31 de dezembro de 2010

Os melhores filmes de 2010


     O ano termina, a primeira década deste novo milênio também se vai e as inevitáveis listas tomam conta de editoriais em revistas, na Internet, na televisão, etc. e todos dando o seu veredito sobre aquilo que foi melhor, relevante ou não em 2010. Como adoro este tipo de coisa (retrospectivas, Top 10...) não pude deixar de preparar a minha, com base, claro, nos filmes que estrearam este ano em circuito comercial e que eu tenha assistido também. Ou seja, muitas omissões e injustiças, como são comuns em qualquer lista, ocorrerão, mas é uma forma divertida de passar o ano a limpo e recordar as boas e grandes emoções vividas em 2010 através dos sentimentos e idéias de alguns marcantes trabalhos no cinema. Uma viagem pessoal no tempo através deste ano que se finaliza:

10º MINHAS MÃES E MEU PAI:


     Duas mães lésbicas, filhos concebidos por inseminação artificial querendo descobrir quem é o pai e um pai solteirão que bagunça a rotina desta família. Esta deliciosa comédia retrata a família contemporânea e os novos papéis assumidos por homens e mulheres dentro desta, abordando de maneira leve temas como o homossexualismo e traição e tem nas ótimas atuações de Annette Bening, Julianne Moore e Mark Ruffalo e do restante do elenco seu maior achado...



     Você tinha um brinquedo favorito? O que foi feito dele? Jogou-o fora junto com a infância? Deu-o à outra criança? Ou guardou-o numa caixa esquecida no sótão ou no guarda-roupa? O futuro incerto, no decorrer do filme, de Woody, Buzz Lightyear e os outros brinquedos após a ida de Andy para a faculdade, gera uma grande expectativa no espectador, emociona e por vezes assusta. Toy Story 3 conta uma estória ao mesmo tempo sombria e comovente e, como nos outros trabalhos da Pixar, vai cativar crianças e adultos, principalmente aqueles mais saudosos de seus brinquedos de infância.

8º O PROFETA:


     Um drama de prisão contundente, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro este ano, narra a ascensão de Malik (Tahar Rahim) na escala social criminosa dentro do presídio, um jovem de origem árabe preso por um pequeno crime, é obrigado a assassinar uma testemunha para obter a proteção de um grupo de corsos. Timidamente ganha a confiança do líder e passa a ser designado para outros serviços quando é liberado por bom comportamento a sair por um dia no presídio. Logo estabelece contatos e vê crescendo sua influência e poder no local. A tensão entre árabes e corsos, cenas de violência muito bem realizadas estão entre as qualidades deste trabalho francês.


7º A ORIGEM:


     O filme mais comentado do ano, sem sombras de dúvida, seja por aqueles que o odiaram (a crítica brasileira, por exemplo), seja por aqueles que o adoraram, seja por aqueles que não entenderam muita coisa da trama escrita e dirigida por Christopher Nolan. Leonardo Di Caprio é um especialista em invadir os sonhos das pessoas para roubar segredos a quem os contrata. Quando uma de suas missões dá errado, ele é recrutado para não roubar idéias e sim incutir uma na mente do herdeiro de uma grande empresa, convencendo-o a vendê-la ao concorrente. A trama que reúne sonhos dentro de sonhos, referências à mitologia grega e sequências de ação de tirar o fôlego e um visual magnífico, mistura uma boa e intrincada estória com um visual que chama a atenção tanto daquela pessoa que quer se divertir pagando um ingresso de cinema ou aquele que quer animar as conversas de botequim com teorias mirabolantes sobre os significados da estória.


6º TROPA DE ELITE 2 – O INIMIGO AGORA É OUTRO:


     O grande filme brasileiro do ano, um verdadeiro fenômeno de bilheteria que bateu a arrecadação do Avatar de James Cameron e superou o recorde que era de Dona Flor e Seus Dois Maridos há 34 anos como filme brasileiro mais visto. Um filme para levantar discussões acaloradas sobre sua ideologia, sobre a corrupção. A mesma corrupção que é esmiuçada pelo agora Coronel Nascimento em comentários precisos e diálogos que voltam a cair na boca do povo. Wagner Moura eterniza seu personagem na cinematografia brasileira e uma galeria de outros marcantes papéis com um elenco afinadíssimo, uma direção segura e um filme que já entrou para a história não somente pelos seus números, como também por sua temática e alcance sociológico, independente dos olhares de esquerda e direita que possam ser feitos sobre ele.

5º GUERRA AO TERROR:

     Uma mulher ganhou a primeira vez o Oscar de melhor diretor este ano. Não foi à toa que Kathryn Bigelow recebeu o prêmio e ainda viu seu filme desbancar a super produção Avatar na corrida pelos principais prêmios da noite. Merecidamente, vale ressaltar. Ao retratar os últimos dias de terminar a campanha de um grupo de soldados do esquadrão antibombas no Iraque sob a liderança de um sargento de comportamento imprevisível (Jeremy Renner), Bigelow nos mostra a tensão no campo de guerra, a bomba relógio que o Iraque se transformou após a ocupação americana. Antes de levantar bandeiras pró ou contra a Guerra do Iraque, Guerra ao Terror prefere focar os medos, a dor e as expectativas dos soldados, que quando mais aproxima-se o dia para irem embora, mais temem que algo dê errado e por suas próprias vidas.

4º A FITA BRANCA:

     Um estudo da maldade e da opressão, ao retratar a rígida educação de crianças num vilarejo alemão e uma série de crimes que chocam a pequena comunidade. A poderosa fotografia preto e branco de Christian Berger e o olhar clínico de Michael Haneke nos apresenta personagens reprimidos, tirânicos e vulneráveis diante dos estranhos acontecimentos antes da Primeira Guerra Mundial. Paralelos com o nazismo? Muitas outras interpretações podem ser tiradas em cima da galeria exposta por Haneke, além desta referência.

3º ILHA DO MEDO:



     Ao fim deste filme, a primeira pergunta que vem à cabeça é: Martin Scorsese? Mais conhecido por filmes urbanos e violentos, como Os Bons Companheiros e Os Infiltrados, o mestre demonstra sua versatilidade e nos presenteia com seu filme mais estranho e ao mesmo tempo tão genial quanto seus outros clássicos. Uma verdadeira obra-prima, onde a sensação do que é delírio e o que é realidade põe o público em suspense e mexe com a sanidade do personagem de Leonardo Di Caprio (que mais uma vez entrega uma atuação magnífica na sua quarta parceria com Scorsese) e nos surpreende a cada minuto.

2º O SEGREDO DOS SEUS OLHOS:


     O cinema argentino mais uma vez atesta sua excelente fase com este filme que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2010. Tudo resulta perfeito nesta surpreendente trama, do roteiro excepcional à direção magistral, do elenco magnífico à reconstituição de época. Um advogado aposentado decide escrever um livro e relembra um caso não resolvido de estupro e assassinato na época da ditadura militar. A estória surpreende ao revelar os mais diversos aspectos do ser humano, que ao mesmo tempo em que demonstra amizade incondicional pelo próximo também deixa-se tomar pelo desejo de vingança ou pela obsessão por uma idéia intuitiva. Um filme de dar inveja dos nossos hermanos e onde apenas nos resta aplaudir orgulhosos do fato de que ainda são produzidos filmes com tamanha qualidade e clássicos instantâneos como este no cinema mundial.

1º A REDE SOCIAL:


      Não tenho Facebook, meu Orkut vive desatualizado e o Twitter perdeu a empolgação inicial e o uso apenas para divulgar este blog. Meu principal receio era do tema não despertar interesse suficiente em alguém que não está tão acostumado com esta infinidade de sites e perfis a serem divulgados e compartilhados com amigos e conhecidos na Web. Mas o nome de David Fincher na direção foi o principal motivo para que me dirigisse ao cinema e prestigiar esta obra. Autor de filmes como Seven, Clube da Luta e O Curioso Caso de Benjamin Button, Fincher imprime seu ritmo ágil ao contar os bastidores da criação do Facebook e seus principais envolvidos. De início, a velocidade com que as informações são mostradas ao público confunde e nos fazem sentir perdidos mas aos poucos nos familiarizamos com a narrativa e nos simpatizamos com a trajetória de Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg), estudante de Harvard, desde o fim de seu namoro até os processos milionários que sofreu quando o site se popularizou. Aliás, são estes processos que dão o direcionamento de toda a estória e lançam novos olhares e opiniões sobre a personalidade de Mark e sua conduta. Mark é um antiherói, um sujeito que por trás de sua timidez nerd, seu jeito antissocial de lidar com as pessoas, seu raciocínio rápido e sua concentração em seu computador, pode existir uma pessoa que roubou ou “melhorou” a idéia de uma dupla de irmãos e trapaceou o melhor amigo conforme os depoimentos vão ocorrendo no decorrer do filme. A expressão impassível de Mark Zuckerberg diante da surpreendente expansão de seu site lança dúvidas sobre sua conduta e contrasta com a presença solar do personagem de Justin Timberlake, que interpreta Sean Parker, o criador do Napster, e que se associa a Mark, fazendo com que o Facebook ganhasse novos rumos  e  investimentos e um longo alcance em outros países, um sujeito boa pinta, bem relacionado e popular.
     Fincher nos mostra o ambiente jovem das universidades americanas, um retrato da juventude atual que precisa se afirmar também através de sites de relacionamento, como uma forma de fuga da realidade e de distanciamento das relações de carne e osso, que é muito mais insegura e instável que as travadas em frente ao computador. No fundo o protagonista de A Rede Social nada mais é que um rapaz que, frustrado por não ter entrado em uma das fraternidades da faculdade, frustrado por ter seu namoro terminado, criou um site de grande sucesso apenas para provar que não precisa disso para sua vida. Ledo engano, pois sua atitude o faz distanciar cada vez mais das pessoas e nada supre a falta de ser aceito pelos mesmos círculos do qual foi excluído e voltar à sua namorada. A Rede Social é o retrato de uma geração que perdeu um pouco da habilidade de conviver com o próximo e precisa cada vez mais da Internet e usufruir de suas ferramentas e armadilhas, tornando-se cada vez mais isolados da sociedade da vida real. E o criador do Facebook é um exemplo claro disto.

Bem, pessoal, então é isto, no próximo ano haverão mais posts. Que venha 2011 então! Um abraço a todos!!!

24 de dezembro de 2010

O sono nosso de cada dia


     De repente, um bocejo vem à boca, as pálpebras cerram sem a nossa vontade e no corpo um torpor incontrolável. É o sono expressando-se na sua melhor forma e que atinge seu climax junto ao roncar e o perder dos sentidos durante o período em que dormimos. Especialistas recomendam 8 horas de sono diárias para que tenhamos qualidade de vida no trabalho, em família e nos estudos. Mas são estes que acabam subtraindo aquilo de que tanto precisamos, descanso, e as 8 horas diárias previstas tornam-se 7, 6, 5 ou menos dependendo da situação. O despertador nos assusta como um estupro, cerceando nossos sonhos pela metade, interrompendo o trabalho que o nosso organismo está fazendo. Soma-se a isso a irritação do transporte público, do trânsito e a cabeça passa a se preocupar com todas as tarefas que devem ser feitas naquele dia e outras que se acumularam por não terem sido completas no dia anterior. Aí vem a perda da concentração, bate aquele mau humor, o corpo clama por uma cama, a mente só pensa em descanso e os olhos continuam numa incessante batalha para não fecharem de vez. É assim que vivemos nossos dias, como zumbis que não sabem a razão de suas ações, lutando contra a insanidade que uma noite mal dormida ocasiona, tentando permanecer normais perante os outros mesmo que as olheiras e o olho inchado e vermelho denunciem o contrário.
     Parece que estamos condenados a viver com sono, felizes aqueles que ainda conseguem dormir o suficiente cada noite (não por muito tempo...). Tudo isto me parece uma conspiração de uma sociedade que nos cobra excessivamente de tudo o mais e nós, não possuindo muito do discernimento necessário para tomar importantes decisões, aceitamos sem muita contestação, sem termos a noção exata para onde estamos indo ou que direção tomar. Temos que trabalhar para sobreviver na cidade, temos pouco tempo para nos distrairmos com nossa família ou com nós mesmos, temos outro pouco tempo para estudar, uma agenda cheia de possibilidades e pouquíssimo espaço para preenchê-la com todas estas tarefas. Administrar o tempo é quase impossível, separar suas 24 horas diárias em uma série de obrigações e aspirações também. Dormir pouco é uma cultura urbana, um paradigma que vai demorar para ser quebrado, é quase um mandamento inquestionável da  vida adulta para e quem quer sobreviver na selva de pedra de qualquer grande cidade. Talvez seja este mesmo o objetivo, deixar o cidadão a tal ponto que ele não saberá distinguir o que é sonho ou realidade, se a briga que teve foi verdadeira e se o contrato que assinou desconfiado foi parte de algum sonho tresloucado e depois...
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Chico Xavier e o espiritismo no cinema brasileiro



     Chico Xavier só não foi o nome de maior destaque do cinema brasileiro este ano, pois Capitão Nascimento arrasou o quarteirão com o seu Tropa de Elite 2. Mas o mais famoso médium de nosso país foi o responsável por duas das maiores bilheterias nacionais em 2010, uma prova da força de seu nome e da popularidade que a religião espírita possui no Brasil, mesmo se tratando de uma nação de maioria católica. Chico Xavier, dirigido por Daniel Filho, e Nosso Lar, de Wagner de Assis são a cinebiografia do já citado médium e um drama baseado em um livro psicografado pelo mesmo, respectivamente. Não sou espírita e muito menos católico praticante, então, assisti aos dois trabalhos sem o perigo da visão das ideologias religiosas e com o olhar de quem apenas quer ver um bom filme. Ambos os filmes tem bons atrativos para atrair o grande público aos cinemas, enquanto Chico Xavier faz uso de uma narrativa clássica e aproveita-se de sua fama para gerar interesse no espectador, já Nosso Lar apela para os efeitos especiais para dar forma a um mundo para onde os espíritos vão após a morte numa jornada de autodescoberta e de sua missão no outro mundo.


     Daniel Filho toma como ponto de partida a participação de Chico Xavier (vivido por Matheus Costa, Ângelo Antonio e Nelson Xavier) no programa Pinga Fogo da TV Tupi em 1971 para ligar os mais diversos momentos da vida do médium, desde sua infância, onde conversava com sua mãe morta até seus últimos anos, onde uma multidão visitava as sessões espíritas da qual participava procurando algum consolo para a dor da perda de algum parente ou amigo próximo através das cartas ditadas pelos mortos que Chico psicografava. Paralelamente, o diretor do programa Orlando (Toni Ramos), um homem cético, vive às voltas com o interesse da esposa Glória (Christiane Torloni) pelo médium, uma vez que o casal perdeu o filho num trágico acidente e ela tem esperança de que ele se comunique através de uma carta. Daniel Filho em nenhum momento duvida da legitimidade do dom de Chico Xavier e até mesmo materializa as aparições de sua mãe e do espírito Emmanuel como forma de atestar a sua veracidade. Talvez este seja o único problema do filme, ver estes espíritos com quem Chico Xavier se comunicava diminui um pouco o mistério em torno de sua figura, o que tornaria sua estória ainda mais interessante, e nos fazem intrigar menos do que deveríamos, muitas das contestações que surgem no filme são de conhecimento do público em geral: que a grafia das cartas sempre é a mesma apesar de Chico receber diversos espíritos; que se ele tinha poderes por que não salvou o irmão da morte e outras pequenas polêmicas. Por outro lado, o filme é um sincero retrato de uma pessoa que pregou e viveu a bondade para com o próximo, que tem os seus defeitos e sua humanidade (Chico é vaidoso, usou peruca na sua velhice, por exemplo) e um ótimo senso de humor e nunca quis lucrar ou receber o dinheiro ganho sobre os livros psicografados. Um filme feito na medida certa pra emocionar as pessoas e antes de tudo inspirá-las, acredito que não em fazê-las converter-se à doutrina espírita e sim perceber o que é realmente relevante em suas vidas e esquecer o egoísmo e a preocupação por coisas mesquinhas, com tantos outros valores maiores para se dedicarem. Se Chico Xavier foi uma fraude, o filme não se preocupa em desvendar, decisão muito acertada, o filme é uma homenagem e uma forma de respeito a quem viveu plenamente sua filosofia do início ao fim da vida.



     Nosso Lar tem como principal atrativo os efeitos especiais, é necessário reconhecer o pioneirismo deste trabalho em utilizar este recurso numa escala nunca antes usada por nenhum outro trabalho nacional, mas como todos sabemos, os efeitos especiais devem ser ferramentas que ajudem na narrativa e não o contrário. Ao narrar a jornada do médico André Luiz (Renato Prieto) em reconhecer o seu papel no mundo dos espíritos após sua morte em decorrência de um câncer, parece que o diretor Wagner de Assis está mais preocupado em um espetáculo de imagens grandiosas (mas não críveis em muitos momentos) do que por uma estória vigorosa. O melodrama, que era muito bem dosado em Chico Xavier, aqui é exagerado, canastra até. Um roteiro que está mais preocupado em citar a torto e a direito um amontoado de frases feitas e clichês, do que construir personagens críveis e interpretações idem, o filme se resume a uma série de semblantes sorridentes com exceção de um e outro papel. André, após sua morte, acorda no umbral (este um dos pontos fortes do trabalho), uma espécie de purgatório onde os espíritos sofrem com a fome, sede, a sujeira e com seus próprios defeitos e pecados, André é resgatado de lá e levado para Nosso Lar, um local com construções de linhas futuristas de tecnologia moderna e avançada (o mundo terrestre na verdade é uma projeção dos avanços em Nosso Lar), lá ele descobre que a causa de sua morte foi, na verdade, um suicídio. O vício, o egoísmo e uma série de erros foram motivadores para o surgimento do câncer, André deixou-se morrer ao concentrar suas preocupações em coisas desnecessárias e esquecer sua família e a real função de sua profissão. Em Nosso Lar, André é recepcionado por Lísias (Fernando Alves Pinto), que lhe explica o funcionamento do local, sua divisão em ministérios e a importância em ajudar os espíritos recém chegados doentes do umbral. A vontade de rever a sua família, faz com que André se recrute para trabalhar numa espécie de hospital enquanto outros personagens entram em cena (como a jovem Eloísa vivida por Rosane Mulholland inconformada em ter morrido e que insiste em ver o noivo na Terra, pretendendo fugir de Nosso Lar).
     O filme tinha tudo para ser uma bela tentativa do cinema brasileiro em expandir seus temas e possibilidades narrativas para algo além do sertão e da favela, ousando com efeitos especiais (que ainda são fracos se comparados, injustamente, claro, com os produzidos por Hollywood) que reforçariam a idéia da estória da trajetória de um espírito em um mundo que nada mais é que a nossa própria vida neste planeta. O público lotou as salas, se foi a curiosidade em ver uma superprodução brasileira, a primeira, arrisco a dizer, nos moldes de um blockbuster americano, ou se foi o interesse pelo tema espírita tão em voga nos cinemas neste ano, isso não sei responder. Mas é certo que parte deste sucesso veio do êxito do Chico Xavier de Daniel Filho nas bilheterias (e um pouco antes, Bezerra de Menezes, o Diário de Espírito em 2008) que ajudou a popularizar e abrir as portas para esta nova vertente em nossa cinematografia.

12 de dezembro de 2010

11ª Retrospectiva do Cinema Brasileiro no Cinesesc

    De 3 a 30, de dezembro acontece no Cinesesc da Rua Augusta em São Paulo – SP, a 11ª Retrospectiva do Cinema Brasileiro, uma grande e ótima oportunidade de rever ou assistir pela primeira vez alguns filmes brasileiros que estrearam na cidade este ano. São 74 filmes entre ficções e documentários, na minha correria de trabalho e outras ocupações não conseguirei ver a todos, realmente a vida é muito injusta, mas alguns eu pude ter a oportunidade de prestigiar na tela grande do evento no Cinesesc.



Um deles foi Caro Francis, documentário dirigido por Nelson Hoineff, o filme retrata um perfil do polêmico jornalista, popularizado por sua maneira peculiar de tecer comentários e pelo teor agressivo dos mesmos, que gerava admiração, indignação e até mesmo inimizades e um processo milionário. O grande problema é a forma com que Nelson dá espaço às polêmicas de Paulo Francis, através de um grande número de material de arquivo dos programas e entrevistas, além de depoimentos de colegas de trabalho, amigos e a esposa do mesmo, porém conhecemos pouco além de sua personalidade forte (apenas um vislumbre de que ajudava amigos necessitados, gostava de Richard Wagner e Doris Day e de uma gata siamesa, que criava como uma filha), resultando num retrato superficial, um exemplo disto o como foi mostrada sua transição de trotskista para direitista. O saudoso Paulo Francis merecia mais que isso. Ao menos é impossível não se divertir e se surpreender com os ditos espirituosos de Francis nas imagens de arquivos e, assim como nos programas em que participava, o jornalista consegue roubar a cena e ser o centro das atenções, ou seja, ser maior que a obra em si.



    Outro trabalho que vi foi o drama Do Começo ao Fim, dirigido por Aluizio Abranches (Um Copo de Cólera), que fala sobre o delicado tema do homossexualismo e do incesto entre dois meio-irmãos. Toda esta premissa já seria pesada e repleta de grandes conflitos, porém Abranches decidiu seguir pelo caminho inverso, mostrando com excessiva e muito pouco realista naturalidade este relacionamento. Não que os irmãos Francisco (João Gabriel Vasconcelos) e Thomás (Rafael Cardoso) não possam encarar esse sentimento de cumplicidade e amor mútuo com naturalidade, já que desde a infância eram muito ligados, o problema é a reação das pessoas em volta, seus respectivos pais (Julia Lemmertz e Fábio Assunção) apenas dão olhares desconfiados, queixam-se de que os filhos estão íntimos demais e nada mais fazem ou se manifestam, não dando a entender serem contrários ao relacionamento dos dois e nem que desaprovam a parceria. No mais, quase nenhuma crise ocorre na estória até mesmo ao casal protagonista (o máximo que acontece é um separação pelo fato de um deles viajar para a Rússia para treinar natação para as Olimpíadas, o que gera sofrimento e saudade de ambos os lados). Abranches em entrevistas afirmou esta era mesmo a intenção, uma relação em que as pessoas aceitam e não se opõem, por outro lado parece que Abranches prefere mais explorar a beleza dos atores, mostrando a nudez dos dois entre uma cena e outra. Uma pena, pois o diretor do filme tinha uma boa estória para contar e comover o público e um novo enfoque para temas tão controversos, o que consegue é apenas um contemplação de uma relação amorosa (apesar de sincera) em que pouca coisa acontece, os personagens vivem momentos de amor, outros de saudade, outros de conversas românticas, outros de tentativa de diversão que não chegam a lugar algum e pouco evoluem na trama e apenas nos fazem constatar ter passado um pouco mais de uma hora e meia bem de forma tediosa.




    Praça Saens Peña conta a estória de Paulo (Chico Diaz), um professor de literatura que recebe a proposta para escrever um livro sobre o bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro. A sua esposa Teresa (Maria Padilha) logo passa a procurar um novo lugar para morar com o marido e sua filha adolescente Bel (Isabela Meirelles). O livro, que surge como uma oportunidade para Paulo firmar-se como escritor e a família ganhar um dinheiro extra, começa a instalar a crise no lar. Paulo tem que conciliar as diversas aulas que dá em escolas com a concentração na escrita do livro, Teresa começa a ter um relacionamento extraconjugal com o dono do apartamento (Gustavo Falcão) da qual pretendia comprar, enquanto Bel  presencia o lento desmoronar de sua família. Praça Saens Peña acaba sendo o retrato de uma família com problemas financeiros que tem ambições de ascensão, seja mudando para uma casa (no caso de Teresa) ou o reconhecimento artístico do primeiro trabalho (para Paulo). O diretor Vinícius Reis acompanha essas pequenas transformações com a câmera próxima ao rosto dos atores, que de tão pertos um do outro, na questão de espaço do pequeno apartamento em que moram, vão se distanciando cada vez mais à medida que Paulo se aprofunda na história de seu bairro e chega perto da conclusão do livro e os personagens vêem-se cada vez mais isolados um do outro.  O resultado é um filme que não cai em soluções fáceis, com desempenhos notáveis e críveis, um filme que em sua simplicidade nos faz refletir sobre a vida em família e como as escolhas individuais vão acompanhar e inevitavelmente afetar a rotina dos outros membros e que é preciso tolerância e paciência para atravessar estas difíceis mudanças.



29 de novembro de 2010

Família, familia... Mamãe, mamãe, titia...


  A homossexualidade continua um tabu nos dias de hoje, por mais que algumas barreiras tenham sido derrubadas, o tema continua polêmico porém ainda rende bons argumentos para o cinema. É caso de Minhas Mães e Meu Pai (The Kids Are All Right) dirigido por Lisa Cholodenko, qe com um ótimo elenco, conta a estória do casal de lésbicas Nic e Jules (Annette Bening e Julianne Moore) que vivem há muitos anos juntas e ambas tiveram um filho por inseminação artificial. As crianças cresceram, Joni (Mia Wasikowska, de Alice no País das Maravilhas) completa 18 anos e vai começar a faculdade, já Laser (Josh Hutcherson) está em plena adolescência. A curiosidade de ambos em saber quem é o seu pai, os leva a procurar a identidade do doador de esperma e acabam se deparando com a figura de Paul (Mark Ruffalo), um dono de restaurante e cultivador de legumes e verduras natuais. Ele é o elemento desestabilizador da aparente tranquilidade desta família, Nic é médica e gosta de controlar todos os passos dos membros de sua família, já Jules faz a linha liberal, um tanto quanto hipponga, que tenta se encontrar em mais um novo trabalho na área do paisagismo. Paul convida Jules para trabalhar em seu jardim, logo eles se vem irresistivelmente atraídos, enquanto os filhos também estreitam os laços com seu pai. Quem não gosta muito da presença de Paul é Nic, que reluta em não confiar nele e o enxerga como praticamente uma ameaça à sua família.


    Minhas Mães e Meu Pai é o típico filme onde os personagens são o que importam, toda a relação entre cada membro de sua família e a consequência de suas atitudes. O filme aborda o delicado tema da inseminação artificial, principalmente quando o sigilo da identidade do doador é quebrado. No caso de Paul é difícil encaixar-se num papel onde todos já foram por si só preenchidos numa família completa. O personagem é o mais deslocado de todos pois é preciso inserir-se como pai, um pai voluntário pelo desejo de doar esperma a pessoas que não podem ter bebês e involuntariamente encaixado num família da qual não participou do crescimento de seus filhos e de sua história. Com sua chegada, as mães entram em crise, os filhos se rebelam e Paul descobre uma nova possibilidade em sua vida até então despreocupada e sem muita maturidade. O filme apesar de falar de forma delicada sobre a questão homossexual, o aborda de uma forma imparcial. A única coisa que incomoda seria o fato dos personagens não sofrerem nenhum tipo de preconceito em relação a isto. Na verdade, parece que estamos dentro de um microcosmo à parte do mundo e a diretora não planeja ir além deste, ela não quer ampliar a questão homossexual ou da inseminação, ela está mais preocupada com os impactos que isto gera e acerta ao fazer esta escolha. Um olhar para pessoas que devem lidar com a subversão de seu status quo diante de uma grande mudança ou da entrada de um novo elemento em suas vidas e como elas improvisam em viver com este incômodo e novo sentimento.
    Uma das boas surpresas do circuito comercial deste ano, Minhas Mães e Meu Pai é um filme que em sua simplicidade mostra que tem muito a dizer sobre as complexas relações humanas e como a vida a dois e a vida em família não é fácil tanto para heterossexuais tanto para gays.

23 de novembro de 2010

"O Escritor Fantasma" e os segredos do poder





    Pierce Brosnam interpreta um personagem cuja simpatia e charme aumenta mais a sua dubiedade e oculta as verdadeiras intenções por trás de suas atitudes, o filme ainda conta com a bela e competente presença de Olívia Williams, que é a fiel esposa de Adam Lang, que apesar de sofrer com vida política do marido e sua traição com a secretária, também exerce enorme influência e importância nas suas decisões. Mas é Ewan McGregor que domina o filme, com um personagem sem nome que começa a afundar no complexo mundo das relações políticas e de poder, suas descobertas também são as nossas, compartilhamos suas dúvidas e seu medo diante de algo muito maior que ele e de seu próprio destino.
    O Escritor Fantasma é a prova de que Polanski continua em grande forma e de que o cinema ainda pode produzir suspenses cerebrais e inteligentes valendo-se de temas atuais (e não de rios de sangue e violência desnecessária), o que intriga ainda mais pois os vilões podem ser aqueles que elegemos para nos representar.

    A expressão hesitante do personagem de Ewan McGregor em aceitar o trabalho de ghost writer de um livro de memórias escrito pelo ex-primeiro ministro Adam Lang (Pierce Brosnam) resume o que vem a seguir e o que lhe espera na trama de O Escritor Fantasma. Antes disso, um carro abandonado numa balsa é guinchado e logo descobrimos que ninguém está lá, até vermos um corpo estirado na beira de uma praia. O clima de mistério está instaurado e Roman Polanski (dos clássicos Chinatown e O Bebê de Rosemary) pode brincar à vontade com todos os elementos deste thriller para nos prender a atenção. Não é à toa que o diretor polonês recebeu merecidamente o Urso de Prata pela sua direção no Festival de Berlim deste ano. Prêmio ao qual não compareceu devido a sua prisão domiciliar na Suíça quando o filme era finalizado por acusções de estupro no final dos anos 70.
    A referência a Tony Blair, ex-primeiro ministro britânico é mais que óbvia na figura do personagem de Pierce Brosnam. O envolvimento de Adam Lang na Guerra do Iraque remete à desastrada participação inglesa no combate ao terrorismo. O ghost writer, assim que dá início a revisão das memórias de Adam Lang numa casa isolada numa ilha nos Estados Unidos, vê o político em meio a um escândalo e acusações de apoio a torturas e crimes de guerra . Assim, o protagonista passa a desconfiar que a história por trás da biografia de Lang tem muito mais a esconder do que imaginava. O perigo aumenta à medida que ele se aproxima da verdade e de toda a sujeira esquecida debaixo do tapete, sua situação apenas torna-se pior se sabermos que o corpo encontrado no início do filme era do antigo ghost writer contratado para reescrever a biografia de Lang.
    Com roteiro do proprio Roman Polanski e do escritor Robert Harris (autor do livro que deu origem ao filme), o filme mantém o mistério do início à emblemática cena final, o resultado é um suspense de cores frias, gris, nebuloso assim como tudo que envolve a trama. Polanski conduz toda ação com discrição, economia, sem grandes arroubos e exageros comuns nos filmes do gênero até mesmo nas cenas de grande correria.

18 de novembro de 2010

Sessão nostalgia



Ah... A nostalgia! O velho sentimento humano ligado à saudade, a ancestral mania das pessoas de olhar para trás e achar que tudo era bom. Quantas vezes não pegamos a nós mesmos pensando no passado, com um sorriso no canto da boca, a recordar de grandes momentos de nossa vida ou de coisas que gostávamos de fazer, ouvir ou assistir? É uma gostosa sensação que a nostalgia provoca, mas também um tanto quanto perigosa, já que este sentimento sempre nos faz comparar com o presente e este, com a realidade tão gritante ao nosso redor e sem a névoa feérica das boas lembranças, acaba sempre perdendo.
Um período que saiu ganhando com esta onda de nostalgia é a década de 80. Tudo que remete a estes anos ganhou ares cult, mesmo sendo unânime a áura kitsch em tudo que envolve o comportamento e estilo vigentes naquela época. Marcados pelo exagero, os anos 80 pecaram pelo excesso. Que bom que pecaram sem arrependimento ou confissão contrita ao padre. A regressão de cores e atitudes foi inevitável nos anos 90 e 2000.
Fico imaginando a galera que nasceu em meados dos anos 90 e cresceu nos anos seguintes, num futuro próximo conversando num bar ou reunião de família: “Nossa, eu na minha adolescência adorava Restart, como era ótimo, bons tempos aqueles...”. Pessoas se lembrarão de quando eram “emos” ou “coloridas” e depois (Meu Deus, me dá medo do que pode surgir depois disso)...
Temos que nos conformar: Não haverá uma nova Tropicália, um novo new wave, um novo boom do rock nacional, novos Beatles, Madonnas ou Chicos Buarques, etc. não existirão artistas iguais aos ídolos que tínhamos no passado. Eles são o que são porque surgiram, fizeram e aconteceram no momento certo, cuja época justificou e influiu cada atitude, transgressão e inovação. Lá eles faziam sentido total, lá eram plenos. Não adianta querer transpor todos esses nomes e muito mais para os dias de hoje, tudo soaria deslocado.
Claro que a comparação é injusta. Nós tínhamos Michael Jackson, hoje os jovens têm Justin Bieber. Nós víamos Indiana Jones, Os Goonies ou Curtindo a Vida Adoidado, hoje a galera lota os cinemas para ver a saga Crepúsculo. Não dá nem para por lado a lado Chaves e Hannah Montana, só para citar um exemplo bem esdrúxulo.
Ok, confesso que fui contaminado pelo vírus da mesma nostalgia que critiquei antes. Mas desde que seja praticada de forma saudável tudo bem. Sem exageros, sem depressão por um tempo que não vai voltar mais, uma rápida lembrança do passado com um decidido olhar para frente. Nada que nos faça morrer de torcicolo ou virar estátua de sal ao fim de uma recordação.

16 de novembro de 2010

Plata Quemada e “as vozes” do cinema argentino



Existem filmes que definem a cinematografia de um país. Assim como Central do Brasil, Cidade de Deus e Tropa de Elite são marcos da chamada retomada do cinema brasileiro. Plata Quemada é um dos títulos obrigatórios para compreender os rumos que o cinema argentino tomou nos últimos anos transformando-o numa dos grandes celeiros de belas obras do mundo. Baseado no romance de Ricardo Piglia, que por sua vez foi inspirado em fatos reais, e dirigido por Marcelo Piñeyro (Kamchatka), Plata Quemada narra a história de Angel e Nene (Eduardo Noriega e Leonardo Sbaraglia), um casal homossexual conhecido como “Os Gêmeos” que participam de um assalto a um carro forte na metade dos anos 60. Claro que algo dá errado neste empreendimento, Angel é ferido e os policiais são mortos na operação o que gera uma enorme repercussão nacional e um verdadeira caça às bruxas para prender os responsáveis, onde os envolvidos (entre eles o cabeça do plano e o motorista envolvido na ação) são obrigados a fugirem para o Uruguai e ficarem reclusos numa casa até que consigam novas identidades. Angel escuta vozes em sua cabeça e sua fé fervorosa o faz recusar o assédio do namorado com medo de perder sêmen e, consequentemente, a Deus. Já Nene, sofre com esta crise de devoção e esquizofrenia do seu parceiro (que se afasta cada vez mais de Nene) e perambula pela noite uruguaia em busca de sexo.




Passional e intenso como o tango o filme consegue tocar os seus espectadores ao retratar personagens sem rumo, marginais, cuja marginalidade sempre aponta inevitavelmente para caminhos mais trágicos. O erotismo é um dos caminhos optados pelo diretor de forma muito feliz, isto se faz presente nas cenas de nudez e sexo nunca apelativas e muito bem conduzidas. O homossexualismo é um detalhe irrelevante e ao mesmo tempo um diferencial neste drama. Parte do interesse se deve ao fato dos protagonistas serem gays em crise no seu relacionamento em meio a uma situação extrema, fugindo da polícia. Porém torna-se irrelevante pois a abordagem dada por Marcelo Piñeyro aos protagonistas poderiam também ser a mesma para um casal heterossexual, claro sem o mesmo sabor de novidade que a primeira opção oferece.
Plata Quemada é um exemplo da evolução que a cinematografia argentina vem sofrendo. Parece que os argentinos conseguiram a fórmula de serem universais com um estilo tão peculiar de contar uma estória, sem perder a sua nacionalidade, nos presenteando com representações emocionantes e profundas sobre os relacionamentos humanos. Seja o minimalismo de Lucrécia Martel (O Pântano, A Menina Santa), a onipresença do ator Ricardo Darín em diversos trabalhos, os dramas de Juan José Campanella (que foi indicado ao Oscar por O Filho da Noiva e ganhou a estatueta de melhor filme estrangeiro pelo excelente O Segredo dos Seus Olhos), Daniel Burmán (O Abraço Partido, Ninho Vazio), Nove Rainhas e este Plata Quemada, além de outros tantos títulos, são exemplos de um cinema que superou a crise de seu país e soube amadurecer com a mesma resultando em filmes que ganharam o reconhecimento e o respeito internacional.

De domingo a domingo: Enem e Norah Jones




Enem tú, enem eu

 
É com certa lástima que me recordo dos estafantes dois dias de prova do Enem 2010. Eu, como os 3,3 milhões de pessoas que prestaram o Exame Nacional do Ensino Médio, confesso que fiquei frustrado com tanta imcompetência e erro na organização da prova. Depois do vazamento do gabarito da prova no ano passado, tudo que não deveria acontecer era outro erro em 2010. Troca de competências no gabarito no primeiro dia, erros de impressão na prova amarela, suspeitas de vazamento do tema de redação, vergonha nacional... Por mais que o MEC alegue que os casos tenham sido pontuais, a sujeira já foi jogada no ventilador. Com certeza, o Enem, praticamente um passaporte para universidades federais e universidades particulares (através do famigerado Pró-Uni), perdeu credibilidade.
Disseram que não houve revisão das impressões devido ao sigilo do conteúdo da prova, não poderiam ao menos ter responsabilizado um grupo para que tivesse sido feito a conferência das provas impressas e, assim, assegurar a qualidade do exame? Todos sabiam que a imprensa ia estar com atenção redobrada no Enem e qualquer errinho seria amplificado de um modo escandaloso.
Tive a sorte de fazer a prova azul, mas tenho receio de que seja prejudicado pela troca de ordem das matérias no gabarito e não considerarem as minhas respostas para a competência correta (a sala em que estive foi orientada a inverter as matérias e riscar os nomes impressos e substituí-los na ordem correta, ciências humanas e ciências da natureza, conforme a prova recebida, no gabarito estava o inverso). Vamos aguardar os resultados para ver onde tudo isso vai chegar.
Que a justiça seja feita para quem teve outras complicações, como as pessoas que fizeram as provas amarelas. Elas merecem e devem fazer um outro exame. Num país que tanto fala em democracia, não dar esta chance a essas pessoas é ir contra este ideal, mesmo que saibamos que a democracia em si no Brasil nunca é exercida na prática. Fica a lição de casa a ser feita pelo Ministério da Educação para o próximo ano, tomara que desta vez não seja reprovado por erros tão crassos.

I also don't know why, Norah Jones...



Norah Jones no Brasil fazendo um show gratuito no Parque da Independência na cidade de São Paulo. O que parecia bom demais tornou-se um tormento: filas enormes, um tempo de espera incrível para entrar no parque e, o pior, chegar ao portão de entrada e perceber que pessoas chegaram depois de mim e normalmente, sem enfrentar a fila que peguei, entraram e viram o show completo. Resultado: perdi umas cinco músicas do repertório desta apresentação.
Uma vez estando lá, mesmo que aos trancos e barrancos, não podia reclamar: a voz doce e afinada de Norah e sua música suave me fizeram lamentar não ter chegado antes e poder ter visto o início do show, porém compensaram o tempo restante em que lá estive. Música de qualidade feita por uma cantora muito competente, pena que os episódios anteriores tenham atrapalhado um pouco a fruição deste imperdível programa.

6 de novembro de 2010

Balanço da semana: Dilma e Mostra Internacional de Cinema de São Paulo



Ok, estou a anos-luz atrasado, afinal faz quase uma semana que Dilma Rousseff foi eleita presidente do Brasil. Com o que a primeira mulher a presidir o país contribuirá em seu governo e quais mudanças virão? Além das promessas de campanha, qual será a sua principal marca nestes próximos quatro anos? Vamos torcer por ela e por uma satisfatória gestão e cobrá-la também, já que é o que nos resta e é nossa obrigação fiscalizar o seu trabalho e o daqueles que elegemos em outros cargos. Não basta reclamar do governo e da política na frente da TV após ouvir algum escândalo no Jornal Nacional ou ver o Tropa de Elite 2. Políticos têm que perceber que não estamos indiferentes a suas atitudes, pois indiferença resulta em conivência. Temos que nos fazer presentes e atentos pois o trabalho de cada deputado, senador, governador e presidente é feito (ou pelo menos deveria) para nós e pelo povo que os elegeram, qualquer ato que fuja a esta intenção, deve ser recebido e cobrado com indignação...





A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo acabou e eu não vi nenhum filme da programação além do que foi exibido no Vão Livre do Masp, o que não conta já que foram filmes clássicos (vide texto sobre John Ford) e não alguma novidade ou um filme esperado de um diretor conhecido. Fatores financeiros (o ingresso ainda era caro, quase o preço de um pago no shopping), empregatícios (carga horária extensa) e sobrenaturais (por que não? Preciso pôr a culpa em alguém rsrs) contribuíram para eu não ter visto alguns trabalhos. Consolo: uns filmes vão estrear em circuito comercial nos próximos meses, anseio por ver o Cópia Fiel do Kiarostami, praticamente uma unanimidade entre os críticos e as pessoas que o viram na Mostra, mas lamento ter perdido outros filmes. Mas as coisas são assim, filmes entram e saem de cartaz, mostras vêm e vão, e a vida simplesmente continua...

Houve outras situações, notícias e polêmicas (a da estudante de Direito incitando o ódio e preconceito contra os nordestinos no Twitter) que passaram despercebidos por mim ou que não tive tempo de acompanhar de forma mais completa e dar minha opinião. Acho que não vou voltar a fazer algo deste tipo, balanço da semana, isto nem chegou a ser um balanço na verdade, com dois fatos apenas... Mas o que vale é a intenção, que esta vá também para o inferno acumular a montanha das outras que são boas então... Shame on me!

4 de novembro de 2010

Meu passeio na 29ª Bienal de... Artes de São Paulo



Bem, foi com muito sono que estive junto com o namorado e uma amiga na 29ª Bienal de São Paulo. Estava recuperando-me de um resfriado e meu humor não era dos melhores, mas ainda assim suportável. Sinceramente eu nunca entendi as artes plásticas. Pinturas, esculturas, fotografia, etc. possuem a minha admiração, mas o que convencionou-se chamar “arte contemporânea” ainda foge à minha compreensão. Podem chamar de preconceito, teimosia ou que minha cabeça é fechada à essas manifestações artísticas, confesso que sim, em partes. Mas passear pela Bienal e prestigiar os trabalhos lá apresentados serviu para confirmar certas visões sobre a área e me surpreender com outras. Esta última, infelizmente, em grau menor. Muita coisa vem da percepção do contexto em que determinada obra se insere.
A privada do Marcel Duchamp fora do ambiente de uma exposição ou museu é apenas uma privada, dentro destes espaços, a obra traz provocações e cerca-se de signos que nos inspira a pensar, isto eu entendo perfeitamente. Mas outras coisas não. Por exemplo, um monte de revistas consumidas pelo grande público dentro de instalação com citações à obra de Assis Brasil, Paulo Prado (um dos grandes nomes da Semana de Arte Moderna em 1922) coladas na parede, pareceu-me antes trabalhos feitos por alunos de 5ª série (!). Uma porção de cadeiras enfileiradas de frente a uma parede branca (!!). Uma mangueira transparente preenchida com líquidos de várias cores enrolada em si mesma num grande emaranhado (!!!). Não sei se era mais divertido tentar entender a proposta (ou a "não-proposta", como muitos gostam de dizer) do artista ou presenciar outras pessoas fingindo compreender aquele material ou procurando desesperadamente algum sentido pr’aquilo.
Algumas instalações de vídeos eram bem eficientes, em uma delas, o ótimo documentário “Nada Levarei Quando Morrer Aqueles que Mim Deve Cobrarei no Inferno” de Miguel Rio Branco, onde retrata a chocante realidade do Pelourinho e suas prostitutas em Salvador/Bahia no fim dos anos 70. O clima decrépito, decadente e sujo, surpreende e incomoda. Outra instalação de Amar Kanwar conta em quatro pontos e ao mesmo tempo a violência sexual contra mulheres em conflitos na Caxemira. Algumas obras causavam curiosidade pela beleza de sua simetria, outras pelo teor de suas pinturas, conteúdo de fotografias ou pelo lúdico, permitindo a interação com o público e parabenizo os artistas de tais obras. Deixo reforçado que se trata de uma opinião pessoal.
Toda manifestação de arte é válida, o problema é o quanto ela é sincera para expressar um sentimento e uma idéia pertinente ou apenas para alimentar o ego de alguns nomes que com tão pobres recursos e duvidosas intenções pretendem nos provocar e autodenominar-se artistas. Mas afinal o que é arte? Isto nos perseguirá até o fim dos tempos, se trata de um questionamento muito particular. Não saberia definir, no entanto, posso frizar que ela deve nascer de coração. Mas esta questão está entregue à subjetividade de cada um e nunca chegaremos a um consenso. Ainda bem...

31 de outubro de 2010

John Ford e a magia da tela grande


     Geralmente temos acesso aos grandes clássicos através de DVD, vídeos ou filmes disponibilizados pela Internet, ou seja, parte deles vemos na tela limitada de nossa televisão ou computador. Dificilmente teremos o prazer de assistir a todos eles no cinema a não ser que certas ocasiões especiais nos permitam. Todo mês de outubro acontece a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e uma das sessões mais interessantes são as projeções feitas no Vão Livre do Masp, gratuita (pra quem não tem ou não pode pagar o valor do ingresso que não é barato), basta chegar, pegar o ingresso uma hora antes da exibição, acomodar-se em uma das cadeiras e aguardar o início do filme. O espaço era reservado para exibir filmes que fizeram parte da seleção de anos anteriores da Mostra, mas este ano os organizadores fizeram algo diferente, com exceção de O Corintiano (do Mazzaropi), serão exibidos até o dia 04 de novembro alguns grandes filmes do diretor americano John Ford.



     Aí que retorno ao fato de que certos filmes devem ser visto na tela grande, sejam super produções hollywoodianas ou filmes que exploram com sucesso as proporções dos ecrãs. Muitos dos filmes produzidos nos anos 40, 50 sabiam fazer isto muito bem. Rever alguns filmes do John Ford é deixar-se imergir nesta magia das imagens grandiosas e a razão dele estar entre os maiores realizadores da história do cinema justifica-se em cada plano de seus trabalhos. Sua câmera movimentava-se apenas quando era necessário e isto acontecia de forma discreta, quase invisível aos olhos do público que sequer o percebia. Outra, seus enquadramentos eram perfeitos, verdadeiras pinturas, cuja fotografia, direção de arte e atores resultavam em pequenas obras de arte. Acredito que assim nascem os grandes diretores, na preocupação de contar apenas uma boa estória e não perder-se em pretensões de mirabolantes movimentações de câmera (atualmente destaca-se Clint Eastwood, um dos herdeiros da narrativa clássica para contar estórias poderosas). Hoje em dia, com a facilidade do cinema digital, uma câmera que tremula, acompanha personagens em planos sequências, já virou um óbvio recurso, como bem observou David Mamet, uma forma preguiçosa de direção, pois evita-se o trabalho da edição, que apenas dará certo ou não, se a decupagem for precisa e exata e saiba juntar de forma orgânica cada plano e deste improvável Frankenstein, nasce o bom filme. Não sou contra planos sequências e nem câmera na mão, quando utilizados de forma funcional e não exagerada, mas nada como o bom e velho tripé ou o trilho para dar mais estabilidade às imagens e focar seu público no que acontece na estória.



     Assisti aos filmes Como Era Verde o Meu Vale (1941) e Rastros de Ódio (1956), dois trabalhos de temáticas diferentes mas de onde vemos um pouco da marca que Ford imprime seus filmes, onde nem o barulho do trânsito na Avenida Paulista atrapalhou a diversão. Conhecido pelos faroestes, Ford também demonstrou sua versatilidade em outros gêneros, Como Era Verde o Meu Vale é um exemplo, melodrama sobre uma família que enfrenta grandes dificuldades para manter-se unida em meio a muitos acontecimentos e tragédias num pequeno vilarejo na Inglaterra. Mais conhecido por ter tirado o Oscar de melhor filme e direção de Orson Welles e seu Cidadão Kane, o filme tem muito dos valores conservadores inerentes a obra de Ford, mas o poderoso preto e branco de suas imagens valoriza cada drama interior de seus personagens e cada ação que ocorre no quadro. Poucas vezes vi planos tão belos com enquadramentos que impressionam. Rastros de Ódios é o western clássico por excelência, considerado por muitos o melhor do gênero, traz a eterna parceria com John Wayne, na pele de um veterano do exército confederado às voltas com o resgate de sua sobrinha sequestrada pelos índios e seu próprio preconceito e intolerância contra eles. Em ambos os trabalhos, o humor de certas cenas e personagens servem de alívio cômico a dramas tão intensos, mas é o poder das imagens que prendem a nossa atenção e a tridimensionalidade de seus personagens que faz o ato de ver um filme de John Ford um grande entretenimento.



     Invejo as platéias antigas que puderam ver a todos estes filmes no esplendor da projeção em cinema e perceber o quanto este cinema era muito bom sendo tão simples em sua feitura e suas intenções, não é á toa que permanecem imortais em nossas memórias até hoje.