24 de abril de 2014

Na Estante 18 – Clara dos Anjos (Lima Barreto)


Livro: Clara dos Anjos
Autor: Lima Barreto
Editora: Escala
Ano: 2011
Páginas: 144


Lima Barreto era um escritor maldito e marcou história na literatura ao usar sua pena para retratar personagens marginalizados. Algo parecido com o que a literatura de Fernando Bonassi e Luiz Ruffato representa na contemporaneidade. Clara dos Anjos foi publicado postumamente e estão lá em suas páginas os bêbados e os trabalhadores, os malandros e os bandidos, entre outras figuras recorrentes dos subúrbios. O ruim é perceber que muito da realidade que é contada pelo autor de O Triste Fim de Policarpo Quaresma ainda permanece atual. Lima Barreto descreve os morros, a periferia, o hábito de quem apenas sobrevive com o mínimo do dinheiro que ganha e luta para manter ao menos a honra ou o pouco que sobrou dela. Clara é a filha do senhor Joaquim dos Anjos e da dona Engrácia que vivem preocupados com a ameaça apresentada pelo sedutor Cassi Jones, um violeiro que tem fama de conquistador e mau caráter e de ter tirado a virgindade de dezenas de moças virgens e pobres, abandonando-as grávidas, além de se meter em confusões com mulheres casadas. Clara é, ao mesmo tempo, vítima de Cassi e da educação dada pelos próprios pais (passivos que eram em relação ao mundo), que não lhe deram a capacidade necessária de discernir as más intenções das pessoas para fugir das investidas de homens como Cassi Jones. Clara, apesar de todos os conselhos e avisos contrários dos amigos de seus pais, acaba deixando-se ludibriar pelos encantos e as mentiras de Cassi. Outros personagens ganham destaque como o poeta Marramaque, o Menezes, e suas existências miseráveis e crises de consciência, além da mãe de Cassi, que sempre o livra das confusões e da prisão fazendo com que o violeiro sinta-se mais impune e livre para repetir suas conquistas. Clara dos Anjos é um painel da vida no Rio de Janeiro do início do século XX sem jogar para debaixo do tapete aqueles que sempre vivem nos bastidores da sociedade e sofrem com o preconceito e a exclusão. Uma das principais obras de uma das mais originais vozes da prosa brasileira que descortinou um Brasil pouco retratado pelas letras tupiniquins e obteve o reconhecimento, mesmo que tardio, dos Modernistas, dos críticos e do público leitor.

21 de abril de 2014

Dos feriados


Anseias pelo descanso. Perscruta o calendário em busca dele. À caça dos sábados (nem todos são possíveis) e domingos. À procura dos feriados. Esperanças de possíveis “emendas”. O corpo cheio de expectativas. De dormir até tarde. De esquecer os problemas. De se divertir demasiadamente. De que este dia, em que a maioria está de folga, seja marcante de alguma outra forma. Eternizado em fotografias ou gravado na memória emotiva. Feriados frustram, pois infelizmente têm fim. O tempo não cessa e acaba com este dia tão aguardado. Que mal começou! Feriados são rápidos como tudo que é bom. Possuem a velocidade da luz ou a de um piscar de olhos. Trazem consigo, com a sua finitude, as responsabilidades, os deveres, o serviço abandonado no dia útil anterior. Estão de volta ao bojo das discussões, ao centro das nossas atenções tudo aquilo que tentamos esquecer. E a vida real, outrora suspensa, retorna com toda intensidade. Quiçá aguardar o próximo mês diminua a ânsia que se alimenta com o decrescer do dia, do derradeiro feriado. Tempo último do descanso, templo útil do marasmo, inevitável como o dia seguinte.

18 de abril de 2014

Solapado!

O dicionário Aurélio define “solapar” como aluir, abalar, arruinar, destruir. Solapado! Ele descobrira a palavra nas aulas da faculdade e, de repente, ela surgia como uma tradução de si mesmo, do seu estado existencial e físico. De onde se oriunda este cansaço? Marasmo do fim do dia. Marxismos na cabeça após o trabalho. Uma neurastenia misturada ao tédio amalgamado à impaciência. Nada de novo. Nadica de nada. Apenas a espera. Grande expectativa entrecortada de sono, muito sono. Aquele acumulado pelos correr dos anos, acumulados pelos semestres de estudo, de noites mal dormidas, espaçadas e curtas, compensadas no banco do metrô ou no assento do ônibus. Numa pescada só. Enfim, tinha uma resposta, um adjetivo que o definisse. Ele tinha a consciência, desde as aulas, de que toda a sua ancestralidade padecia do mesmo mal. Gerações anteriores que viviam ainda em épocas menos tolerantes. Todo o preconceito e toda aculturação que sofreram em sua trajetória. Frutos de ideologias torpes que ainda encontram ecos na atualidade, em discursos retrógrados de apresentadores de televisão, de incitações de comentaristas irresponsáveis. Sentimento que perpassa sua pobre alma, seu bolso pobre. Seus pobres hábitos e seu entorno pobre. Qualquer um. Todo ser humano talvez já tenha se sentido solapado. Por N motivos. Por um X sem solução, impossível de encontrá-la com uma simples regra de três. Qualquer ser pode sentir-se assim independente dos determinismos que insistem em condená-lo ou elevá-lo, querendo diminuir seus méritos e sua luta. Insistindo em dirimir sua persistência. Luta esta que permanece diária. Tenazmente diária. E de tanto esforço, de tanta porrada levada aqui e ali. Tapas na cara, socos no estômago, chacoalhões da van apressada. Permaneces assim, solapado. Sentimento habitual. Anterior a tudo. Secular.

12 de abril de 2014

A prova do recalque


Quando eu li sobre a famigerada e controversa questão de uma prova de filosofia taxando a funkeira Valeska Popozuda como “grande pensadora contemporânea” pensei que se tratasse de uma pergunta de concurso público ou algo parecido. Depois verifiquei que era a respeito de uma prova aplicada numa escola pública em Brasília. A questão fora elaborada pelo professor Antonio Kubitschek que alegou ter abordado e discutido em sala de aula sobre a influência dos artistas e da mídia na vida e na criação de valores na sociedade e que a intenção dele era mesmo chamar a atenção. Em suas palavras, numa entrevista à Rádio Band News: “A partir do momento em que a Valesca faz uma música tão repercutida a ponto de a expressão ‘beijinho no ombro’ ser usada até pela mídia, ela está passando um conceito. Se considerarmos uma tendência filosófica que diz que todo mundo pode ser um pensador, desde que consiga criar um conceito, eu acho que a Valesca é sim uma pensadora”. Em outro momento, o professor reclama que a mídia se interessa apenas por fatos negativos, que denigrem o ensino. Convidou alguns jornalistas para presenciarem uma exposição de fotografia organizada pela escola, porém nenhum se interessou em cobrir o evento.
Não sei vocês, mas considero a explicação do professor muito plausível. Só não entendo esta celeuma toda em torno deste caso. Pessoas já estavam anunciando o armagedom da educação brasileira, que segue em franca decadência, “aonde este mundo iria parar e os nossos jovens?”. Acredito que 99% das pessoas, antes de compartilhar a notícia com indignação sequer se preocuparam em tentar entender as intenções do professor. Ele se propôs a dar uma aula voltada aos temas contemporâneos que certamente gerou muito mais debate entre os alunos. Fez aquilo que sempre foi apregoado por diversos pedagogos: considerar a realidade dos alunos e o seu contexto social, trazendo para o ambiente escolar os assuntos de interesse geral, que possam despertar a sua atenção.
O funk continua sendo alvo de críticas pelas pessoas de “bom gosto”. Não ouço funk, apesar de sua batida envolvente, também me impressiono com o teor explícito de suas letras e a desafinação de seus intérpretes, no entanto é preciso entender o ritmo como expressão de uma classe social. Por que fala tão próximo a essas pessoas? Ostentação ou não, proibidão ou não, sexual ou não, o funk está na moda já há muito tempo. Assim como o axé music esteve pelos longínquos anos 90. Alguém se lembra quando quase todo mundo requebrava as nádegas e a cinturinha para lá e para cá (incluindo crianças e adolescentes) os versos de duplo sentido do “É o Tchan” e companhia? Beto Jamaica, Cumpadre Washington, Carla Perez estavam na crista da onda. Mesma posição em que se encontram hoje os diversos Mc’s, e a funkeira do “Beijinho no Ombro”, com maior longevidade do que o previsto. Figuras estas oriundas, em sua maioria, da periferia, que pouco se importam com o que pensam seus detratores (ou recalcados, como diria o jargão tão em voga ultimamente). A repercussão positiva no programa Esquenta ou negativa nas redes sociais tanto faz para eles, é repercussão da mesma forma. Seus nomes continuam em evidência.
Concordo com o professor Antonio Kubitschek quando afirma que se fosse algum artista da MPB, como Chico Buarque ninguém comentaria. Poderia até acontecer, num caso muito excepcional, diversos elogios de pessoas admirando os versos do compositor de “A Banda”, entre outros clássicos, certamente ocorreria uma revisão de sua obra para encontrar, quiçá, vestígios de um pensamento filosófico insuspeitado, comparações com determinadas correntes de pensamento. No entanto, existem letras da cultuada MPB que beiram o medíocre e o patético, só que embaladas numa roupagem sofisticada e pseudointelectual. Falar que gosta de MPB serve mais ao ego do indivíduo que expressa sua preferência do que exatamente aos seus ouvidos.
Antes de tudo, por mais chocados que fiquemos, é necessário analisar os fatos com distanciamento e evitar ao máximo interferências daquilo que julgamos certo e errado, dos nossos valores e nossa cultura. Alteridade antes de tudo, antes dos discursos inflamados de amor e ódio. Alteridade antes do desespero e da indignação. Coisa pouco comum nas redes sociais hoje em dia. Um pouquinho de contextualização não fará mal a ninguém.


5 de abril de 2014

Meu canudo de papel


 Na sexta-feira retrasada retirei o meu diploma na faculdade. Engraçado, mas o sentimento de conclusão do curso de Letras, de dever cumprido só se concretizou por completo agora com o papel em mãos, comprovando a minha licenciatura. A sociedade vive do registro. A palavra escrita desde os primórdios, quando o ser humano desenvolveu e apurou a noção da linguagem, tornou-se veículo para comprovações, ganhou status definitivo de documento, de prova cabal. Sou um homem de palavra, mas se puder formalizar isto através de algum documento, um e-mail, um SMS que seja, as coisas ficarão mais tranquilas e mais passíveis de confiança.
Esta mania do protocolo, exigência do documento oficial, de um número de identificação advém do nosso senso de prevenção. É mais fácil cobrar o que pode ser mostrado depois na folha de papel ou na tela do computador ou no arquivo anexo do e-mail do que apenas relevar ou fiar-se na palavra alheia, na promessa oral, na frase que garante, mas que não pode cumprir, ou pior, desmentir o dito. Já cantou Elis Regina com o maestro Jobim: “Pois é, fica o dito e o redito por não dito”. No meu caso não basta dizer: “estou formado”. No máximo me pedirão: “Mas e o diploma?”. Ou seja, sem o velho canudo nas mãos minhas afirmações não valerão nada.
A palavra proferida ainda tem força (E Deus criou o universo pelo verbo, não foi?). Por exemplo, uma sentença de condenação ou absolvição proferida pelo juiz, o anúncio do casamento entre duas pessoas pelo padre ou pastor. No entanto, a certidão de casamento, no caso do matrimônio, tem mais poder de comprovação do que a cerimônia do casamento na igreja. É a certidão que será cobrada e aceita pelos órgãos oficiais (Assim como a teoria criacionista certamente foi transposta para a Bíblia Sagrada para ter maior validade entre os fiéis e crentes). Mas nem tudo é negativo: Imagina o que aconteceria se toda a tradição oral das mitologias de cada país, mesmo que transferida de geração à geração, não fosse transcrita. Não existiria a Ilíada ou a Odisseia, por exemplo, ou estas sofreriam severas transformações, descaracterizando-se totalmente. Ainda bem que Homero decidiu fazer esta compilação.
Mesmo assim, toda esta necessidade, claro, torna ainda mais burocrática nossa vida e a interação com os outros setores que regem a sociedade. Tanta papelada, tantas filas, tanta exigência de se atestar com os devidos registros. Acabamos vivendo num mundo kafkaniano onde o protocolo tem mais importância. Como se estivéssemos em meio ao romance O Processo, sem saber do que somos acusados, precisando provar tudo. Pelo papel e nada mais.