30 de novembro de 2014

Chaves não morreu


Isso, isso, isso. Roberto Bolaños morreu. Gênios não são imortais, mas suas personagens, estas sim, são eternas. Chaves continuará em sua incessante reprise no SBT divertindo novos públicos e fidelizando ainda mais aqueles (como eu) que ainda riam com as piadas de sempre e as situações mais do que velhas e muito engraçadas. Tinha que ser o Chaves de novo, a notícia bem que poderia ser mais uma traquinagem do menino que vivia num barril, cujo programa emanava a mesma simplicidade infantil. Não o fora, infelizmente. Não me surpreendi com o fato. Já era sabido que Bolanõs respirava por aparelhos e passava por dificuldades de saúde. A idade avançada somava mais um fator aquilo que sabemos ser o inevitável para todos. Bolaños soube parar no momento certo (coisa que Renato Aragão ainda insiste em fazer com seu Didi e acaba desgastando a sua imagem e não fazendo sentido para novos públicos), era necessário conservar de forma digna a imagem daquele garoto pobre que aprontava todas na vila ao lado de seus amigos Kiko, Chiquinha, Nhonho e companhia. O frescor das reprises no canal do Sílvio Santos sinaliza isso. São 30 anos de exibição no Brasil, considerável índice de audiência, mesmo em tempos de internet e games avançados, e a manutenção de um olhar indelével da infância tão latina e universal, que foi um pouco nossa, certamente muito boa porque o Chaves existiu e fez parte dela também, mesmo sem querer querendo...

20 de novembro de 2014

Livros


Eis os meus livros ao lado. Fetiches. Vaidades. Enfileirados para o regozijo da visão. Letras sequer desvendadas. Palavras que não se manifestaram na mente. Outras tantas lidas e que agora encontram-se encerradas no escuro do livro que só ilumina-se quando aberto. Futuros estudos. Futuras profecias. Futuras anunciações. Anjos Gabriéis de minha vida. Fecundando-me da Linguagem. Linguagem esta que vomito vez ou outra. Quase que por uma obrigação fisiológica. Para enlouquecer, já que somente nestas páginas em branco me permito à insanidade. Volteios de escritos amadores. Amador porque ama muito e não surpreende-se com pouco. Impassibilidade sequiosa. O rosto pétreo que não transparece emoções, mas que as sugere imperceptivelmente tal e qual aquela brochura encerrada em si mesma como rocha. Que só ela sabe o que é ser concreto. Livro concreto na cabeça. Livro aberto. A despejar o secreto que meus olhos podem desvendar ou deixar passar batido. Por pura imaturidade. Existe um tempo para cada coisa. Para cada livro. Assim nascem as paixões, na hora certa. Assim nasce o entendimento. Quando há uma abertura mútua. Assim nasce a escrita. Do algo secreto, aberto, concreto. Dentro de mim. Dentro do livro. Sempre inédito.

6 de novembro de 2014

Na Estante 24: Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão (Hilda Hilst)


Livro: Júbilo, memória, noviciado da paixão
Autor: Hilda Hilst
Editora: Globo
Ano: 2001
Páginas: 144



Hilda Hilst é uma das maiores escritoras brasileiras do século XX. Seu talento não se restringe apenas aos versos, Hilda Hilst também escreveu para o teatro e em prosa. A intensidade de sua obra poética é uma marca registrada. Intensidade que se traduz em poemas de amor (inspirados principalmente na poesia clássica e medieval, as cantigas de amigo ressignificadas pela sua pena para os tempos de hoje, como se evocasse toda a tradição que a trouxe e a inspirou até ali, no momento da escrita, para uma nova figura feminina) que trazem uma mulher diferente, moderna, mas ainda ansiosa do amado, somente completa com ele. Nos textos de “Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão” o eu-lírico aguarda pelo retorno de Túlio (o amado relembrado em diversos poemas deste livro) ou sabe, conformada, da sua não vinda e vive um misto de gozo e sofrimento. Uma lírica ao mesmo tempo passional, carnal, telúrica, cotidiana com versos livres que trabalham imagens que mexem com a imaginação do leitor e o emocionam com a sinceridade de sua escrita. Não sou um leitor voraz de poesia (c0nfesso que estou me educando em relação a isso), mas descobri Hilda Hilst há muitos anos atrás com a obra em prosa “Com os meus olhos de cão”, que marcou minha trajetória leitora, e os belos poemas de “Alcoólicas” (através de uma oficina literária em São Miguel Paulista, nos meus velhos tempos de “vagabundo”). “Júbilo, Memória...” foi um gracioso retorno à obra deste grande clássico da nossa literatura brasileira que vem sendo finalmente reconhecido, graças ao trabalho árduo e apaixonado de divulgação de seu legado pelo Instituto que também leva o seu nome. Bem, os versos de Hilda Hilst falam por si sós.

“Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.”

Hilda Hilst