23 de fevereiro de 2014

Eu quero é botar meu Black Bloc na rua...


Na verdade desejo registrar apenas o quanto todos estão cansados da violência. Aquela que mata o inocente, que foi provocada pelo bandido, que oprime o pobre, que encurrala o rico, que atinge a polícia (e que esta revida com maior impacto), o Estado e o indivíduo, em suma, todos nós. Todos pagam muito caro. O mundo está insustentável, insuportável, uma opressão que o calorão das últimas semanas só tende a fazer piorar. É óbvio que tanta agressividade, de ambas as partes nestes protestos, manifestantes e policiais, não está levando a lugar algum. Apenas cinde as pessoas entre as que apoiam e as que reprovam sem meias palavras, sem busca de maiores compreensões. Deixam-se levar pelo o que a grande mídia apregoa. A mídia que insiste tornar as coisas mais maniqueístas do que já são. Pacíficos e baderneiros. Será que estas manifestações podem se resumir a tão pouco?
E um mar de confusão abriu-se no meio do Brasil. E não foi Moisés que conseguiu tamanha proeza. Todo mundo tem em si um espírito Black Bloc, um sentimento de indignação com o estabelecido, um afã de desestabilizar com radicalismos, um constante exaltar. Contra a Copa do Mundo e por mais saúde e educação. Contra aquele chefe que o oprime e a favor de mais humanidade nas relações de trabalho. Contra a falência do transporte e por uma locomoção sustentável. Somos todos panelas de pressão que, desenfreadas, explodem, expelem o feijão no teto, suja e põe a casa em perigo. Soltamos rojões e molotovs a esmo que vão ferir e matar. A troco de que? E por mais que tente-se entender os dois lados de toda esta história, ambos surgem nebulosos.

Manifestações são válidas. Desde sempre existiram. Desde muito tempo determinaram importantes mudanças na história do Brasil e do mundo. Sua repressão violenta pelos aparelhos do Estado só denotam o despreparo de uma nação que não sabe o diálogo e busca as negociações pela opressão. Enquanto a resposta for tão agressiva quanto a repressão empreendida pelas autoridades, a razão estará perdida para o lado de quem protesta e o jogo se inverterá certamente a favor dos governantes, vide o caso da morte do cinegrafista Santiago Andrade da Band, que morreu dias após ser atingido por um rojão numa manifestação no centro do Rio de Janeiro no último dia 06 de fevereiro. Violência gera violência. No entanto ainda ninguém aprendeu a lição.

14 de fevereiro de 2014

Na Estante 13 - Nós Matamos o Cão-Tinhoso (Luis Bernardo Honwana)


Livro: Nós matamos o cão-tinhoso
Autor: Luis Bernardo Honwana
Editora: Biblioteca Editores Independentes
Ano: 2008
Páginas: 156


 “O Cão-Tinhoso tinha uns olhos azuis que não tinham brilho nenhum, mas eram enormes e estavam sempre cheios de lágrimas, que lhe escorriam pelo focinho. Metiam medo aqueles olhos, assim tão grandes, a olhar como uma pessoa a pedir qualquer coisa sem querer dizer.” (p. 13)

Nós Matamos o Cão-Tinhoso é um clássico da literatura moçambicana. Escrita e publicada no período em que a luta pela independência do país (o livro foi publicado em 1964) atingia seu ápice, esta coletânea de contos reflete bem este momento político. O livro foi escrito por Luis Bernardo Honwana enquanto estava preso e marcou uma nova fase para a então incipiente literatura do país africano que tem a língua portuguesa como língua oficial. Além do conto que dá título ao livro, o melhor de todos, temos outros textos que retratam a condição do negro (que o conto “As mãos dos pretos” expõe de forma original e poética), a tensão entre colonizadores e colonizados (muitos dos países africanos colonizados por Portugal apenas conseguiram sua independência na década de 1970) e a exploração e o preconceito existentes naquele país. O tom planfetário muitas vezes prejudica as narrativas em que a linguagem poética cede lugar ao discurso político, mas que são compreensíveis num período em que a luta pela independência se dava pela via armada e também pela palavra (Os escritores e poetas tiveram um papel fundamental nesta busca de países como Moçambique, Angola, Cabo Verde, entre outros, por liberdade, Honwana inclusive), tratou-se então de uma escolha coerente. “Nós Matamos o Cão-Tinhoso” retrata a estória de Ginho um garoto nativo assimilado (que convive e frequenta a escola dos brancos) que se sensibiliza e fica penalizado com figura do Cão-Tinhoso, um cachorro cheio de sarnas e feridas que incomoda a todos no vilarejo e é escorraçado até mesmo por outros cães. Até que o Senhor Duarte da Veterinária chama um grupo de crianças, a malta, para matar o cachorro e Ginho, por fazer parte do grupo e precisar também ganhar o respeito dos colegas, é incumbido de dar o primeiro tiro no animal. Houve quem interpretasse esta estória sob o viés de que o cão-tinhoso representasse o colonizador que precisa ser eliminado para ceder lugar ao colonizado e pôr fim a anos de opressão e houve quem considerasse o cão-tinhoso como o próprio nativo que incomoda e precisa ser eliminado pela metrópole não só através da violência mas pela aculturação e o apagamento de sua história e tradição. Ambas visões válidas para uma obra que ainda faz-se contemporânea e urgente, relevante até em terras tupiniquins que vivem intensamente as injustiças que, desde os tempos da escravidão, desde depois do fatídico 22 de abril, pesam nas suas questões sociais e raciais.

9 de fevereiro de 2014

Na Estante 12 - Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (J. W. Goethe)


Livro: Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister
Autor: Johann Wolfgang Von Goethe
Editora: 34
Ano: 2006
Páginas: 606


        Goethe escreveu o romance fundamental da literatura alemã: Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister. O autor inaugurou aquele que seria o modelo para um novo gênero literário: o romance de formação ou o Bildungsroman. Na trama temos o jovem Wilhelm Meister que anseia por uma formação completa e ressente-se das limitações que a sua classe, a burguesia, tem em relação à aristocracia. Ele decide abandonar os negócios da família para se dedicar ao universo teatral. A busca de Wilhelm Meister pela sua capacitação e formação é detalhada com argúcia pela pena de Goethe e a inovação deste romance é o de também educar o leitor enquanto o protagonista passa por um processo de amadurecimento.  Em toda a trajetória de Wilhelm Meister, Goethe tece considerações sobre a arte, o teatro, a sociedade da época, os valores da burguesia em ascensão naquela época (não sem conservar certo fascínio pela nobreza). Wilhelm é um herói às avessas, relutante, idealista, romântico, ingênuo, rodeado por personagens femininas de personalidades muitas vezes mais forte do que a dele e que determinam parte de suas atitudes na trama. Um livro filosófico, erudito porém acessível. Antes de tudo Os anos de aprendizado é um livro de estória envolvente e bem engendrada, o autor alemão soube costurar bem os fatos deixando boas e grandes revelações ao longo do final do livro. Wilhelm Meister é um clássico que influenciou diversos autores no mundo todo e tornou-se um dos formatos mais homenageados e parodiados desde então. Portanto, uma leitura obrigatória para qualquer apaixonado por literatura.

2 de fevereiro de 2014

Das cenas finais de Amor à Vida




Walcyr Carrasco fez história na televisão brasileira e bastaram duas cenas para que este feito fosse atingido. A penúltima cena foi o tão esperado beijo gay entre os personagens Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso). A última cena foi a bela, tocante e surpreendentemente (para uma novela que abusou das fortes emoções mexicanas) não piegas reconciliação dos personagens Félix e César (Antonio Fagundes).
Com exceção de Xica da Silva (escrito sob o pseudônimo Ádamo Angel) e O Cravo e a Rosa, não gosto das novelas do Walcyr. Todas repetem as mesmas fórmulas e abusam do melodrama e possuem um texto muitas vezes péssimo e cheio de chavões e clichês. Com a sua ida para o horário nobre das 21 horas, surgiu a esperança de que este perfil de escrita mudasse, devido ao período reservado à tramas mais sérias, ou o medo de que todos os defeitos dele como autor permanecessem. A segunda opção acabou acontecendo fatalmente.
Mas dizer que a trama de Walcyr Carrasco não tem acertos seria injusto. O personagem de Mateus Solano foi um deles. Félix, por mais estereotipado que fosse, foi um personagem que logo de cara conquistou o publicou e o divertiu com suas tiradas e língua ferina. Fora isso, Félix era um vilão ou a "bicha má" da estória, como muitos o apelidaram. Outro acerto, a figura de César, médico adúltero e homofóbico. O ódio do pai ao filho que desejava o seu amor e atenção movimentou praticamente toda a trama. O tema do homossexualismo foi abordado com apuro e Félix tornou-se o catalisador de grande parte da discussão que se levantou a respeito deste assunto.
Sua redenção e a aproximação de outro personagem gay que sofreu com a traição do marido com a melhor amiga fez os espectadores torcerem pelo novo casal mais do que pelos protagonistas (que já tinha todos os seus conflitos praticamente resolvidos dentro da trama). O beijo gay era aqui uma consequência natural e a Globo, muito esperta e de olho nos frutos que a opinião pública iria produzir, deu bandeira verde para que a tão esperada cena fosse ao ar. Uma vitória para os homossexuais que desde sempre sofreram com o preconceito de toda a sociedade. Não que o beijo gay vá dirimir todos os problemas e as violências físicas e psicológicas pelas quais homossexuais ainda passam, mas a sua exibição no horário nobre no programa de maior audiência da emissora mais vista no país significa um avanço e que a sociedade enfim está mudando os seus conceitos ou dando um passo adiante para uma tolerância ainda maior.
Se outros beijos vão acontecer, se a campanha vai ser agora por uma transa gay ou se será o futuro casal de lésbicas da nova novela de Manuel Carlos que vai impulsionar a torcida do público ninguém sabe, mas já estamos ansiosos pelos próximos capítulos...