29 de julho de 2012

O problema da espera


Antigamente esperávamos o carteiro com a maior das expectativas, a chegada da carta de alguém querido, um parente ou a resposta tão desejada vinha num envelope marcado por um selo, indicava o remetente e a origem de seu envio, geralmente tinha uma borda verde amarela, era um verdadeiro acontecimento (algumas pessoas se vangloriavam que recebiam mais cartas que a outra). Demorava uma semana, duas, um mês ou até mais e nós sequer morríamos com este fato, apesar da ansiedade que nos acometia de vez em quando. Não lembro onde foi que li (se não me engano um texto do escritor Antonio Prata), mas faço minhas as seguintes palavras, de que a tecnologia nos tornou mais impacientes. Hoje é tudo para ontem. O fato do e-mail chegar até sua caixa de entrada sem a necessidade de um carteiro como intermediário, nos põe loucos para enxergarmos aquela mensagem não lida em negrito entre tantas outras já recebidas.
Outro caso curioso é o celular. Antes dele, nossa vida era resolvida em casa, quando tínhamos uma linha telefônica, claro. Todos os contatos necessários (profissionais, de amizade, românticos) eram feitos na nossa residência (sob a vigilância dos membros da família) ou n’algum orelhão que estivesse funcionando direito (sob o olhar impaciente daqueles que também queriam usá-lo). Agora o celular nos torna escravos, se por um lado temos a facilidade de encontrar quem queremos onde quer que ele esteja (basta que este mantenha o celular ligado ou esteja num local com sinal ou queira ou possa nos atender), pelo outro somos encontrados até mesmo por quem não desejamos (aquela pessoa que você não está a fim de um bate-papo, seus parentes que ligam em horas impróprias ou o patrão que te pergunta onde você está ou liga pra lembrar-lhe da demanda do dia seguinte ou pedir pra você chegar mais cedo). O trabalho chegou junto com o celular e só aumenta com o advento e popularização dos smartphones.
A tecnologia misturou as coisas e os fluxos se confundem, as pessoas desorientam-se com elas e não há mais normas a nos barrar ou conduzir, por mais que tentem impor algum limite ou etiqueta no seu uso, que mesmo assim não se faz tão cerceador assim. O imediatismo dita as regras, pois é rápida a resposta do último e-mail enviado, o comentário do seu último post, do derradeiro SMS ou atualização daquele site que você mais visita na Internet. Velocidade que nos mal acostumou.
Escrevo isto, pois simplesmente preciso apenas de um e-mail ou de uma chamada no meu celular para resolver certos assuntos na vida e nenhum dos dois canais de contato se manifesta, parece até mesmo uma pirraça pessoal. Se eu dependesse de uma carta, minha mente estaria menos preocupada, no mínimo estaria conformada de que tudo iria demorar mesmo. Mas estamos no século XXI no qual não se é permitido esperar...

Amor de perdição – Camilo Castelo Branco


O que seria da literatura sem as histórias de amor impossíveis? Desde Tristão e Isolda, Romeu e Julieta que estas paixões vêm sendo retratadas nas mais variadas formas e locais, mas sempre com o tom trágico e urgente dos escritos que lhes deram origem e inspiração. Cada nacionalidade possui uma espécie de variante deste amor clássico que emociona leitores do mundo todo. Portugal tem em Amor de Perdição o seu representante.
Escrito por Camilo Castelo Branco, este livro emblemático do Romantismo Português narra as peripécias de Simão Botelho e Teresa Albuquerque, filhos de famílias inimigas que se apaixonam e não conseguem concretizar o seu amor. Simão tem personalidade forte, fama de arruaceiro na Universidade de Coimbra, até regenerar-se após se apaixonar pela filha pertencente à família rival e luta contra tudo e todos para ter Teresa em seus braços. Mas o destino parece sempre conspirar contra este amor.
O bom e velho folhetim, com a descrição minuciosa de Camilo Castelo Branco e personagens inesquecíveis como João da Cruz, ferreiro que desempenha uma função paterna, ajudando Simão nas suas tentativas de se aproximar de Teresa, e Mariana, filha de João da Cruz, que é vista por Simão como uma irmã, mas que também alimenta uma paixão pelo protagonista. Ela é ao mesmo tempo a amiga que ajuda Simão e inimiga de si mesma, pois sabe que toda vez que auxilia o seu grande amor, longe de conquistá-lo está.
            A tragédia permeia toda a trama, desde a briga entre as famílias Botelho e Albuquerque, o antagonismo de Baltasar, primo de Teresa que arma para separar o casal e casar-se com ela, à prisão, a reclusão num convento, o degredo, o sofrimento pela distância dos apaixonados, as cartas cheias de lamento que trocam um com o outro.
Para quem está acostumado aos livros açucarados de Nicholas Sparks, ler Amor de Perdição e outros romances e novelas do século XIX ajudará a entender como o amor tornou-se o tema primordial e fonte de inspiração para diversos autores, até cair na banalização naquele mesmo século e ainda repercutir nos dias de hoje em telenovelas, filmes e na música.

15 de julho de 2012

É goooooooooooool!!!


Corinthians, campeão da Libertadores. Palmeiras, campeão da Copa do Brasil. Ambas as vitórias extremamente comemoradas, assuntos de todas as rodas de conversa, um verdadeiro monopólio no bate-papo entre os homo sapiens. Incrível como o futebol desperta ações e reações acaloradas, paixões inflamadas e brigas igualmente abrasadoras. Virou um assunto tabu, está ao lado da existência de Deus e das preferências sexuais entre aquelas conversas que nunca chegarão a lugar algum, porque ninguém abre mão de seu ponto de vista e ainda quer convencer e converter o outro de que está certíssimo.
Logo de início compartilho que não torço por nenhum time, sequer me abalo com os jogos da Seleção Brasileira na Copa do Mundo (na campanha do pentacampeonato, dormia tranquilamente enquanto todos perdiam seu sono na madrugada para acompanhar os jogos do Brasil). Não quero ser também o sujeito arrogante que despreza aqueles admiradores do futebol, afinal as pessoas gostam deste esporte da mesma forma que eu adoro ler e ver filmes, uma paixão como outra qualquer, nem menor, nem maior.
No fundo me atrai o caráter passional que motiva e move cada jogo e suas personagens. A ânsia causada na torcida durante os passes, dribles, chutes dos grandes jogadores, a alegria gerada pelo acertar da bola na rede (mesmo que isto custe minha noite de sono, como nos últimos dias em que fogos pipocaram no céu como se fosse uma noite de réveillon). Chama-me a atenção o dom enciclopédico de algumas pessoas de lembrar-se da escalação do time no amistoso de quinze anos atrás ou do primeiro título importante em 1974. E me divertem as provocações entre os integrantes de torcidas rivais que beiram a grosseria e o preconceito, no entanto tudo assimilado e levado como brincadeira por quem fala e quem ouve. Mas um fato que é incompreensível para mim é a violência de uma minoria que mata e agride pessoas de outras torcidas, além de ameaçar seus jogadores e fazer vandalismo nos estádios e nas ruas. Por mais amor ao time de coração que esteja envolvido nesta história, nada consegue justificar estas atitudes.
Brasil é o país do futebol e esta paixão não data só de hoje e foi muito explorada pelos militares como uma forma de distrair os brasileiros das atrocidades e crimes cometidos durante a ditadura. Acredito que, mesmo de uma forma mais velada e estando hoje num contexto “democrático”, o futebol ainda serve para a mesma tática política de dispersar os pensamentos das pessoas dos problemas que afligem nosso país e da roubalheira descarada que se faz nos congressos e câmaras. Se as pessoas aproveitassem a mesma verve fanática que tem para com seus times favoritos para cobrar os seus direitos dos políticos que votaram na última eleição, este Brasil poderia estar um tanto melhor.
Também não vamos culpar os torcedores de futebol pela miséria e corrupção brasileira, a nossa triste realidade é fruto histórico, data desde 1500, a coisa só foi agravando com o passar dos séculos e anos, incrustou-se na pele e não há banho que faça sair essa passividade e esta mania de querer tirar proveito de tudo. Se tiver que haver uma mobilização tem que ser de uma grande massa e não somente de um determinado grupo ou segmento, o que faz com que meu lado pessimista e niilista aflore para dizer que as coisas possam não ter mais solução.
Enquanto isso o futebol segue rei e majestade como o esporte mais popular do mundo e em terras tupiniquins, conquistando um número maior de torcedores (homens, mulheres, adultos, crianças) e produzindo talentos para exportação. Eu continuarei impassível diante do correr de 22 jogadores atrás de uma bola sobre um gramado verde, pois como já costumo conversar com meus colegas: é uma preocupação a menos na minha vida. Por outro lado, devo reconhecer que é uma alegria a menos também.