20 de setembro de 2014

Na Estante 22 - Os Problemas da Estética (Luigi Pareyson)


Livro: Os problemas da estética
Autor: Luigi Pareyson
Editora: Martins Fontes
Ano: 1997
Páginas: 246



Há livros que devem ser lidos mais de uma, duas, dez vezes. Este ensaio de autoria do filósofo italiano Luigi Pareyson retoma as preocupações e os pensamentos mais correntes a respeito da apreciação estética de uma obra de arte, que vai muito além do tradicional conceito do belo. Os Problemas da Estética parte desde a concepção da obra (a obra imaginada e a obra finalizada), do material utilizado pelo artista, pelos conceitos de coparticipação do público na completude uma obra de arte, até mesmo a sua execução (através da leitura, da exposição num museu, da representação teatral, da apresentação musical e assim por diante), a diferenciação do trabalho do artista com a do artesão e evita até mesmo as concepções mais românticas em torno da criação artística. Trata-se de um livro de difícil interpretação, mas que expõe de forma profunda e questionadora cada etapa do fazer artístico, amparando-se e refutando as ideias de outros pensadores (como Croce, sempre citado durante as reflexões que levanta durante este trabalho). A primeira frase desta resenha justamente traz a confissão de quem leu, mas sabe que não apreendeu (mas não necessariamente não tenha gostado) o trabalho de Pareyson como um todo (se isso for realmente possível). Textos difíceis são desafios e um deles foi superado após ter chegado ao fim do livro, mesmo que com mais perguntas a fazer do que com respostas obtidas. O bom de uma obra é que traga a inquietação e o desejo de investigar um pouco mais. Esta centelha o filósofo conseguiu acender. Agora é tomar fôlego e coragem para um segundo contato.

5 de setembro de 2014

Do ódio à política



Brasileiro nunca gostou de política, fruto da educação e da onipresença televisiva alienantes na rotina dos cidadãos. A mesma constatação se instaurou nas redes sociais, uma praga que resulta em opiniões cada vez mais deslocadas, equivocadas, unilaterais, irracionais e conservadoras (poço pródigo da raiva e preconceitos arraigados na nossa cultura). Os retrógrados encontraram nesta plataforma, que representaria a modernidade, o meio perfeito de exercer a covardia de poder expressar suas opiniões de forma anônima e sob o conforto de um perfil virtual, sem o confronto ao vivo e pessoal. Estamos avançando uns cem passos para trás, mesmo que este retroceder seja para tempos negros de uma tal ditadura que há 50 anos assolou as terras tupiniquins.
É justificável a raiva que temos da política e seus representantes; as injustiças e desigualdades pululam por aí, gritam aos nossos olhos todos os dias. Por outro lado, pregar o ódio à política, sinceramente, mais parece preguiça das pessoas que não querem se dar ao trabalho de escolher ou pesquisar o candidato que valerá o seu voto, aquele que mais se aproxima de seus ideais e objetivos, a viabilidade de suas propostas. A máxima de que “político é tudo igual” é também um ato de omissão, é querer se isentar da responsabilidade de colocar alguém apto para representá-lo na presidência, no governo, no senado e na câmara ou de ter cometido algum erro na hora do voto.
Em tempos como esse não há como lavar as mãos (ato literalmente impossível em São Paulo, diga-se de passagem, pela falta de água). Assistir ao horário político não é a única via, temos a Internet para pesquisar passado (feitos ou histórico de sujeiras), presente (ficha limpa, por exemplo) e futuro (plataformas, programas e projetos). Ou escolha seu candidato começando pelo óbvio: aquilo que você quer que mude na cidade, no estado ou no país. É a saúde? A educação? É o meio ambiente? É a opção de poder fazer aborto, usar maconha sem estar em desacordo com a lei? É a criminalização da homofobia; o direito ao casamento gay? É o fim do preconceito contra os negros ou meios mais concretos de combate? Parta daquilo que é a sua prioridade e veja quem também defende esta causa e quais são os planos dele(a).
O ódio vigente apenas levará a escolhas equivocadas (e sofremos muito as consequências delas): eleição de palhaços, subcelebridades que estão no poder apenas pelo conforto e o salário que nós pagamos, candidatos que apregoam uma “nova política”, mas são tão antiquados e conservadores quanto aqueles que criticam, representantes que não utilizam da imparcialidade que o cargo exige e da (aparente) laicidade do Estado para decidir o que é o melhor ao brasileiro.
Precisamos ressignificar a política e revisar nossas atitudes. Parar de reclamar por aí ou após assistir ao Jornal Nacional (que já não é lá muito confiável) ou em desabafos no Facebook e tomar para si a responsabilidade e o poder da decisão e o direito à cobrança. Braços cruzados e cenho franzido não resolvem nada e sabemos bem disto. O metrô continua lotado, a violência permanece nas ruas, a saúde e a educação seguem sucateadas e o preconceito de raça e classe social se enraíza cada vez mais.