29 de maio de 2011

O livro didático da discórdia




O livro didático “Por uma vida melhor”, da série Viver e Aprender, direcionado aos alunos do EJA (Educação de Jovens e Adultos), de Heloísa Ramos, Cláudio Bazzoni e Mirella Cleto, entre outros, gerou diversas controvérsias na imprensa nestas duas últimas semanas. Muitas delas oriundas de uma interpretação equivocada de seu conteúdo, de pessoas que certamente nem passaram perto da leitura deste livro.
Abordar as questões das variações linguísticas, abordar a língua falada nas salas de aula, é um assunto delicado, já que somos parte de uma sociedade calcada na valorização da norma culta da língua portuguesa, no “falar e escrever corretamente”, pensamento de que tudo que foge a este padrão está errado.
É preciso fazer uma leitura detalhada do capítulo em questão, para se entender a abordagem que os autores querem fazer, é óbvio que eles não querem “ensinar a falar errado”, como foram acusados (em tons de revolta exagerada, quase conclamando o lançamento dos autores à fogueira da intolerância) pela imprensa em geral. Ler somente um excerto do livro e daí tirar conclusões precipitadas é muito fácil...
O capítulo 1, intitulado “Escrever é diferente de falar”, esclarece as diferenças entre as variedades escrita e falada, a norma culta e a norma popular.  Ressalta a adequação que deve ser feita aos dois tipos de fala em situações formais e informais e em nenhum momento defende o não seguimento das regras gramaticais vigentes, pelo contrário, reforça a necessidade e a importância do aprendizado da norma culta até mesmo como possibilidade de inclusão social dos alunos, usa a norma culta como parâmetro de exemplificação do que é gramaticalmente aceito.
A Linguística é uma ciência que defende a ideia de que, pela língua possuir tantas variedades, é injusto classificar como certo e errado tomando-se como base apenas uma dessas variedades, levando-se em conta as condições e a origem elitistas da Gramática Tradicional, dessa variação culta. Por isso que os autores afirmaram que a frase “Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado” não está errada, se pensarmos no contexto em que tal texto pode ser dito. A Lingüística classifica essas variedades como “diferenças”, somente serão entendidas como “erro” se o que foi falado impedir a comunicação e a compreensão, entre locutor e interlocutor.
Então, antes de engrossar o coro do discurso de um grupo (muitos deles guiados por uma ideologia duvidosa e preconceituosa), procure conhecer o objeto de suas críticas, entendê-lo e daí tirar sua própria conclusão. O uso da língua falada no ensino da língua portuguesa nas escolas vai gerar muito desentendimento, pois estas ainda estão habituadas apenas ao velho e já inadequado ensino e imposição das regras da Gramática Tradicional, da norma culta, sem nenhuma contextualização e tolerância às outras variedades. No entanto, significa um avanço importante, onde a Linguística, e suas subdivisões, será uma importante ferramenta e aliada no prosseguimento de um ensino menos preconceituoso e exclusivo das classes menos favorecidas de seu sistema, que por natureza já aparta os seus.

22 de maio de 2011

O Morro dos Ventos Uivantes



   Logo quando entrei na Universidade, foram pedidas duas leituras obrigatórias para o semestre, uma delas era a do romance "O Morro dos Ventos Uivantes" e logo a palavra "obrigatória" ganhou um outro significado além da necessidade da nota ou do trabalho que este livro iria resultar dentro das aulas. Explicar este clássico é um tanto quanto complicado, o que posso adiantar é apenas uma visão pessoal de quem ainda precisa reler seu conteúdo, mas aqui vão as primeiras impressões, que sempre vem cercadas de certo entusiasmo, às vezes um entusiasmo quase cego a outros aspectos. Se, como diz o ditado, "A primeira impressão é a que fica", tive a sorte de ter tido a melhor destas diante desta obra escrita por Emily Brontë. Um fato, ao menos, me impressionou nesta leitura: a violência, não a física, mas a moral, a violência do verbo, do desprezo, dos sentimentos. Todos os personagens o são em sua essência passionais, paixão que não resulta apenas do sentimento romântico, paixão que é destilada do ódio, da vingança, da arrogância, que se concentra na mente humana, toma os impulsos e cega a quem está totalmente dominado por tais emoções. Heathcliff seria a princípio um vilão, mas sua caracterização traz outras camadas além da maldade inerente em sua natureza, dentro de si estão outros sentimentos mal resolvidos, que fazem a definição de "demônio" e "diabo", uma das diversas ofensas que os personagens se referem ao protagonista, equivocada, e que muitas vezes não o definem por completo.
   O que diferencia O Morro dos Ventos Uivantes de outras obras da mesma época, o Romantismo, é a caracterização dos personagens, a heroína não é exatamente uma heroína, o seu par correspondente está longe de ser um herói clássico, muito menos um vilão caricato e os outros personagens à sua volta possuem dimensões que reforçam e estendem as qualidades destes protagonistas tão humanos. A complexidade e a intensidade das emoções descritas fazem com que nos defrontemos com um painel de figuras que são movidas pela raiva quando esta os toma por completo, que reagem conforme o seu meio, perdendo quase a sua própria civilidade. O clássico de Emily Brontë antecipa características do Realismo/Naturalismo. Um romance que em sua época gerou controvérsia, críticas severas pelo exagero do texto considerado violento, pela linguagem utilizada, que muitos taxaram de vulgar. Hoje em dia, o texto pode repelir por estes aspectos, no entanto não impede o fascínio e o interesse para os caminhos e atitudes que cada personagem seguirá e tomará. Trata-se de um romance que manteve-se à frente de seu tempo, a conservadora era Vitoriana, tempo que se encarregou de transformá-lo num clássico.
   Heathcliff teve seu amor por Catherine desprezado em detrimento dos interesses desta por outro homem mais rico, a posição social foi mais forte do que a felicidade ao lado de quem realmente amava, mesmo que viesse também acompanhada por dificuldades financeiras, já que Heathcliff não tinha renda e foi adotado pelo pai de Catherine ainda pequeno. O irmão de Catherine é consumido pelo álcool e pelo vício do jogo após a morte da esposa, Ellen é a testemunha ocular da decadência financeira e moral da família Earnshaw e da ascensão social de Heathcliff, além disso temos os dilemas amorosos de Catherine e seu gênio voluntarioso, mimado e egoísta, Edgar Linton, seu marido, tenta lutar contra a sua passividade e seu orgulho ao ver a esposa dividir a atenção entre ele e a amizade pelo amigo de infância. A trajetória de duas gerações desta família é uma narrativa que não abre mão de certos clichês do próprio movimento romântico do século XIX, mas cativa pela complexidade de uma trama que permanece interessante, apesar de alguma poeira que incomode ali e aqui os leitores de nosso tempo, mas é a imortalidade de suas fortes emoções que vão dar todo o tempero necessário para nos darmos conta de um verdadeiro monumento da literatura de todos os tempos, são estas fortes emoções que tornam O Morro dos Ventos Uivantes tão atemporal, influenciando até hoje diversos autores e artistas e novas gerações de leitores.

15 de maio de 2011

A desumanização do homem em A Metamorfose, de Franz Kafka





    Acordar e ver-se um inseto. Deste princípio assustador, cunhou-se uma das maiores estórias da literatura mundial. Quem não tem um pouco de Gregor Samsa em si? Quem não se sentiu uma barata, tripudiada por todos, um incômodo, um corpo estranho no seio familiar que não deixa de ser uma extensão da sociedade? Estou me referindo à obra-prima "A Metamorfose" de Franz Kafka, um registro atemporal da desumanização do homem, sua opressão, cuja vida está única e exclusivamente aliada ao trabalho, uma novela exemplar que atravessa os anos e décadas e mantem o fôlego e a vivacidade, quase um século depois de sua publicação.
    O drama de Gregor Samsa, que acorda transformado num mosntruoso inseto retrata a nossa própria realidade. Gregor perde toda sua importância para a família, após sua metamorfose, ele que a carregava nas costas, trabalhava exaustivamente para dar uma vida de conforto à ela e ainda pagar as dívidas de um negócio mal fadado de seu pai, abrindo mão de suas próprias vontades. Agora é um verdadeiro fardo, um incômodo e uma vergonha aos membros deste grupo. Quem já teve alguém no seio do lar que ficou desempregado, logo vai relativizar a situação de Gregor Samsa com a sua história. Você será sempre, dentro da lógica de uma sociedade capitalista, que querendo acaba influenciando a lógica de uma família também, se você não gera lucro, você é um inseto, se você não ajuda no sustento da família, também. O pai, a mãe e a irmã, esquecem do Gregor e de tudo o que ele contribuiu, depois que ele perde seu aspecto físico humano e ignoram o fato, ou pelo menos não tentam apreender, que Gregor não perdeu de todo a sua humanidade, ele ainda consegue raciocinar, ainda não perdeu seus sentimentos.
    Gregor passa o tempo todo encarceirado no seu quarto, longe do convívio de sua família, livre de sua pouca dignidade, pois o espaço, com o passar do tempo, tem seus móveis retirados, depois vira um depósito de coisas inúteis, Gregor perde o seu lugar, a sua privacidade. Lembra-se dos vários momentos do passado, os planos que tinha para a irmã, a esperança de que ainda tudo voltaria ao seu normal. O passado é a única coisa que lhe resta, a memória é algo em que ainda se apega. A família precisa trabalhar no lugar de Gregor, ele não é mais útil, não é mais o sustento e o alicerce onde a família se amparava financeiramente. Por esquecerem a aliança de sangue que possuem, Gregor muitas vezes é tratado como algo a ser esmagado.
    O absurdo é recorrente na obra de Kafka, seus personagens de repente se veem no meio de uma situação incontornável, da qual não podem fugir, não podem lutar e nunca vão resolver, é assim com Gregor Samsa, foi assim com Joseph K., de outro extraordinário livro, O Processo, que ao acordar vê-se acusado de um crime do qual não tem conhecimento. O capitalismo, a burocracia das instituições, a crueldade e o despotismo de uma sociedade que coage os seus, sociedade protocolar, fria, indiferente estão ali registrados nas linhas precisas deste fantástico autor.
    O olhar de Kafka no início do século passado continua urgente e relevante, sua universalidade é o sinal de que quase nada mudou, somos apenas caixeiros viajantes como Gregor Samsa, transformados em barata quando não tivermos mais serventia aos patrões de nossa vida, aos olhos de nossos familiares e próximos, até para nós mesmos, quando alienados de toda a nossa triste condição.

3 de maio de 2011

Bin Laden morto... Será?



   A notícia do dia e, quiçá, do ano: Bin Laden está morto!
   A primeira coisa que senti ao ouvir as primeiras repercussões sobre este fato foi uma certa desconfiança. Será mesmo que isto ocorreu? Não sei, algo me cheira mal nesta história. Principalmente o fato de terem jogado o corpo do famoso terrorista no mar, se não tem corpo, não tem morto, que comprovação se dá nisso tudo? Ok, fizeram exame de DNA e constataram que era o próprio, entretanto, as imagens de Bin Laden morto já estão acusando a sua falsidade...
   Tudo me parece uma estratégia do Obama para catapultar a sua reeleição e aumentar a popularidade que não está tão alta como se esperava.
   O povo comemorando nas ruas a morte do Bin Laden me soou algo tão estranho e pertubador. Os tempos de hoje e os valores estão mudados, melhor seria capturar o sujeito com vida (a morte somente vai livrá-lo de um julgamento e da prisão), eu acho, comemorar o assassinato de alguém me parece algo tão macabro e desumano, independente de quem morreu, tanto quanto os próprios atos de terrorismo que assombram o mundo todo.
   Uma coisa que não parece ter passado na cabeça dos americanos: E agora? Qual vai ser a reação? E a Al Qaeda, vai ficar quieta e deixar passar em branco a perda de seu maior representante, sem nenhuma retaliação? Espero que não, mas parece que vem tempos piores por aí, ingenuidade do povo americano acreditar que tudo está resolvido. Esta é apenas a ponta do iceberg...