21 de outubro de 2012

A Trégua, de Mario Benedetti


     Escolher o livro para se ler envolve muitos mistérios além das óbvias preferências literárias por um autor ou gênero. Às vezes, a sorte ajuda na escolha feita e você acaba se surpreendendo. Foi o que aconteceu comigo com o romance A Trégua, do uruguaio Mario Benedetti. Não conheço sua obra, tive contato com este trabalho pela coleção do jornal Folha de São Paulo e nem era uma das minhas primeiras opções entre os autores mais populares como Borges, Lorca e Saramago que compunham os outros títulos integrantes. Eis que o pego a esmo na fileira organizada dentro do guarda-roupa e, num passe de mágica, após o contato com as primeiras palavras, já estava eu preso aos escritos de um diário ficcional de um funcionário de repartição viúvo prestes a se aposentar e que redescobre o amor. Martin Salomé, 50 anos, tem um trabalho burocrático, uma relação distante com os filhos, um olhar pouco impressionável sobre as coisas, um tanto frio, talvez influência do tipo de função que exerce e da falta que sente da esposa morta. Laura Avellaneda, sua nova funcionária, traz um pouco de cor à sua vida gris, dando-lhe novas perspectivas para sua aposentadoria a qual não esperava mais nada além do prolongamento do tédio que sente no seu serviço e na vida familiar. Um romance emocionante que nos cativa pelos relatos sinceros escritos pelo protagonista que se equilibram entre a dureza e a ternura, o desengano e a delicadeza, o inspirador e o melancólico em páginas que devoramos em questão de dias e dificilmente as esquecemos.

Manifesto contra o horário de verão






Quero minha 1 hora de volta.
Algumas pessoas gostam do horário de verão, eu integro os outros 99,99% que odeiam esta usurpação do tempo que já é tão escasso. Meu relógio biológico entra num conflito intenso com o relógio digital. Tudo bem, chegará a noite e ainda estará claro, porém é somente esta a vantagem. Acordo cedo, mesmo com as 5:30 da manhã indicando no relógio, sei que na verdade estou levantando uma hora mais cedo do que o normal, o pior, que eu poderia ter dormido nesta hora suprimida. Falam também que o dia passa mais rápido, concordo. No entanto, ainda preciso trabalhar as minhas 10 horas por dia e elas, sim, continuam se arrastando como outrora.
Quero a compensação desta 1 hora perdida. Agora! Nada de esperar pelo ano que vem, quando o horário de verão termina e atrasamos os relógios. Um dos momentos mais assustadores da minha infância era ouvir o anúncio da TV Globo de que o horário de verão iria começar no próximo sábado a partir da meia noite. Era uma voz masculina soturna, sombria e eu sempre estava sozinho ou com os meus irmãos sob a companhia de um quadro sinistro de uma cigana (naquela época não podia depreender se ela era oblíqua e dissimulada) que minha mãe possuía. O trauma já foi superado, mas um pouco desta sensação estranha ainda me persegue até hoje quando vejo a chamada na televisão nos meses de outubro. 
Talvez resida daí meu ódio ao horário de verão, a psicanálise deve explicar alguma coisa. Enquanto isto o corpo procura se adaptar mais uma vez, com pouco sucesso certamente.

15 de outubro de 2012

O leão


Muitos falam de matar um leão por dia. Posso dizer que acordo com um diariamente. A mesma juba imponente, a pose ameaçadora (diferente da doçura daquele desenho da Disney), os dentes afiados prontos a me dilacerar, animal que me acorda com seu rugido como um escandaloso despertador, arrancando-me das cobertas, apesar de tanto sono e cansaço. Este leão não é nenhum bicho de estimação, por mais que esbanje a arrogância felina por todos os seus pelos brilhosos, pois se distancia da simpatia que todo cão desperta no ser humano mais sensível. Mesmo assim, preciso levá-lo para sair todos os dias. O leão me acompanha pelas calçadas, nos coletivos, enfrentando a aglomeração dos vagões e a falta de educação das pessoas apressadas e atrasadas (espécie em superpopulação nesta cidade, quase uma praga urbana igual aos pombos). O rei das selvas segue-me no emprego, testemunha das idiossincrasias dos chefes e colegas de trabalho. Isto quando não tenta, faminto, usurpar meu almoço.
Em oposição à minha estafa física e mental, o leão persiste vigoroso, majestade que é, não perde a pose, zeloso de sua coroa, cioso de sua posição nobre, contrastando com a minha figura plebeia, pobre coitado, que não nascido em berço de ouro, nem imperador das selvas africanas, precisa ainda batalhar seus trocados e seu estudo.
O leão dorme cedo e influencia a minha vontade de descansar, uma briga interna e física contra o sono que insiste em se manifestar durante a aula. Por vezes, as mordidas do leão na minha perna me acordam quando nem sequer me lembro em qual lugar estou (faculdade, metrô, ônibus, até mesmo em casa). E assim prossegue esta relação estranha e nada amistosa entre humano e régio felino.
Impossível abater um leão por dia. Ele ressurge e renasce como uma fênix, ressuscita como Cristo, para sempre nos desafiar e nos empurrar à frente ou ao chão ou por-nos estáticos e medrosos diante de sua figura. Sem este leão como companhia, o que seria de nós, adultos, civilizados, meros súditos e peças de um jogo maior do que nós, maior que tudo aquilo que julgamos compreender?  Certamente a vida perderia sua usual opressão e se encheria de muitas outras possibilidades.
A morte do leão é utopia como aquela de que haverá um mundo melhor (em tempos de crise cada vez mais acentuada, parece que o fim é iminente). E assim aprendemos a conviver com ele, carregando-o para todos os cantos, de cima abaixo, mas sem nunca conseguir domesticá-lo ou abatê-lo com uma carabina.