro.  Nada, nem sequer a vodka com sua chama temporária. Por que tanta pressa, tanta urgência? Os dias passam, as férias acabam e o ano se encerra, tanto por fazer, tanto por querer, muito por adiar. E lá fora? Ainda o gelo, ainda a indiferença, espero o momento certo para sair. Por quanto tempo eu tenho que esperar para sair? Mesmo que eu tenha que congelar ao frio, mesmo que tenha que apenas contemplar a paisagem. Gris cenário, monocromática fauna, arquitetura plana, elevada poeira para ânimos rasteiros, poeira assentada por ânimos inflados. Respostas escondidas. E as perguntas impunemente soltas no contexto.