12 de novembro de 2011

Madame Bovary - Gustave Flaubert

Um clássico do realismo francês, Madame Bovary não é apenas um romance sobre o adultério feminino. Escrito com precisão milimétrica por Gustave Flaubert, o livro também é uma reflexão da condição da mulher em meados do século XIX. Emma é uma anti-heroína, influenciada pelos folhetins românticos com mocinhas suspirantes e casadoiras, frágeis e que aspiram um príncipe encantado ou um herói em seus devaneios, pela leitura destes romances água com açúcar tão comuns naquela época (e até na nossa também).
Pelo contrário, Emma não esperou pelo seu herói, quando se viu presa a um casamento com um nada expressivo e medíocre médico, Charles Bovary, ela passou a fantasiar uma vida ideal, em meio à sua vida tediosa de dona de casa. O casamento era sua prisão, o seu algoz, algo que não lhe daria satisfação e, se algum prazer viesse a sentir em pequeninos e imperceptíveis instantes, logo o tédio retomava-lhe os pensamentos e retornava elevado a décima potência. Na primeira oportunidade, como que a agarrar desesperadamente uma chance de ser feliz plenamente, entregou-se ao amor e à luxúria com seu primeiro amante, Rodolphe e depois com o jovem León, esperando destes as mesmas atitudes dos protagonistas dos romances de Walter Scott e outros autores.
            Egoísta, voluntariosa, hipócrita, caprichosa, contraditória, Emma tem inúmeros defeitos a serem descritos, porém são estas características que a tornam cada vez mais humana, por mais que reprovemos sua indiferença com a filha, seu desprezo pelo marido (que por sentir-se tão apaixonado pela esposa, cega-se aos atos dela e não consegue imaginar que a razão de sua insatisfação é ele próprio, e não é capaz de suprir as necessidades dela, por mais que a maioria delas sejam caprichos de quem aspira uma vida de luxos).
             Emma molda o seu destino numa sucessão de erros ao contrair dívidas que se multiplicam e tornam-se impossíveis de pagar e toma a trágica decisão de se suicidar quando os móveis de sua casa entram em leilão e o marido descobre a bola de neve na qual a esposa se meteu ao contrair diversos empréstimos e prorrogar o pagamento destes gerando novos títulos a juros cada vez mais altos e abusivos.
            Muitos reclamam do excesso de detalhes que Flaubert narra ao descrever o espaço, as roupas, as carruagens, tudo ao redor de Emma, mas estes pormenores fazem-se necessários para mostrar ao leitor o universo do qual a protagonista encontra-se enredada. Ela que aspirava grandiosidade, idealizava a sua vida como se estivesse num romance clichê (perdida em febris encenações de sua mente repleta de lugares comuns), é obrigada, pelo compromisso do casamento, a viver numa província em que nada acontece e, pela recusa de toda esta realidade, Emma se afugenta em suas leituras, em seus affaires, no arsênico que lhe tira a vida para não se deparar com seus erros e não assumí-los perante todos, por orgulho e por egoísmo.
            Não faço aqui um elogio e nem uma crítica desta heroína às avessas, Emma é uma das grandes personagens de toda a literatura pelo seu pior e seu melhor, seduzindo-nos e indignando-nos e penalizando-nos a cada página até o derradeiro suspiro que a imortalizou em nosso imaginário.