3 de fevereiro de 2013

Na Estante 2 – Tia Julia e o Escrevinhador (Mario Vargas Llosa)


Livro: Tia Júlia e o escrevinhador
Coleção Folha Literatura Ibero-americana
Autor: Mario Vargas Llosa
Editora: Media Fashion
Ano: 2012
Páginas: 402


“Por que esses personagens que se serviam da literatura como adorno ou pretexto seriam mais escritores do que Pedro Camacho, que só vivia para escrever? Por que eles tinham lido (ou, ao menos, sabiam que deveriam ter lido) Proust, Faulkner, Joyce, e Pedro Camacho era pouco mais que um analfabeto? Quando pensava nessas coisas, sentia tristeza e angústia. Cada vez mais evidente para mim que a única coisa que eu queria ser na vida era escritor e cada vez, também, me convencia mais de que a única maneira de sê-lo era entregar-me à literatura de corpo e alma. Não queria de nenhum modo ser um escritor pela metade e aos pouquinhos, mas um de verdade, como quem? O mais próximo que eu conhecia desse escritor em tempo integral, obcecado e apaixonado com sua vocação, era o novelista boliviano: por isso me fascinava tanto.”

As reminiscências do passado sempre servem de inspiração para escritores colocarem no papel, através da ficção, fatos que marcaram suas vidas. Mario Vargas Llosa, escritor peruano que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 2010 também não deixou de dar toques autobiográficos no romance Tia Julia e o Escrevinhador, que retrata a estória de Mario às voltas com um caso amoroso com sua tia e o contato com um prolífico e excêntrico escritor de radionovelas, Pedro Camacho. A descoberta do amor e o recrudescimento do desejo de ser escritor que rondam este personagem acontecem junto a um painel da Lima dos anos 50 embalado pelas narrativas mirabolantes e melodramáticas de Pedro Camacho, um escritor que leva a sério demais sua profissão, afetado e exagerado em sua maneira e modo de falar, mas que tem como resultado de seu trabalho uma imensa audiência e repercussão para a Radio em que Varguitas trabalha como redator de notícias. Varguitas, como é chamado pela família, alimenta sonhos de morar em uma água furtada em Paris, tornar-se escritor, porém tem dificuldades para desenvolver as estórias de seus contos, geralmente inspirados por relatos que escuta da família e dos colegas. Admira-se do vigor de Camacho, capaz de ficar horas a fio escrevendo as suas novelas exibidas em diversos horários, enfrenta problemas quando o seu flerte com Tia Julia, outrora um relacionamento pueril e inconsequente, quase adolescente, com direito a passeios ao cinema e mãos dadas às escondidas, evolui para sentimentos mais profundos e a posterior descoberta deste romance pelos seus familiares. Paralelamente temos contato com as curiosas narrativas escritas por Pedro Camacho e reproduzidas com elegância e bom humor por Vargas Llosa. Llosa não nega a influência destas narrativas em sua carreira como escritor e a sua menção é sempre feita com respeito apesar dele não abolir o ressaltar de seus aspectos mais engraçados e kitch, o próprio imbróglio de Varguitas ganha contornos de uma novela quando a família dá sinais de oposição. Tia Júlia e o Escrevinhador pode ser um ótimo início para conhecer a obra de Mario Vargas Llosa, um dos grandes nomes da literatura latino americana.