17 de março de 2012

Todo mundo quer ser stand up comedy


            Todo mundo na sua vida já contou alguma piada. Agora se o interlocutor riu à beça ou não esboçou nenhuma reação, aí é outra história (e não adianta colocar a culpa nele alegando que este não entendeu a piada). Muito tem se discutido sobre as polêmicas envolvendo humoristas que acabaram falando demais e não agradando grande parte do seu público com dizeres duvidosos. O último caso, de polícia inclusive, foi o do humorista Felipe Hamachi, que foi acusado pelo músico Raphael Henrique de preconceito racial. O motivo da celeuma: uma piada envolvendo AIDS e macaco. Já dá para entender que a mistura de temas não poderia ter sido mais do que infeliz.


O stand up comedy não é uma novidade. Gênero tradicional nos EUA, somente nos últimos anos que se popularizou totalmente aqui no Brasil, virando praticamente uma febre. Todo mundo quer ser stand up comedy. Lenny Bruce foi um dos grandes nomes desta vertente, também causou estardalhaço com suas piadas consideradas grosseiras e fortes para o puritanismo dos americanos e seu linguajar pouco convencional, com alguns palavrões. Hoje é um clássico, referência para novos comediantes e até mesmo usado como bode expiatório e escudo por estes, se dizendo perseguidos e censurados, quando as suas piadas não tem tanta graça assim e as pessoas reagem com atitudes mais drásticas do que o riso.
A tradição da comédia é vasta. Vamos voltar no tempo e lembrar do sempre bom e velho Aristóteles e sua indelével Poética que a definiu como um retrato do homem nas suas piores facetas. A crítica social é inerente à comédia, já que é o ser humano e suas relações com os de sua espécie em aparente comum sociedade, o seu aspecto mais ridículo, grotesco e contraditório que são encenados ou retratados com foco no riso como resultado final. Não deixa de ter seu objetivo didático, assim como as grandes tragédias gregas. Nós rimos da personagem, mas nos vemos nela também, afinal quem nunca falhou na vida? Ou seja, o ator não deve pensar que a arte não tem suas responsabilidades, até mesmo a comédia mais inconseqüente, e, claro, usar o bom senso ao abrir a boca para contar uma anedota, ao que se espera, engraçada.
            O stand up comedy aproxima-se da crônica, por resgatar cenas freqüentes do cotidiano para despertar a identificação do público com aquela situação. Um olhar do comediante que pode ser também o olhar daquele coletivo que se encontra no teatro. O problema é que qualquer um acha que basta ficar na frente do microfone e contar uma dúzia de piadas para agradar a plateia ou que basta partir para a ofensa velada para que as pessoas riam se a primeira tática não surtir efeito. Fazer humor é muito difícil, descobrir o timming preciso para seu público, saber falar e calar-se nas horas certas. Não é todo mundo que consegue essa proeza.
Preconceito sempre existiu no humor, o que seria dele, sem uma certa dose disso também? Mulheres, loiras, homossexuais, pobres, nordestinos, negros, portugueses e tantos outros já foram vítimas das situações jocosas contadas pelos piadistas e o mundo não acabou por causa disso. Porém quando a piada é transposta do ambiente pessoal para o público (o teatro, a televisão, por exemplo), a coisa muda de figura, as chances de alguém achar engraçado são grandes (afinal as pessoas assistem um show de stand up comedy para rir), as possibilidades de muitos não gostarem e se sentirem ofendidos também se equiparam.
Saber o público que o espera e entender que determinados valores mudaram contribui para evitar momentos constrangedores para a comédia como este último episódio. Os valores mudaram sim, no entanto os comediantes não podem apenas culpar o politicamente correto pela repercussão negativa de suas piadas. Estamos mais conservadores? As pessoas estão mais intolerantes? Não entendem que trata-se apenas de humor? Acredito que não seja este o problema, elas estão mais informadas e não tão passivas, não vão reagir se realmente não se ofenderem. Sabemos muito bem, que uma das principais características do brasileiro é o bom humor e a capacidade de rir de si próprio.
Portanto comediantes, muita atenção: sofisticação nunca fez mal a ninguém, sutilezas também.

4 de março de 2012

O Ateneu – Algumas impressões


O Ateneu é um clássico da literatura brasileira, um marco do Realismo-Naturalismo, escolas literárias que nos revelaram, entre outros, Aluísio Azevedo (O Cortiço) e o maduro Machado de Assis pós-Romantismo (Dom Casmurro). Este é o único livro publicado por Raul Pompéia, que na época tinha 25 anos, o autor se suicidaria anos depois aos 32 anos. O romance faz uma crítica ao sistema escolar da época, sua rigidez e autoritarismo disfarçados de ensino modelo de qualidade, que oprimiam seus alunos. O Ateneu, nome do colégio, é um microcosmo da sociedade, onde os alunos aprendem as regras de sobrevivência, ou simplesmente não se adaptam a elas. Trata-se de um romance com pinceladas autobiográficas de Raul Pompéia, que ao mesmo tempo em que se trata ironicamente de uma crônica de saudades, o autor também realiza a sua vingança pessoal denunciando as falhas do local onde estudou na sua pré-adolescência e revelando seus próprios traumas.
A célebre frase que abre o romance (“Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta.”) já é um prenúncio das outras características que o este livro também trará em seu corpo, o do romance de formação. Em suas páginas Sérgio aprenderá as lições de convivência, a lei do mais forte, a necessidade de se impor tal qual no mundo fora do ambiente escolar, o protagonista passará por apuros e será mais um lançado à cova dos leões famintos, longe de sua família, como tantas crianças que praticamente são abandonadas e esquecidas por seus pais no período em que estudam nestes internatos. Vai tornar-se adulto, mesmo que prematuramente, ao custo de muito sofrimento e saudades.
Sérgio fará amizades e entenderá que a proteção que recebe delas deve ser retribuída com favores, principalmente os sexuais. Desta forma, O Ateneu relata com coragem e ousadia a questão do homossexualismo nas escolas, do qual Sérgio tenta se desvencilhar, mas acaba se conformando, em alguns momentos ser “a namorada” da situação. O diretor da instituição Aristarco retrata o docente vaidoso, que comanda a escola com mãos de ferro e sua esposa D. Ema, simboliza para Sérgio ao mesmo tempo o amor materno e as primeiras manifestações de desejo por uma mulher.
Um romance primordial para a compreensão da sociedade daquela época, de um sistema de ensino tão rígido, cujos ecos ainda fazem-se ouvir nos dias de hoje. Muito se discute sobre ser ou não ser severo nas salas de aulas, que os alunos respeitam apenas os professores duros em conduta nas classes e um monte de coisas, as raízes estão todas lá em O Ateneu que Raul Pompéia cunhou com primor, tristeza e sangue, como suas próprias palavras escreveram próximo do fim do livro:
“E fora preciso que soubesse ferir o coração e escrever com a própria vida uma página de sangue para fazer a história dos dias que vieram, os últimos dias...
E tudo acabou com um fim brusco de mau romance...”