24 de dezembro de 2011

Meu post de Natal


     A minha intenção inicial era escrever um post sobre o Natal, porém era impossível não fugir dos clichês de sempre envolvendo esta época do ano. Queria criticar o consumismo, mas acho que este assunto era mais lugar comum do que o pregar (não sincero) dos verdadeiros valores desta comemoração. E nada do que escrevia fugia à imagem e ao som pavoroso da cantora Simone cantando "Então é Natal e o que você fez...". Logo minhas frustrações fizeram-se evidentes em cada sílaba, em cada frase feita. 
     Tudo bem, desisto então de escrever qualquer coisa sobre o Natal, mesmo porque não é um período de que sou muito fã, apesar de gostar das luzes que enfeitam algumas fachadas e ruas da cidade. Momento em que as pessoas estão tão dispostas ao próximo, solidárias a quem precisa, atentas aos seus amigos e familiares, tolerantes com aqueles de quem não gostam, porém toda esta atenção não se estende no ano seguinte, voltam todas ao seu habitual mau humor.
      Mesmo assim não vou me impedir de desejar aos seguidores e leitores deste humilde blog um Feliz Natal.
    Agora deixem-me chorar copiosamente a morte do ditador norte-coreano Kim Jong-il, assim como "toda" a população deste país, pois este fato abalou profundamente o meu espírito natalino...


14 de dezembro de 2011

Relendo Mrs. Dalloway


Meu interesse por Virginia Woolf surgiu a partir do filme As Horas de Stephen Daldry e com Nicole Kidman no papel da famosa escritora inglesa, além das interpretações viscerais de Meryl Streep e Julianne Moore. As Ondas foi a primeira obra com que tive contato, mas sabia que inevitavelmente teria um encontro com esta obra única que é Mrs. Dalloway. Virginia está ao lado de James Joyce e Marcel Proust entre os exemplares autores que trabalharam com incrível habilidade o fluxo de consciência tão em voga nas primeiras décadas do século XX. Ela, a exemplo do Ulysses de Joyce, também localizou o seu romance em um único dia, desta vez não temos Dublin e, sim, Londres onde a personagem-título vive às voltas com a organização de uma festa e as lembranças do passado que insiste em retornar como fantasmas insistentes. É nesta Londres do período da Primeira Guerra Mundial que também cruzam nas suas ruas outras personagens atormentadas, esperançosas, perdidas, apaixonadas, muitas vezes frívolas, muitas vezes inseguras.
O tom existencialista, o mergulhar nos pensamentos instáveis das personagens nos contagia, das reflexões aparentemente fúteis (“Mrs. Dalloway disse que ela própria iria comprar as flores”) à outras que revelam o ser humano desnudado em sua plenitude, frágil e perdido em meio ao mundo que o engole e o conduz sem que o perceba.
A ótima tradução do poeta Mário Quintana ajuda a transpor este universo tão particular de Virginia Woolf que usou a literatura como uma forma de imersão em suas próprias preocupações e paixões. Já defendi a releitura de livros aqui neste blog e o reencontro com a prosa mais que poética de Virginia é um desbravar de mares turbulentos como nós mesmos somos, não é preciso estar em Londres para ter o mesmo sentimento de deslocamento, este acompanha qualquer um, independente da cidade que esteja, grande ou pequena.
            A guerra interior vai ser sempre o preço pago pela humanidade, a sua condição por simplesmente existir, um complexo ir e vir de desejos que ainda não foram supridos, um caminhar por entre ruas onde ninguém escuta seus gritos, onde todo mundo grita em vão.

11 de dezembro de 2011

Planos


A vida corrida e cheia de afazeres é uma muleta para o homem urbano. Logo ele se aproveita de tudo isso e a usa como desculpa por não ter feito muita coisa naquele ano. Com o fim de 2011 vem também o inevitável balanço das coisas realizadas e daquelas metas não alcançadas. Quando o tempo finalmente se disponibiliza, pelo menos uma boa parte dele, nos defrontamos com o grande problema de não darmos prosseguimento aquilo que queremos ou bem intencionamos, exatamente quando tivéssemos mais tempo.
Estou de férias da faculdade, enfim, isto é fato. Notas e médias alcançadas me deixarão livre pelos próximos meses para finalmente ler mais, ver os filmes que desejo, assistir às séries de que gosto, de passar mais tempo com a família, namorar e descansar. Nonada, todo mundo sabe que planos são planos e que entre o traçar e o cumprimento deles existe um longo caminho a ser percorrido.
Ainda leio apenas no caminho entre trabalho e casa, simplesmente não consigo fazê-lo no seio do lar. A Internet está uma porcaria de lenta e baixar um episódio d’alguma série famosa é esperar por quase um dia praticamente. O cansaço resultante do trabalho não permite minha concentração em mais de uma hora de filme. Como superar a realidade? Como perseverar e atingir os objetivos? Será que a Palmirinha tem uma receita para essas coisas, receita da qual não engorde também, já que a barriga já está ficando evidente e exigindo um número maior para as calças que eu uso?
           Uma boa ideia é parar de ter tantos planos ou boas intenções, olha o inferno cheio delas lá embaixo e, o pior, o inferno não está muito longe de nós e o purgatório vivemos todos os dias em cada serviço mal prestado, em cada burocracia que trava o fluxo de nossas vidas tão fadadas ao não. Pelo menos esta estratégia tem funcionado nos últimos anos, por mais que tenha sonhos e planos, não os coloco em uma lista de prioridades, ordenando-os de 1 a 10, assim, não preciso ficar às voltas com cobranças pessoais e passo o ano apenas lidando com os fatos presentes e suas consequências futuras.

4 de dezembro de 2011

Cantoras mortas


A partir de hoje vou gostar apenas de cantoras mortas. Para que sentir a falta de Amy Winehouse e outras talentosas vozes que sumiram no auge de seu talento e popularidade? Vou evitar me empolgar com alguma novidade musical, cobrir meus ouvidos com cera, igual a Ulisses, para não me deixar inebriar pelo canto de algumas verdadeiras sereias, apesar de vê-las tão evidentes na mídia, mídia esta que suga e explora suas imagens, acompanham indiferentes a sua queda, que muitas vezes deturpam e corrompem suas mentes tão suscetíveis aos impulsos do estrelismo (claro, que não vamos torná-la a única culpada por tudo isto).
Não tenho predileções fúnebres e necrófilas de vasculhar túmulos e revolver cadáveres, mas caçar e ouvir divas mortas é um dos meus passatempos favoritos. Se são tão poucas as cantoras contemporâneas capazes de causar uma verdadeira revolução em nossos ouvidos, tão ligadas ao passado estão, tão saudosas deste se encontram, tão incapazes, às vezes, de reinventá-lo, torná-lo coisa própria, numa mistura insana, que nos deixam doidinhos também ao primeiro acorde, à primeira manifestação de seus vocais.
Deste verdadeiro sarcófago (não liguem este termo a algo pejorativo), soam as vozes de Carmen, Billie, Elis, Ella e tantos outros grandes talentos que fizeram história e marcaram a história pessoal de muita gente. Elas estão mortas, o máximo que acontecerá é celebrar, com uma retrospectiva em rádio ou na TV de suas grandes interpretações, de seus maiores sucessos, o aniversário de seu nascimento ou morte, não estamos a acompanhar o seu declínio ou a sua subida às paradas de sucesso, seus erros e seus acertos, nem a sua premonitória despedida latente em seus atos excêntricos.
Escrevo este post-lamento escutando o disco póstumo de Amy (Lioness: Hidden Treasures), feito das sobras de estúdios dos discos Frank e Back to Black e as gravações que ela espalhou por aí antes de sua morte, repertório que resume a sua versatilidade e materializa ainda mais a sua falta. Como Amy Winehouse infelizmente está morta, isto justificará a primeira frase deste post, mesmo que a sua voz não esteja (e a de tantas outras cantoras que fazem coro em algum lugar longe daqui).