27 de dezembro de 2015

Pancadão proibidão


     E a voz da criança canta indecências n’alguma aparelhagem de som de um carro perdido por aí. Em outros momentos, quem canta é mesmo um adulto, o sexo é o tema na batida do funk e o linguajar usado para falar sobre esse assunto é explícito, sem qualquer sutileza. O ritmo é repetitivo, a letra é repetitiva, a voz é desafinada e monocórdia em todas as canções, ou seja, repetitiva. E a mulher é objetificada, um mero apetrecho sexual dentro da composição. Na maioria das vezes, é denominada “novinha”. Não importa. O que interessa é o dizer, no ritmo sincopado e sintetizado pelas batidas, o que e como ela faz durante o ato sexual. Renato Russo já cantara: “Sexo verbal não faz meu estilo” e muitos podem concordar com ele. O sexo é tema de música e literatura desde sempre, os poemas mais antigos tinham que recorrer às metáforas variadas, criativas e sacanas para que o leitor entendesse as segundas intenções do eu-lírico. Até os funks mais antigos usavam palavras de duplo sentido para referirem-se ao que todo mundo sabia. “Aquilo...”, como dizia a célebre Dona Bela, imortalizada pela grande Zezé Macedo. Gregório de Matos também fez os seus poemas fesceninos (alguém lembra da Pica-Flor?), o poeta inglês John Donne usou uma pulga como trocadilho para também mencionar o sexo no sentido figurado. E porque agora escancarou-se o sexo nas letras do funk de tal forma que me parece uma descrição de um filme pornô? Incômodo meu? Certamente. Incomoda pois a polêmica canção é escutada a muitos decibéis, num volume que chega ao topo do Everest, exposto a quem quer e não quer ouvir, o problema começa aí (e os ouvintes são tanto crianças de 2 ou 3 anos quanto idosos). O conteúdo do funk não apresenta novidades a quem tem uma vida sexual ativa ou já a tenha visto em qualquer filminho barato erótico do Cine Privé. Quem escreve as canções ou não conhece um repertório anterior que tenha tratado a temática sexual de uma maneira mais artística e elaborada ou se conhece não faz questão de explorá-la desse modo. Agrada-lhe o óbvio mesmo e coloca este óbvio na boca de um menino que mal entrou na adolescência (se chegou a tal período) que canta as situações ou posições sexuais e tudo ganha um caráter estranho (pelo menos para quem vos escreve). A garotada, claro, se diverte a beça c0m o palavreado e os refrões exaustivos que se referem aos órgãos sexuais feminino e masculino. Confesso que ainda tento, com olhos despidos de preconceito (o que é difícil, confesso), entender esse fenômeno, acredito que não tenha chegado a nenhuma conclusão objetiva sobre este subgênero musical dentro do funk que há muito se estabeleceu na rotina musical de muitas pessoas e que insiste em bater à janela da minha residência. Em volume altíssimo...

21 de dezembro de 2015

Na Estante 51: O Pequeno Príncipe (Antoine de Saint-Exupery)


Livro: O pequeno príncipe
Autor: Antoine de Saint Exupery
Editora: Agir
Ano: 2003
Páginas: 96

“O essencial é invisível para os olhos.”
“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”
“O Pequeno Príncipe” deixou uma série de frases marcantes, tornou-se o livro favorito de muitas pessoas, referência obrigatória nos concursos de misses e um clássico da literatura. Ao ler tardiamente esta obra de Antoine de Saint-Exupery, o que mais me chamou a atenção foi o teor altamente filosófico e melancólico da narrativa. Nas páginas de “O Pequeno Príncipe” circulam temas como a solidão, a mesquinhez, as relações humanas, o universo adulto, a morte, o amor, alguns destes com uma profundidade surpreendente.
A linguagem tem a aparente simplicidade dos livros voltados ao público infantil, porém é na antítese criança/adulto que a estória criada pelo piloto e escritor francês gira em torno. O quanto uma parte não compreende a outra, uma por inocência, outra por que perdeu seu vínculo com o que há de melhor na infância, deixando-se levar por coisas práticas que, por sua vez, não levam a nada. 
O habitante do pequeno planeta (ou o asteroide B 612) tem a curiosidade, o olhar questionador e a obstinação de quem não contenta-se com uma parca resposta. Talvez a identificação da maioria dos leitores advenha desta tenacidade infantil, do olhar despido de preconceitos e das descobertas que o personagem faz a respeito do universo que o circunda e um pouco dos valores (ou a falta deles) que regem o comportamento dos homens, fato que torna “O Pequeno Príncipe” um livro atemporal e universal, complexo como uma boa obra de ficção, cativante como toda ótima obra infantil.

18 de dezembro de 2015

Alguns questionamentos...


Deus criou o homem à sua imagem e semelhança. Eu sou homem. Portanto sou Deus?
Se o homem tem origem em Deus, de onde Ele surgiu? Quem o criou à imagem e semelhança de quem?
Somos constituídos do pó das estrelas. Especialistas dizem que originamos de moléculas oriundas de estrelas após o Big Bang. A vida é uma seleção natural de seres que evoluíram e adaptaram-se em condições mais adversas. Tudo está gravado no nosso DNA (algo mais técnico e científico do que a explicação esdrúxula acima).
Mas no que essas moléculas influenciaram no meu caminhar até aquela pessoa que um dia iria amar? E como me puseram no ventre de quem eu fui calhar de me desenvolver e depois nascer? No que os átomos influenciam no intermédio que a vítima fez entre quem atira e o espaço vazio atrás de si? Logo naquele dia, naquele momento? Ou até mesmo na sorte de achar uma nota de 100 reais no chão de uma calçada? Seriam as moléculas ou Deus? Seria eu uma simples junção de partículas ou personagem num romance a céu aberto qualquer, joguete nas mãos do destino? Sou aquilo em que acredito ou tudo está determinado por uma força mística superior? 
Quem sou? Algo que vai além daquele nome que consta na certidão de nascimento ou no RG? Pergunta que não cessa e que nenhuma resposta supre de certezas, são apenas provisórias hipóteses que sucedem-se uma a outra, incessantemente. 
Só sei que estou aqui, num ponto qualquer da história, procurando inserir-me em meio a ela. História tão difusa, confusa e obscura quanto alguns questionamentos que insistem em rondar, em sondar, em cravar-me de mais dúvidas...

13 de dezembro de 2015

Na Estante 50: Infância (Graciliano Ramos)


Livro: Infância
Autor: Graciliano Ramos
Editora: Círculo do Livro
Ano: 1977
Páginas: 256

O período da infância é dito por especialistas como fundamental na formação psicológica, social e física de qualquer ser humano. A psicanálise encontra neste período diversas respostas para os problemas pessoais que os adultos passam. Não é de se surpreender que muitos autores tenham retornado para este tempo cercado de nostalgia para escrever suas obras. “Infância”, do clássico escritor de “Vidas Secas”, Graciliano Ramos, também é uma tentativa autobiográfica de transformar em ficção um período de sua vida. Claro que quem conhece a obra do velho Graça sabe bem que não será um retrato fácil e doce.
O narrador em 1ª pessoa, adulto, faz observações de quando era criança, refletindo na maturidade os fatos que o marcaram na infância, quando a percepção e o raciocínio ainda não estavam totalmente conscientes dos acontecimentos que o afligiram ou agradaram, num técnica parecida com a empregada por Raul Pompeia em “O Ateneu”. O passado revisto pelo presente e presentificado pela narrativa retratada no livro. Aqui temos o pequeno Graciliano passando por dificuldades com a seca, temendo a presença e as atitudes ríspidas do pai, o relacionamento com os irmãos e os raros amigos da rua, além dos vizinhos e outros parentes, as mudanças de casa, a frieza da mãe e, o que mais traumatizou o personagem (e que rende momentos inesquecíveis), a relação tempestuosa e cheia de atritos do garoto com a escola e as dificuldades em aprender a ler (onde as cartilhas com uma linguagem rebuscada e inacessível e a imagem incompreensível do Barão de Macaúbas povoaram de pesadelos e angústias o contato com as letras) e a descoberta da leitura.
O mais interessante neste romance de Graciliano Ramos é a capacidade de colocar-se na perspectiva de uma criança sempre, assumindo a imaturidade e o desconhecimento das coisas, porém não destituída de curiosidade e indagações que deixam os adultos sem explicações ou simplesmente irritadiços e violentos (violência que se reverte em chineladas, como o caso da mãe dele ao ser questionada sobre o significado da palavra inferno), além da simplicidade de suas observações que não deixam de abarcar profundidades. 
Trata-se de um romance peculiar que não perde a dureza e a secura das outras estórias tecidas pelo autor de “São Bernardo” e “Angústia”, mas cercado pela tênue ingenuidade do universo infantil que abranda uma realidade mais implacável como a que rondava o nordeste no início do século passado.

4 de dezembro de 2015

Num piscar de olhos


O tempo prossegue no relógio. Alternando velocidades, em altos e baixos de tédio e frenesi. Pisco o olho e não vejo tudo que ocorreu no breve intervalo onde todas as coisas no mundo inteiro aconteceram sem o meu testemunho. Fecho os olhos mais uma vez, um suspiro e um arrepio. Passam revoluções no ínfimo escuro que se faz no movimento mecânico ocular. Passa a música que tanto agradou-me, passam as preocupações que chegam ao mesmo tempo. O relógio dá os segundos, indiferente, a trajetória até o próximo minuto é tortuosa e não me impeço o cerrar dos olhos, desta vez mais prolongado, tentativa vã de relaxamento, um reflexo bate nas pálpebras e pestanas não consegue voltar para seguir em sua inalcançável velocidade, atravessa o escuro do olho que recusa a se abrir. Ondas de cansaço, como o mormaço do verão, sol de meio-dia, tudo está ao meio, por fazer, incompleto, a castigar o concreto dos objetivos que não resistem em surgir e paralisam-se numa longa fila indiana, burocrática como aquelas que dominam qualquer repartição. Pegue a senha e aguarde, outras prioridades gestantes e idosas passarão na sua frente e já estarão caducas e não compreenderão mais o motivo de estar ali. Os olhos piscam mais uma vez, repentino escuro, é noite? Quanto choro, morte, alegria irromperam quando o relógio deu mais uma hora, quando o sono toma-me, mas o momento não me permite sequer uma sesta bem vinda e quista. O olho pisca e a pálpebra treme, tique nervoso ou estresse acumulado? A luz chega esparsa, retraindo-se. É noite, enfim? Que venha, então! Ao menos o descanso estaria reservado, não fossem todos os pensamentos do mundo inteiro inventarem de fazer terreno, cravar estacas, estabelecer fundações profundas, cimentar tudo para evitar ou dificultar remoção. Pensamentos muçulmanos, europeus, americanos, brasileiros, kardecistas, judeus, umbandistas e cristãos. O artista veterano canta afinado, vibrando as notas, a canção agrada mesmo a letra ditando uma realidade diversa da que vive, gosta de se teletransportar, como se lesse a página solta de um livro que segue à outra, à outra, à outra e o cerrar dos olhos, não tão veloz quanto os piscos ancestrais, é mais tenaz. E o sono chega num piscar mais prolongado... E outras revoluções acontecem enquanto durmo e a impressão é de que tudo, mesmo assim, permanece igual.

29 de novembro de 2015

Na Estante 49: Desonra (J. M. Coetzee)


Livro: Desonra
Autor: J. M. Coetzee
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2010
Páginas: 246

A aceitação da desgraça como condição inevitável do ser humano. O romance “Desonra”, do sul-africano J. M. Coetzee, trata com precisão esta temática ao mostrar o ocaso de David Lurie, professor universitário, acusado de assédio sexual por uma de suas alunas com quem teve um breve relacionamento amoroso e que não se esforça para defender-se, aceitando todas as acusações que lhe foram feitas. Depois David vai passar uma temporada com a filha Lucy que é lésbica e possui uma pequena propriedade rural. Até que um episódio atinge pai e filha evidenciando a violência e a tensão racial latente numa região aparentemente plácida: um grupo de três homens negros invade e rouba a casa, eles agridem e ateiam fogo em David e estupram Lucy. Assim como o pai conformara-se no início do livro com o problema de assédio na universidade, a filha também recusa-se a contar para a polícia tudo o que realmente  aconteceu dentro de sua casa, fechando-se num silêncio agonizante e aumentando a distância entre os dois.
A concisão é uma das melhores qualidades dos textos escritos por Coetzee num estilo ao mesmo tempo seco e objetivo, o que não significa exatamente que o romance seja desprovido de emoção e que não haja uma empatia entre leitor e as personagens. “Desonra” evidencia uma África do Sul pós-apartheid, ainda impregnada pela violência e a hostilidade, explícita ou velada entre negros e brancos. David e Lucy, brancos, são agora corpos estranhos numa região com regras próprias e David encontra no trabalho em uma clínica, onde cuida e sacrifica cachorros abandonados, e na elaboração de uma ópera sobre Lord Byron uma maneira de superar os últimos acontecimentos. 
Para os especialistas, “Desonra” é considerada a obra-prima de J. M. Coetzee (um escritor que estou conhecendo e admirando aos poucos – outros dois livros dele, Infância e Juventude, já foram comentados aqui nesta coluna), ganhou diversos prêmios literários após seu lançamento (incluindo o Man Booker Prize) além de ter certamente propiciado, anos depois, em 2003, o Prêmio Nobel de Literatura a este romancista que reúne todas as qualidades de um clássico, cuja obra torna-se relevante num mundo de grandes tensões como o que vivemos. 

16 de novembro de 2015

É a lama, é a lama...

Em Mariana
é a lama
acobertada.
Em Paris
é o sangue
derramado.
Na cidade
é a vítima
desgraçada.
No peito
a raiva
silenciada.
Ao redor
a hipocrisia
disseminada.
É a lama
na mente
alienada.

15 de novembro de 2015

Na Estante 48: Urânios (Roberto Muniz Dias)


Livro: Urânios
Autor: Roberto Muniz Dias
Editora: Metanoia
Ano: 2014
Páginas: 118

O escritor do “Na Estante” de hoje é Roberto Muniz Dias. Desconhecia sua obra, composta por romances, contos e textos teatrais, e foi por intermédio de meu amigo Eduardo Eulálio que acabei tendo contato com um de seus trabalhos. Comecei então por “Urânios”, um romance cujo destaque não é somente colocar uma relação homoafetiva numa estrutura não convencional, estamos falando de um relacionamento a três, como também a carga altamente existencial da prosa de Roberto Muniz Dias e a facilidade com que o autor explora a temporalidade no enredo.
O romance alterna capítulos de mesmo nome ao longo da narrativa. “O galo colorido” mostra o narrador-protagonista às voltas com a pintura de um galo feita por ele mesmo e as lembranças que ele suscita de seu envolvimento com um casal e a tentativa fracassada de morarem juntos e manterem uma vida conjugal a três. Quando o leitor se depara com o capítulo “Átomos: íons, prótons e elétrons”, tem-se em evidência o protagonista e os “seus maridos”, a convivência embaixo do mesmo teto, a dificuldade em lidar com esta realidade e com a rotina na nova casa, a atenção dividida e exigida pelos parceiros. Em “As camas” é mostrada como se dava a dinâmica sexual entre as três personagens. 
O conflito interno, pelo qual o protagonista passa, revela os medos e os preconceitos da sociedade que já discrimina o homossexual e ainda mais quem encontra uma nova forma de amar, além do incômodo do personagem principal em ser visto apenas como um “terceiro elemento” dentro do âmbito do casal com quem se envolve, como um objeto exótico ou um mero brinquedo sexual. O livro divide-se nestas dúvidas, o que sublima a curiosidade pelo erótico apenas, deixada num segundo plano, para dar vazão à torrente de pensamentos e questionamentos que o protagonista se faz o tempo todo numa contínua avaliação de si mesmo e da situação a qual aceitou se incluir.
O romance “Urânios” traz essa qualidade por não pretender apenas em ser um panfleto LGBT (principal preocupação e projeto do autor piauiense), mas pela capacidade de ampliar o universo homossexual numa forma literária estilisticamente muito particular e rica. 

8 de novembro de 2015

Pessoal!


Os olhos estavam no livro, acabara de abri-lo. A primeira distração veio com um marreteiro anunciando a venda de um delicioso chocolate por apenas dois reais. Como o silêncio no trem revelou o desprezo ou o desinteresse por semelhante oferta, alardeada e repetida com poucos segundos de espaço, o vendedor não desistiu de seu produto e decidiu abaixar o preço para angariar alguma freguesia naquele momento em que o vagão partia rumo à outra estação. “Dois chocolates por dois reais, pessoal, cinco por cinco reais, pessoal! Vamo lá, pessoal! É a última caixa, pessoal! Melhor vender mais barato, pessoal, do que perder pros guarda, pessoal!”. Perdeu as contas de quantos “pessoal” ouviu dentro da frase.
Quando alguém ergueu a mão em interesse pela oferta, o marreteiro distanciou-se. Pensou que poderia retomar a leitura, no entanto uma voz mais aguda de mulher oferecia por dois reais um salgadinho de milho delicioso, pessoal. O mesmo tom monocórdio, o mesmo vício linguístico ou cacoete. “Pessoal” a cada duas palavras ou menos. Ninguém desejou comer o bendito salgadinho, talvez porque ela também não reduzira o valor do produto, pessoal.
Mal ele pode voltar novamente a sua atenção para a continuação do romance graciliano porque elevou-se, após o embarque e desembarque da estação seguinte, uma voz lamuriosa, trêmula, cheia de pesar, numa entonação tão pouco comovente (ou foram os ouvidos dos passageiros, e o dele, que já estavam acostumados aquele lamento, imunes a qualquer sentimento de piedade ou dó que não as faziam se obrigar a procurar as moedas escondidas no bolso, na bolsa ou na carteira). Ainda escutava um “pessoal” na humilhante súplica do pedinte, o que ainda sequer comovia os passageiros que se refugiavam na tela touch dos seus respectivos smartphones.
O pedinte arrastava-se vagarosamente, assim como seu humilde falar, até que voltaram, atrapalhando-o, o marreteiro do chocolate e a moça do salgadinho de milho, o preço era o mesmo, o vozerio maior, cheio de “pessoal” entre cada um dos termos das orações simples, coordenadas, subordinadas, entrecruzadas que reproduziam na repetitiva propaganda dos alimentos ou da própria miséria que ofertavam. Acresceu à cacofonia mais um vendedor de fones de ouvido de celular Samsung a dez ou cinco reais.
A estação dele chegara, não atingira a meta de finalizar aquele capítulo antes do desembarque em seu destino, confessa a si mesmo que fuçou o celular neste meio tempo, pessoal. Não soube se mais uma venda fora efetuada, pessoal, se o chocolate baixou para um real, se a mercadoria do marreteiro foi levada pelo rapa, se a moça estourou o tímpano de mais um passageiro, se o senhor pedinte amoleceu algum coração mais do que uma frase avulsa do Facebook ou do WhatsApp. Na verdade não se importava, tamanha a irritação. Mas a instabilidade daquelas vozes anunciadas num coro inusitado ainda ecoavam na cabeça, esquizofrenicamente, pessoal. 

4 de novembro de 2015

Na Estante 47: O Filho Eterno (Cristovão Tezza)


      Livro: O filho eterno
Autor: Cristovão Tezza
Editora: Record
Ano: 2007
Páginas: 222

            A vida imita a arte ou a arte imita a vida. Se pensarmos no panorama atual da literatura brasileira, a segunda afirmação é a mais válida. Para alguns escritores ela dá insumos e serve de mote para a redação de novos romances. Com “O Filho Eterno”, Cristovão Tezza consagrou-se definitivamente entre os grandes autores contemporâneos e vale-se de um fato marcante em sua própria biografia para tecer sua obra mais famosa: a relação entre pai e filho, mais precisamente, um pai em busca de firmar-se como escritor e um filho com Síndrome de Down.
            O romance publicado em 2007 tem todos os elementos necessários para cair na pieguice e no melodrama, porém destaca-se por uma narrativa em terceira pessoa sóbria e distanciada e por um texto permeado por uma quase cruel sinceridade. O protagonista sem nome é um escritor iniciante que tenta lidar com o fato de o primogênito ter Síndrome de Down. A narrativa baseia-se em todo o conflito interno desse artista em lidar com a situação, a vergonha de falar publicamente a respeito do assunto, o preconceito que inevitavelmente o contagia até mesmo um desejo pela morte do garoto, quando recém-nascido, rondam os pensamentos do personagem. Paralelamente o narrador relembra outros momentos marcantes da juventude desse escritor, suas andanças, estudos, textos imaturos, participação em grupos de teatro e subempregos na Europa.
            O livro mostra um pai, um filho e um artista em formação, amadurecendo ou recusando-se a crescer diante dos problemas que vão surgindo e da presença de um filho que não pode ser ignorado e que de qualquer maneira reclama atenção e assistência. Apesar da frieza e do olhar clínico com o qual se relaciona com o filho, é impossível não identificar-se com esse escritor preocupado em aperfeiçoar-se e que recebe diversos nãos das editoras. Além do enfoque familiar, há principalmente um direcionamento sobre o fazer artístico ou as dificuldades que tal escolha traz consigo e o quanto a experiência pessoal contribui para o amadurecimento profissional e literário.
            Adquiri este livro na época em que “O Filho Eterno” estava ganhando todos os prêmios e a primeira leitura não me atraiu ou convenceu completamente, chegava até a questionar tamanha celebração em torno de uma obra apenas “ok”. A releitura serviu então para acabar com qualquer equivocada primeira impressão e evidenciar o brilhantismo da prosa de Cristovão Tezza e também deve ter falado ao coração e à razão de tantos outros escritores neófitos que, assim como o protagonista, estão em busca de estabelecerem-se no concorrido e difícil universo literário nacional, apesar das negativas e dos percalços pessoais.

29 de outubro de 2015

Protozoários


Desliguem os aparelhos, o Brasil morreu de falência cerebral e estupidez generalizada!!! Todos os esforços para demovê-lo de uma nostalgia pelas coisas normais como a escravidão, a submissão feminina, a prisão homossexual em armários blindados, a truculência justificada da ditadura militar, a delimitação explícita entre pobres e ricos ou fazê-lo enxergar além do ódio a um único partido foram em vão. Estamos no século XXI apenas na aparência, nossa mentalidade é medieval, as atitudes derivam dos tempos pré-históricos de onde a capacidade leitora e escrita se restringia a desenhos primitivos numa caverna remota. Vivemos uma época em que a literariedade cedeu lugar a literalidade, quando a preguiça de interpretar uma informação mínima é regra nos universos reais e virtuais. O que gerou essa morte lenta e dolorosa? Raiva acumulada que afetou um coração repleto de ódio e anuviou os pensamentos com a incompreensão da inevitabilidade da mudança, de que os padrões irão se transformar, querendo ou não. O mundo é outro mas luta para manter as aparências de uma estranha normalidade anacrônica, ainda não sabe lidar com o que chamamos de modernidade. Adicionamos um prefixo novo, agora vivemos uma contraditória pré-história-moderna, substituímos os tacapes por celulares e logo largaremos os computadores para andarmos sobre quatro patas. Mais uma vez. Estilo condizente ao atual estado mental que se estabelece e acompanha um pensamento que, de tão voltado ao antes, logo se lamentará de uma época em que éramos apenas insignificantes protozoários e não havia PT, comunismo, feminismo ou ditadura gayzista.

24 de outubro de 2015

Na Estante 46: O Irmão Alemão (Chico Buarque)


Livro: O irmão alemão
Autor: Chico Buarque
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2014
Páginas: 240


         Há uma tendência na literatura brasileira atual da escrita de romances com forte carga autobiográfica, também chamada de autoficção. “O Filho Eterno”, de Cristovão Tezza, e “Divórcio”, de Ricardo Lísias, são exemplos deste tipo de texto onde fatos da biografia do escritor se entrelaçam à ficção. Chico Buarque, cantor, compositor e escritor consagrado, também recorreu à autobiografia para engendrar sua mais nova obra chamada “O Irmão Alemão”. Da realidade, Chico retira a história do filho que o pai Sérgio Buarque de Holanda teve com uma alemã, durante a sua estadia em Berlim nos anos 30. No romance, o narrador Francisco de Hollander encontra uma carta escrita em alemão endereçada ao seu pai, Sérgio de Hollander, até que, por intermédio de um conhecido do amigo Thelonious (com quem também cometia pequenos delitos ou arruaças), descobre que a informação de que Sérgio teve um romance com uma mulher chamada Anne Ernst e a engravidara. A figura deste irmão em Berlim persegue o narrador de forma obsessiva, que vai juntando aos poucos as peças deste enigma, e o faz querer obter maior conhecimento do paradeiro dele, ao mesmo tempo que usa a imaginação para adivinhar como poderia ter sido a trajetória deste irmão desconhecido.
       “O Irmão Alemão” é ambientado no período negro da ditadura militar e o romance é hábil em retratar este momento como um perigo sempre a espreitar as personagens, prestes a roubar-lhes ou cercear-lhes a liberdade. Chico não pretendeu com sua obra disfarçar as referências à própria história, o sobrenome Hollander é um exemplo. Pelo menos no livro ele não é um ascendente compositor e cantor dos tempos dos festivais e, sim, um professor universitário.
         O livro acaba por ser uma homenagem ao próprio pai do autor, retratado como alguém fascinado pelo universo dos livros e da literatura, que possui uma casa entupida de exemplares raros e manteve contato direto com os maiores nomes da literatura não somente brasileira como mundial. As menções à rica biblioteca e ao comportamento recluso e distante de Sérgio acabam rendendo as melhores passagens do livro. O irmão do narrador, as aventuras amorosas e o quanto de inveja o narrador tinha da rotina diária de mulheres que frequentavam o quarto dele, também valem um elogio. Francisco ficava à sombra deste irmão mais velho, contentando-se até em travar relacionamento com estas mulheres que já tinham passado pelos braços do outro. 
         Se há algo a reprovar em “O Irmão Alemão” é o final abrupto demais, que não dá tempo do leitor despedir-se das personagens ou até de sentir maior simpatia pela busca do narrador, mesmo que a curiosidade de saber o que é verdadeiro ou não na matéria narrada o prenda até a última página. Mas este romance, primeiro que leio de Chico Buarque, pretendo conhecer os outros em breve, demonstra a habilidade do cantor de “A Banda”, “Meu Guri” e tantos outros clássicos da MPB com a literatura, universo onde o domínio com as palavras é primordial e que inquestionavelmente Chico Buarque possui de sobra.

15 de outubro de 2015

Sala de aula pós-apocalíptica


As lousas estão abandonadas, os cadernos amassados e esquecidos n’algum lugar. A poeira oculta os rabiscos de uma carteira, desenhos rupestres registrados por alguém não muito longe. As salas estão vazias. O que antigamente era cheio, vivaz, barulhento, que tinha a paz e o silêncio interrompidos por corridas e gritos eufóricos, conversas sussurrantes ou suspiro de tédio. Tédio. Tudo começou a partir dele e depois de um observar ao redor, aquele espaço perdera o sentido total. Um sentimento geral. Vírus daninho e sinuoso a contaminar qualquer vontade discente ou docente. De repente a educação não era mais necessária, após tantas organizações e desorganizações. Os discursos clichês da importância do estudo, da necessidade do ensino, perderam o viço, fez-se vinco na mais lisa das sedas, corroeu-se o restante de resiliência que havia em nós, mesmo que aos nós. Perdeu-se no embolar de tantas prioridades econômicas e exigências burocráticas. Mero produto descartável, jogado junto aos outros personagens deste drama barato (depois de muitos cortes e ajustes financeiros) no aterro que é esquecido e encoberto por outros lixos. No limbo. E quão mais pobre o país ficou. O quão miserável pereceu nosso estado. Pois sem saber, não entendíamos que tudo aquilo era um pesadelo vivo do qual não lutáramos para acordar, do qual era possível um súbito despertar. Tarde demais?...

1 de outubro de 2015

Na Estante 45: Sonetos do Amor Obscuro e Divã do Tamarit (Federico García Lorca)


Livro: Sonetos de amor obscuro / Divã do Tamaritt
(Coleção Folha Literatura Ibero-Americana)
Autor: Federico Garcia Lorca
Editora: MEDIA Fashion
Ano: 2012

Páginas: 90

O amor alimenta a poesia, desde as produções mais antigas, como no caso das cantigas de amor e de amigo da literatura portuguesa. Federico Garcia Lorca recupera um tanto quanto desse amor desesperado da época medieval e os conflitos internos da poesia barroca e acrescenta imagens e metáforas sombrias na tessitura dos versos de “Sonetos do Amor Obscuro” revelando o quanto este sentimento tem de sofrido quando não há correspondência ou pela simples espera de uma resposta ou escutar da voz de quem se ama ao telefone ou a distância que faz-se entre os dois, enfim, toda ânsia positiva e negativa de estar apaixonado. Os poemas ganham nova interpretação se lembrarmos que o poeta foi um homossexual assumido num período em que era um tabu falar abertamente a respeito disso. Já em “Divã do Tamarit”, Lorca acrescenta a presença da morte nos gazéis e casidas (formas fixas de poemas, como o soneto e a ode, por exemplo), resgata a paisagem de Granada com a inventividade metafórica dos versos que por vezes remetem ao amor e flertam com o fantástico e o surreal, inventividade esta que o tornou um dos maiores nomes da literatura espanhola. Conhecia um pouco da trajetória do poeta espanhol Federico García Lorca, mas nunca tinha travado contato com sua obra poética. Lorca também revolucionou o teatro e foi uma das vítimas da Guerra Civil Espanhola. “Sonetos de Amor Obscuro e Divã do Tamarit” foram publicados postumamente e tem a vantagem de ser uma edição bilíngue, o que permite ao leitor vivenciar também na língua original a musicalidade e o lirismo muito bem traduzidos para o nosso português, como no exemplo abaixo:

Casida II
Do Pranto

Fechei a minha sacada
porque não quero ouvir o pranto,
mas por detrás dos muros grises
não se ouve outra coisa que o pranto.

Há pouquíssimos anjos que cantem,
há pouquíssimos cães que ladrem,
mil violinos cabem na palma da minha mão.

Mas o pranto é um cão imenso,
o pranto é um anjo imenso,
o pranto é um violino imenso,
as lágrimas amordaçam o vento,

e não se ouve outra coisa que o pranto.

29 de setembro de 2015

Tristeza não tem fim...


Esta fixação humana pela felicidade plena. Numa existência a qual somos conscientes de que será finita, não há espaço para essa tal felicidade. Muitos podem argumentar que, como todos terão um fim comum, mais um motivo para perseguir esse intento emocional. Todos querem ser felizes. Por esse motivo, a grande maioria se frustra rapidamente cada vez que a vida e seus desígnios colocam cada vez mais pedras no caminho. Rochosas, pontiagudas, para extrair a dor necessária do aprender viver.
Vimos surgir nestas últimas décadas uma geração propensa a frustração, egoísta, que não sabe escutar uma negativa ou não entendem o que é convivência, que supre seus desenganos com ostentação material, fazendo das redes sociais uma plataforma de sua vida perfeita, divertida, feliz. Nosso grande poeta Vinícius de Moraes já alertara: “Tristeza não tem fim, felicidade, sim”. Estar acostumados à dor, ao tédio, ao não, à tristeza, nos torna mais fortes e maleáveis quando estas situações tão comuns, tão ordinárias quanto o sorriso que irrompe natural em nosso rosto ou o choro que brota sem que consigamos represá-lo, acontecem. Já sabemos lidar com elas. Criamos um jogo de cintura, nos tornamos íntimos daquilo que nos aflige ou incomoda. E assim aprendemos a valorizar os momentos de alegria tão ínfimos, concedidos a conta-gotas por alguém além de nós. Se tornar-se feliz vira uma obsessão, a religião e outros vícios estão aí para suprir e, artificialmente, compensar aquilo que não temos.
Saúdo a tristeza por sabê-la inerente ao que chamamos de vida. Saúdo a melancolia, pois a existência é contraditória, basta olhar ao nosso redor. Celebro a solidão, pois somos um ponto em meio a um universo muito maior, insignificantes perante tanta grandeza. Viraremos pó, adubo, cinzas e, ninguém perguntará por nós no final.

21 de setembro de 2015

Na Estante 44: O Pintassilgo (Donna Tartt)


Livro: O pintassilgo
Autor: Donna Tart
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2014
Páginas: 728


Receio que este post seja mais um texto sobre o processo de leitura de O Pintassilgo do que o próprio livro exatamente. Tinha começado a ler este romance de Donna Tartt em fevereiro deste ano, primeiras páginas logo abandonadas por outras leituras que priorizaram-se no momento. Depois foi retomado de uma maneira esporádica, quase letárgica. A narrativa, apesar de algumas passagens interessantes, não fluía. Não conseguia entender toda a celebração da crítica especializada em torno desta obra vencedora do Prêmio Pulitzer. Tudo bem, insisti mais um pouco, novamente certo tédio, certa empolgação, até que, enfim, terminei-o.
A expectativa não foi superada, infelizmente, mas percebi que teria que enxergá-lo com outros olhos, pois o livro foge ao estilo de obra literária a qual estou acostumado a ler. Uma trama focada muito no enredo, apesar de momentos bem descritos, não é muito o meu forte. Mas O Pintassilgo não é um livro ruim, apesar dos contras. Donna Tartt é habilidosa ao entrar no imaginário de um garoto adolescente e retratar todo o contexto das obras de arte e restaurações, o submundo por trás disto, e retomar um assunto espinhoso, para o público americano especialmente, como o terrorismo (que dá o pontapé inicial à trama contada por Tartt).
Theodore Decker é um adolescente de 13 anos que perde a mãe num ataque terrorista a um museu em Nova York e que acaba levando para casa, a pedido de um senhor, também vítima da explosão (Theo estava presente no museu quando o ataque ocorreu), uma obra rara do pintor do século XVII Carel Fabritius que dá nome ao livro. O garoto acaba sob a tutela provisória da família Harbour (pois ele e sua mãe foram abandonados pelo pai há alguns anos), de quem Theo é colega de escola de um dos filhos, Andy. Escrever mais seria entregar a trama e estragar o prazer de algumas reviravoltas ou novos personagens.
Começo dizendo que O Pintassilgo poderia ter menos páginas e esta afirmação não denota preguiça em ler, mas aquilo que o romance tem de excesso, muitas descrições e cenas desnecessárias que não agregam tanto à estória. É um romance tradicional no sentido do que e do como conta e psicológico quando invade a mente de Theo, que também é o narrador, cujo mérito é fazer uma interessante reflexão sobre o universo da arte: o quanto as obras artísticas (não só as pinturas) nos atingem de certa forma, como a visão de uma obra que consideramos perfeitas pode influenciar para sempre e inevitavelmente nosso olhar, acabam tornando-se uma referência involuntária e uma procura, nas outras criações que surgirem, daquilo que nos surpreendeu numa obra-prima.
Pena que o livro não tenha o mesmo impacto de uma obra de arte literária marcante como tão bem a escritora definiu em suas páginas finais.

15 de setembro de 2015

Antissocial


Foges ao convívio humano como o diabo da cruz, refutas companhia, repeles quaisquer conversas, olhares, papos profundos ou rasos. Queres apenas o silêncio, o estar em si mesmo, ensimesmado, imerso nas páginas do livro álibi ou em suas próprias preocupações. Antissocial que és, não aprendes o que é troca, contato, socialização, civilização. Recluso ermitão no vagão do trem, anulando-se a todos, invisibilizado por vontade própria e esse esquecimento, o qual todos  temem, traz-lhe uma pacata satisfação.

7 de setembro de 2015

Na Estante 43: Seminário dos Ratos (Lygia Fagundes Telles)


Livro: Seminário dos ratos
Autor: Lygia Fagundes Telles
Editora: Rocco
Ano: 1998
Páginas: 166


O século XX presenteou os aficionados pela literatura brasileira com uma safra de grandes escritoras. Começando por Raquel de Queiróz, passando por Clarice Lispector, Hilda Hilst, entre outras. Lygia Fagundes Telles também integra esta seleta lista. A sensibilidade de sua prosa e o retrato da figura feminina, em época de transformações, nos seus escritos encantam o leitor que se debruça sobre sua obra e é tragado por ela. “Seminário dos Ratos” é um livro de contos publicado originalmente em 1977 e as personagens mulheres ditam os rumos da maioria das curtas narrativas tecidas pela autora de clássicos como “As Meninas”. Contos que brincam com o fantástico e o cotidiano, as relações afetivas e familiares, o intimismo e o social.
Destaque para “Senhor Diretor”, onde a protagonista, uma professora aposentada chamada Maria Emília, vive num estado de contínua perplexidade frente às mudanças dos costumes num período em que a revolução sexual já abalava as estruturas patriarcais e a mulher assumia, pouco a pouco, um novo papel na sociedade. Conto divertido e melancólico ao mesmo tempo, numa crítica sutil ao puritanismo vigente que não compreendia a liberdade da mulher em relação ao sexo. Também sutil é a bela estória contada em “Herbarium”, onde uma adolescente nutre uma paixonite pelo primo doente que é botânico e está passando uma temporada na casa dela e a manda todos os dias ir à caça de folhas para compor o seu álbum com diversas espécimes de vegetais. Toda ação acaba sendo uma reflexão sobre o desabrochar da maturidade, a perda e a própria morte. O conto que dá título ao livro retrata a situação absurda de uma invasão de ratos e a tentativa frustrada de uma negociação de paz com os roedores. Com “Seminário dos Ratos” certamente o leitor vai sentir um incômodo e um estranhamento diante do conteúdo das estórias e nisso resulta a beleza e a delícia de ler esta obra.


30 de julho de 2015

Incendiário


    








estou cansado de me queimar
no fogo que arde sem se ver
é impossível enxergar
o tamanho do estrago
do tostar da minha alma em brasas
esta ferida eu sinto bem
é explícita a mim
como uma anomalia
atraindo olhares impressionados
pelo resultado da combustão
que me consumiu por completo
que me reduziu à cinzas
sem o direito de renascer
a partir delas
sem a possibilidade de reencarnar
no corpo de outrem incendiário

26 de julho de 2015

Na Estante 42: Dois Irmãos (Milton Hatoum)


Livro: Dois irmãos
Autor: Milton Hatoum
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2007
Páginas: 266 páginas


Omar e Yaqub já entraram para a lista de personagens marcantes da literatura brasileira, assim como o segundo romance de Milton Hatoum já vigora entre os melhores trabalhos já publicados nas duas últimas décadas. O impacto de Dois Irmãos no meio literário serviu, antes, para reafirmar o talento de Hatoum (que vinha de uma estreia celebrada com Relato de Um Certo Oriente) e acrescentar o olhar sobre um lugar pouco retratado nas letras brasileiras que é a região amazônica. Hatoum retoma o contexto da imigração libanesa para contar a estória de ódio entre dois irmãos gêmeos e o esfacelamento da família deles por conta deste conflito.
Yaqub é um sujeito quieto, reservado, que retorna do Líbano após passar alguns anos a pedido da mãe, para evitar brigas com o irmão com quem disputava a atenção amorosa de uma vizinha. Omar, o Caçula, alcunha recebida por ter sido o último a nascer, teve problemas de saúde após o parto e, por este motivo, é superprotegido pela mãe Zana, que passa a mão em sua cabeça e nutre um amor  obsessivo por ele (ao ponto de interferir em suas escolhas amorosas, enxergando-as como ameaças), adulando-o e encobrindo as confusões em que ele se mete. Beberrão, namorador, boêmio, Omar é o oposto de Yaqub que foca nos estudos e almeja o sucesso como que para provar a si mesmo e ao mundo (sua família, na verdade) que superaria o estereótipo de imigrante e, claro, o perfil infantil e dependente do irmão. Ainda temos o pai, Halim, que vê-se posto de lado na preferência da esposa quando as atenções dela sempre se voltam para o filho preferido.
O ocaso da família é vista sob o ponto de vista de Nael, o filho da empregada (e confidente de Halim) que ao mesmo tempo em que é testemunha de todos os conflitos que chacoalham a rotina da casa (ou na verdade mantém esta rotina turbulenta) tenta encontrar em um dos gêmeos a figura do pai, é a busca de um passado e a procura por uma ligação, mesmo que frouxa, de um laço familiar maior do que a mãe permitia (através do silêncio a respeito de quem seria responsável pela sua paternidade). Sabemos o incômodo dele ser o filho da empregada, agregada à família quando jovem, e que como tal também é tratado. 
A curiosidade por Dois Irmãos se dá também na maneira como o escritor explora a paisagem amazonense e as transformações que ela vem passando ao longo do tempo (do pós guerra à ditadura militar), influindo no comércio e nas relações dos moradores que ali vivem. O livro tem este aspecto úmido, aquoso, que o próprio local onde se passa a narrativa possui, sem resvalar no simples exotismo. A linguagem também explora com sutilezas a relação entre os familiares que exala sensualidade e sexualidade, assemelhando-se, deste modo, com a obra-prima de Lucio Cardoso, Crônica da Casa Assassinada, opondo-se a este apenas em sua concisão e na abordagem pouco passional, esta passionalidade incestuosa fica subentendida, apesar da tragédia circundar ambas as tramas em proporções diferentes. A melancolia e a tristeza e o clima decadente dão o tom da narrativa e transformam este Dois Irmãos em uma obra melancólica e, por isto mesmo, belíssima.

13 de julho de 2015

Na Estante 41: Vários Escritos (Antonio Candido)


Livro: Vários escritos
Autor: Antonio Candido
Editora: Ouro Sobre Azul
Ano: 2004
Páginas: 272


Antonio Candido figura hoje entre os maiores nomes da crítica literária brasileira e faz parte de uma geração especial de críticos oriundos do ambiente universitário e que contribuíram com um olhar especial para a construção de uma identidade nacional. Candido pode ainda dar-se ao luxo de ter travado contato com os principais nomes do Modernismo brasileiro (Mário de Andrade e Oswald de Andrade, entre eles) e seus escritos mostram a amplidão de sua visão que não somente abarca as letras em língua portuguesa como também passeia pela filosofia, sociologia e história com propriedade.
Vários Escritos, publicado pela editora Ouro Sobre Azul, de sua filha Ana Luísa Escorel, traz alguns dos seus mais conhecidos ensaios que revelam o vasto conhecimento que Candido possui da cultura nacional e do fazer literário. O livro é iniciado por um ensaio sobre Machado de Assis, agregando outro prisma de análise sobre a obra mais que reconhecida do Bruxo do Cosme Velho, fruto da investigação de outros tantos especialistas. Na sequência, a obra poética de Carlos Drummond de Andrade é interpretada em seus temas mais recorrentes; é nesse texto que o leitor vai ter o prazer de vislumbrar uma das melhores definições de poesia já feitas. Candido também rememora a persona polêmica de Oswald de Andrade e o quanto ela se inscreve em seus trabalhos como Memórias Sentimentais de João Miramar e os poemas de Pau Brasil e o Manifesto Antropofágico.
O Uraguai, de Basílio da Gama, e a participação dos poetas árcades brasileiros na célebre Arcádia Romana são temas analisados pelo crítico em mais dois outros ensaios. O famoso texto “O direito à literatura” também consta na publicação e discute a importância da literatura na formação do indivíduo e, por este motivo, torna-se uma necessidade a ser suprida tanto quanto outros meios de sobrevivência priorizados, em partes, pelas autoridades (saneamento, saúde, segurança e educação).
Encerram a coletânea reflexões sobre pensadores brasileiros que flertaram com o radicalismo, o conceito de nacionalismo e suas deturpações ao longo de nossa história e uma análise da trajetória de Sérgio Buarque de Hollanda, a influência de sua estadia em Berlim para a escrita de sua obra posterior, principalmente Raízes do Brasil.
Vários Escritos encerra parte do pensamento influente de Antonio Candido na crítica brasileira, a erudição e o brilhantismo de suas ideias comprovam o porquê dele ser um dos críticos mais respeitados e reconhecidos no mundo acadêmico e literário. Para os estudantes de letras ou os amantes de literatura, este livro é uma ótima pedida.

29 de junho de 2015

Na Estante 40: 1001 livros para ler antes de morrer (Peter Boxall – editor geral)


Livro: 1001 livros para ler antes de morrer
Autor: Peter Boxall (editor geral)
Editora: Sextante
Ano: 2010
Páginas: 960


O interesse por listas levou-me a “1001 livros para ler antes de morrer”, uma obra monumental (960 páginas) e ambiciosa que deseja abarcar séculos de produção escrita para destacar os livros que fizeram a história da literatura. Claro que listas são recortes limitadores e não dão conta do todo. Dividida em quatro partes (livros publicados antes de 1800, livros do século XIX, século XX e primeira década do século XXI). A relação de obras detém-se apenas àquelas escritas em prosa (romances, contos, novelas e até algumas publicações biográficas e jornalísticas) o que deixa de fora clássicos como “A Odisseia” e a “Ilíada” de Homero, “A Divina Comédia” de Dante Alighieri e tantos outros trabalhos marcantes de gêneros como a poesia (lírica e épica), a crônica, o teatro ou até mesmo a filosofia, por exemplo. E certamente diversos livros importantes foram esquecidos.
O valor de “1001 livros” está mais no caráter enciclopédico, é uma obra de consulta e referência, ideal para aqueles que desejam conhecer os principais autores da literatura universal e ter contato com títulos e escritores e nacionalidades diversas, pouco citados ou divulgados na mídia brasileira. Organizado por Peter Boxall, o livro traz resenhas de cada um dos 1001 livros e dá espaço também à literatura brasileira (não poderia deixar de ser mencionados os clássicos Machado de Assis, José de Alencar, além de autores contemporâneos como Milton Hatoum, Cristovão Tezza e Bernardo Carvalho). Uma obra introdutória que não substitui o prazer de conhecer os clássicos que aborda, pelo contrário instiga a leitura deles.
É certo de que morrerei sem ter lido os 1001 livros da lista, porém esta obra divertida, além de evidenciar o atraso das minhas leituras (e o leitor vai se sentir igualmente em defasagem como eu), contribui com o estímulo para que este número de títulos essenciais diminua cada vez mais.

15 de junho de 2015

Das coisas que eu aprendi na greve

Foto: Peter Leone/Futura Press/Estadão Conteúdo

O mundo é uma escola, já disseram uma vez. Há situações no nosso dia a dia, no exterior das nossas casas e instituições de ensino que nos tornam maduros e sábios. Aprendemos tanto quanto sentados numa carteira, observando a fala do professor. Uma das coisas que eu aprendi nesta greve foi justamente com a figura do professor. Os professores e professoras que corajosamente aderiram ao movimento e, principalmente, resistiram até o fim.
Por ser um ambiente fechado, a escola vira um elemento alienante quando mal utilizado pela gestão e os próprios docentes. Sair da escola, para engrossar os números da greve e ainda colaborar, um pouco             que fosse, com as ações do sindicato, revelou outro mundo existente na cidade onde leciono. Conheci escolas da região, conheci a própria cidade onde moro há poucos meses, conheci pessoas engajadas e comprometidas, preocupadas em melhorar a sua área de atuação. Por outro lado aprendi que existe muito medo ao redor desta classe que, contraditoriamente, por ser esclarecida e especializada, não deveria se deixar dominar e subjugar e, principalmente por ter conhecimento, deveria se levantar da cadeira e lutar por melhores condições de trabalho. Mas permitiu-se levar pela covardia e pela apatia (e, posso afirmar também, certo comodismo). Isto entristece e revolta, pois serão os conformados que continuarão a disseminar lições sem sentido aos alunos que permanecerão no mesmo estado. Dar a cara à tapa não é fácil, desde aquele que preferiu aproveitar a ausência da sala de aula para cuidar de outras tarefas (ciente do desconto em sua folha de pagamento) até o outro que vestiu a camisa da causa do professorado paulista e lutou incansavelmente, todos os dias. Este texto é para vocês.
Se existe alguém que mereça a alcunha de mestre, de professor, são esses que, quase que literalmente, digladiaram em cada um dos mais de 90 dias de greve, colocando na prática aquilo que aprenderam, aquilo em que acreditam. Se existe uma fagulha de esperança na educação, tão em descrédito, em completa falência e decadência, são esses guerreiros que a mantêm acesa e com ela podem incendiar o mundo, incendiar os alunos de novas ideias, de reflexão sobre aquilo que os rodeia. Se há um professor que eu queira ser, são esses professores que, apesar do ambiente prisional das escolas, não sentem-se encarcerados, limitados pelas amarras que o sistema impõe a cada dia, burocratizando algo que deve ser sempre vivo, movente, transgressor: a educação.
      Mesmo não havendo atendimento às reivindicações, mesmo que cansados e massacrados por um governo autoritário e relapso com os jovens, crianças e o corpo docente que lida com elas, são esses verdadeiros mestres que me fizeram aprender muito mais, que me motivaram a persistir e a encontrar uma luz no fim do túnel demasiado escuro da educação no estado de São Paulo e no país.


10 de junho de 2015

Mania de fobia


Depois da heterofobia, brancofobia, agora descobri que existe a cristofobia. Logo Jesus Cristo que é só amor e pede para que você faça o mesmo com o próximo, não impôs nada pelo medo e ainda foi crucificado. Tudo bem, patologia não discutimos e, sim, padecemos. Analisando a minha rotina, dei-me conta de que há outros tipos de medos irracionais, primários, primitivos rondando a minha cabeça.
Os sintomas começam quando uma batida ritmada se avizinha à minha janela e sou obrigado a escutar um ritmo popularizado nas periferias e no programa Esquenta. É batata, bastou eu ouvir o primeiro “TCHUTCHA TCHUCHA” e o tom desafinado do MC que a minha funkfobia piora e me deixa em estado de nervos. Às vezes esta sensação transmuta-se para o bregofobia, quando a muriçoca pica, pica, pica, pica n’algum bar da região.
Mas o meu drama não para por aí, todo 5º dia útil do mês sou acometido pela durezofobia, sabe aquela aflição de ficar sem um tostão furado já no dia seguinte ao do pagamento constar na conta corrente? Deste mal eu sei que não sou o único que padeço. Ser pobre já não é fácil e ainda sofrer destes ataques de pânico com a conta zerada ou negativa, então...
Ouvi dizer que algumas pessoas desenvolveram cronicamente a livrofobia e a leiturofobia que, consequentemente, tornam-se interpretofóbas também, uma histeria que se alastrou pelas redes sociais, dizem...
São tantas fobias se desenvolvendo na sociedade moderna que eu penso aonde a humanidade vai parar com tanto medo?

Pensando bem, tenho percebido que as minhas postagens foram pouco visualizadas ultimamente. Pode ser presunção da minha parte, mas o problema não é o texto. O que explica a baixa popularidade das minhas postagens neste blog só pode ser Wesleyfobia!!! Cadê as autoridades para cuidar disso? Absurdo...

7 de junho de 2015

Dos problemas da escrita e da leitura


   Muito se culpa a Internet de contribuir para os problemas do povo brasileiro com a escrita, leitura e interpretação de texto. Na verdade, ela apenas evidencia uma situação que já existia anterior à era digital. Apenas tornou visível esta dificuldade nacional que as postagens mal escritas e equivocadas explicitam. Se brasileiro escreve mal é por falta da prática constante, se não obedece às regras de concordância nominal e verbal e à ortografia é porque ele também não ou pouquíssimo lê (não possui a referência visual da língua escrita). Não somos uma pátria educadora, como deseja a presidenta, nem sequer um país de leitores e esta realidade acontece por diversos fatores além da falta de interesse tupiniquim em pegar um livro e ater-se em sua leitura.  Na verdade, todos lemos de alguma forma, desde placas de rua às publicações dos amigos no Facebook, estamos imersos numa sociedade que valoriza o escrito e prima o visual, é impossível não se fazer uma decodificação simples destas informações. 
Tudo começa no âmbito escolar e, antes disso, no seio familiar.  Se a leitura e a escrita não são incentivados nestes ambientes, dificilmente teremos um leitor. Mas nem tudo é garantia de que esse contexto gere também uma pessoa que descubra e mantenha o hábito da leitura. Num mundo com tantas ofertas de distração é fácil deixar o livro ou outro suporte em segundo plano. Como já disse e escreveu a minha professora da graduação Ana Maria Haddad, não exatamente com essas palavras, temos que deixar de lado essa ideia romântica do "prazer" pela leitura, pois diante de um texto mais complexo e profundo e de uma linguagem não facilitada, aquilo vai trazer diversas sensações, menos o prazer imediato.
Se você busca apenas o prazer ao ler um texto (literário ou não), vai se frustrar com autores que exigirão um pouco mais do que essa "boa vontade" que só contribui para a padronização de sua leitura feita dos mesmos autores, gêneros etc. Os livros mais desafiantes são aqueles que geram principalmente desconforto, seja linguístico, temático, ideológico, que colocam o leitor em desconcerto consigo e com o mundo. Cujo estilo exigirá uma releitura e permitirá uma diferente apreensão, novo significado.  Ler é um "tour de force", por vezes cansativo, mas que te traz um sentimento ímpar de descobertas, ler é o exercício da expressão popular "água mole em pedra dura...". Então abandonando o livro, pela falta de hábito, pela noção equivocada de leitura, pela atração exercida por outras mídias, a pessoa vai perder cada vez mais o contato com o universo da língua escrita, tão exigida e cobrada pela sociedade.  Consequentemente essa pessoa vai reproduzir clichês, argumentos mal fundamentados, preconceitos de outrem, tudo naquele estilo (ou falta de...) onde não é prioridade o cumprimento de determinadas regras ortográficas que irão assustar os mais puristas seja pelo desleixo com suas orientações/prescrições ou pelo vazio de suas ideias. E aí voltamos ao que hoje pululam nas redes sociais e na Internet.  O problema da leitura é um círculo vicioso difícil de ser interrompido pois esta categoria de ignorância é conveniente para muitos inclusive.