30 de junho de 2012

O Crime do Padre Amaro - Eça de Queirós


A Igreja sempre foi alvo de críticas na literatura, umas veladas, outras ferrenhas. Num país como Portugal, marcado pela forte religiosidade, atacar a Igreja é mexer num vespeiro que causará as piores reações, foi assim com José Saramago no século passado e também com Eça de Queirós, no século XIX. A acidez e a ironia com que se refere a Igreja Católica, seus personagens, seus hábitos e seu poder surpreende mesmo num texto lido quase um século e meio depois de sua publicação. Claro que a Igreja em O Crime do Padre Amaro é apenas um bode expiatório já que a intenção do autor é desmascarar (também) uma Portugal inteira, denunciando seu atraso político, científico, filosófico, sua mentalidade arcaica e tradicional (parte disso devido à influência do catolicismo), a hipocrisia e a corrupção vigentes. Eça de Queirós fez uma literatura militante (não no sentido panfletário), tenaz no desejo de transformar a sociedade através de sua pena, de esmiuçar seus detalhes mais sórdidos.
Ao contar a história do envolvimento do Padre Amaro com Amélia apontou que os problemas estavam todos ali e ninguém queria ver. Amaro, um sujeito que sabe usar a sua insipidez e submissão para manipular as pessoas e conseguir o que quer, revolta-se com o celibato imposto para o seu cargo na Igreja e não esforça-se em preservá-lo, pois outros sacerdotes também não se preocupam com isto, aventurando-se com outras mulheres. Amélia, filha de uma beata viúva, herda o fervor religioso fanático materno e idealiza o amor que sente pelo padre, por este ser um representante da Igreja e estar “mais próximo de Deus”, deturpando os ensinamentos religiosos que recebera.
O crime cometido pelo padre neste romance marco do Realismo-Naturalismo lusitano condensa toda uma classe (o clero), uma cidade provinciana (Leiria), todo um país ultrapassado por outras nações (Portugal) e ultrapassa o Atlântico e outros oceanos fazendo ecos em qualquer local dominado pelo poder secular quase onipresente da Igreja Católica.

Os Sofrimentos do Jovem Werther - J.W. Goethe


            Johann Wolfgang Goethe publicou em 1774 este que é o romance romântico por excelência. Os Sofrimentos do Jovem Werther causou impacto em sua época e inspirou muitos jovens a imitarem o trágico e derradeiro gesto do protagonista, tamanha a identificação que tiveram com seu drama. O suicídio de Werther não é novidade e citá-lo aqui não chega a ser exatamente um spoiler, afinal nada muda o acompanhar a trajetória e a agonia da personagem-título (pois o próprio título do livro adianta as emoções que estão por vir). Goethe recorre ao romance epistolar para mostrar as agruras, sentimentos, esperanças e decepções de Werther, que se apaixona perdidamente por Charlotte, cujo amor é impossibilitado pelo fato dela ser noiva de outro rapaz (situação que tem toques autobiográficos já que o próprio Goethe viveu um romance desiludido).
Nós leitores somos Wilhelm (a quem as cartas de Werther são endereçadas), os interlocutores desta personagem atormentada, dividimos com ele seu sofrimento e suas alegrias e nos preocupamos à medida que sua obsessão por Charlotte cresce e faz-lhe mal e sua história de amor parece-lhe mais distante de concretizar. Certamente vamos nos solidarizar com Werther e nos compadecer de não poder fazer nada para impedir o seu declínio.
            Mas “Werther” não trata apenas de amor, versa sobre o angustiante sentimento de não adaptação do jovem com as regras da sociedade, as dificuldades da vida adulta e de seguir suas convenções (que incluem falsidades, competição, das quais Werther não concorda e compartilha), fazendo da personagem aquela pessoa que não se encaixa e não sente-se pertencente a lugar algum. Como todo jovem hoje em dia e como sempre o foi desde que este mundo é mundo.
            Pelo seu universalismo e sua atemporalidade, Os Sofrimentos do Jovem Werther segue fresco para o leitor por representar um estado de alma (causado pelo amor) de sua época com tanta precisão e atravessar os séculos, pois esta sensação nos acompanhou até atualmente mesmo que com diversas variações e transformações ocasionadas pelos novos comportamentos e realidades.

7 de junho de 2012

O início, o fim e o meio


Assim como nossas vidas, sabemos como todas as histórias vão terminar. A previsibilidade da literatura, do cinema, do teatro e de outras manifestações artísticas não retira o fascínio que estas possuem. Quem nunca torceu por finais felizes, quem nunca soube que o mocinho e a mocinha terminam juntos naquela comédia romântica, que o vilão é castigado nas novelas da televisão, que o autor experimental vai nos surpreender com alguma inovação linguística em seu novo livro, que a vítima do serial killer vai se dar mal por querer entrar na casa maldita, até mesmo o refrão da música inédita do seu cantor favorito ou o próximo verso de sua mais nova composição parece que surge à sua cabeça segundos antes de ser executada? Não é preciso ser nenhum vidente para tal e nem se entediar pelas coisas parecerem tão previsíveis. Pois é justamente a trajetória entre início e fim que vai interessar afinal de contas e nos vai trazer algum significado ou catarse.
Nosso destino inevitável é a morte e isto não podemos interferir. Ao menos a ficção, a arte nos dá o prazer de suspender a vida daquelas personagens no ápice de suas existências ou naquele momento crucial que as definirão para o resto de suas existências ficcionais. Não é assim conosco também? Vivemos até que chegamos a um fato divisor de águas em que nada será como antes se você disser “sim” ou “não”. Dias, semanas ou meses depois você vai escutar aquela música cuja letra vai traduzir o que você está passando, música que também pode ser um poema do Neruda, um conto machadiano ou aquele romance da Virginia Woolf, um quadro de Hopper.
A morte será nosso momento final, significando então que nunca teremos um final feliz segundo a concepção de quem considera a morte o fim de tudo. Querendo ou não uma crença ou religião que seguimos também vai definir parte de nossas ações ou será fachada para encobrir outras mais torpes. Depende da sinceridade de quem as segue. Para quem acredita em vida após a morte ou num paraíso reservado para os eleitos, vai concordar que a morte vai ser o início de uma outra fase, desconhecida, incógnita, porém fresca e nova.
Apesar da morte (e por isso escrevi no início deste post que já sabemos como a vida terminará), a vida nunca pode ser considerada como algo previsível, já que não sabemos quando o final virá ou quem cruzará o nosso caminho, quais amizades vamos fazer ou quais vão se perder com o passar dos anos, quais familiares nos decepcionarão ou nos trarão orgulho, quando virão os momentos de calmaria ou glória ou quando as crises começarão, quem será seu mais novo amor ou quando você vai redescobrir que o seu amor é ainda o mesmo de anos atrás e que este permanece ao seu lado, em qual momento se sentirá a mais solitária das pessoas e quando a solidariedade se manifestará da companhia e das mãos de quem menos esperamos. Estamos todos sujeitos ao destino, aos desígnios de algo ou alguém (que produz o “meio” de nossas existências) que sabe como articular todas as vidas com muita precisão, ou tudo caminha surpreendente ao léu (como nos parece ser a natureza que nos circunda) até que as coisas se encontrem ou se choquem causando tragédias, momentos cômicos, suspense e romance.
Ou seja, quase igual a ficção, a arte. Afinal, uma não imita a outra e vice-versa?