21 de fevereiro de 2015

Colonizado

A boca treme
de uma febre diversa
o fulgor advém
de um olhar terceiro
de fora, estrangeiro
arquitetando invasões
colonizando-o
projetando capitanias
impondo sua língua
dentro da tua.
Abalando
tuas crenças pagãs
extraindo 
as maiores riquezas
e quando
menos perceberes
estás subjulgado
escravo d’algo
que sequer conheces
e te entregas
cativo
sem reclamar
cenho franzido
contrariado
cabisbaixo
aguardando somente
a próxima ordem
e assim
silenciosamente
perder-se
mais uma vez
na língua dele
em tudo.


20 de fevereiro de 2015

Na Estante 34: Sociologia da Leitura (Chantal Horellou-Lafarge & Monique Segré)


Livro: Sociologia da leitura
Autor: Monique Segré, Chantal Horellou-Lafarge
Editora: Ateliê Editorial
Ano: 2010
Páginas: 160


O universo da leitura é amplo e cheio de idiossincrasias. Afinal o que leva uma pessoa a ler, quais fatores determinam a escolha de um livro? Sexo, classe social, grau de escolaridade exercem alguma influência? Quais gêneros leem os homens e as mulheres? Leitura se refere a apenas livros ou podemos incluir as revistas, jornais, HQ’s, a televisão? Como era o relacionamento do indivíduo com o livro em séculos anteriores, o que mudou desde então? As autoras Chantal Horellou-Lafarge e Monique Segré tentam responder a estas e outras perguntas no livro “Sociologia da Leitura” que faz um estudo dos hábitos leitores desde o advento do livro, quando não tinha o formato atual e era feito de outros materiais ou era encomendado aos monges que copiavam os clássicos latinos e gregos e a Bíblia, até os tempos mais recentes quando o livro tornou-se um objeto de consumo.
Claro que as autoras fazem um panorama específico da realidade francesa, o estudo chega a apresentar dados estatísticos do perfil dos leitores desse país. Porém a realidade de um país com cada vez menos leitores assíduos, resultante da pouca escolaridade ou omissão dos governantes ou a concorrência de outras mídias (televisão, games, internet etc.) não foge muito ao que o Brasil vive desde muito tempo, guardado as devidas proporções. O livro foi sempre um privilégio das classes abastadas, por ser um artigo caro e até mesmo decorativo nas residências nobres e ricas. Já nas classes mais pobres, o acesso era limitado ou não existia, cenário que mudou um pouco com a presença de bibliotecas públicas, a parca educação que recebiam, onde tinham um primeiro contato com o texto escrito ou as esparsas campanhas de incentivo a leitura e alfabetização dos consecutivos governos.

De uma leitura compartilhada em espaços públicos, herança da tradição oral, a um ato cada vez mais individualizado, o hábito de ler traz características, motivações e consequências particulares. Não se restringe apenas ao livro, porém o livro ainda carrega em si a aura de uma atividade culta, diferenciada das leituras que fazemos diariamente e o tempo todo. O ato de ler transforma aqueles que se dispõem (com o incentivo da família, pelo contato primário nas escolas, por uma necessidade de trabalho etc.) a embarcar em suas páginas, adquirindo um conhecimento e uma experiência que ninguém mais pode arrancar.

17 de fevereiro de 2015

Ron Mueck pelos olhos do celular



Nesta segunda-feira de carnaval resolvi ir com o meu marido e dois amigos à exposição de Ron Mueck, aquela do artista plástico australiano que trazia esculturas hiper-realistas, e que é um sucesso em São Paulo. Já tinha me preparado psicologicamente para enfrentar as filas que duravam duas horas ou mais. Mesmo assim, graças à ótima companhia, este foi o menor dos problemas. Ao entrar no espaço da Pinacoteca, tivemos as orientações necessárias para apreciar as obras e saber das regras que todo visitante deveria seguir (respeitar a marca no chão que permite a distância entre o público e a obra, não tirar fotos com flash etc.).
O que mais me chamou atenção, além das obras, claro, foi o comportamento das pessoas ali presentes que muito me levavam a questionar se realmente estavam ali para apreciar as esculturas de Ron Mueck ou apenas tirar fotos e selfies (de preferência com as esculturas ao fundo). Uma profusão de celulares com suas câmeras ligadas, mãos se erguendo para pegar o melhor ângulo da escultura e, claro, um autorretrato para mostrar que a pessoa esteve ali e, consequentemente, postar esta imagem nas redes sociais. Ouvia os monitores chamando a atenção das pessoas que insistiam em ultrapassar os limites no chão ou vira e mexe a obra era iluminada pelo flash de um celular alheio, acrescentando uma luz que não era a planejada para ela, isso quando não tinha gente que queria tocar nas obras. Não vejo problemas em tirar fotos, são registros de um passeio agradável, de um contato inédito com uma obra de arte. Até mesmo eu o fiz, as duas fotos que ilustram esta postagem são das obras que eu achei mais interessante.
O problema é esta ânsia em registrar por registrar, falar, comentar, uma atitude irritante num local que exige um comportamento mais discreto e contemplativo, uma atitude que atrapalhava até mesmo quem desejava observar um pouco mais os detalhes de obras que já são repletas deles, pois tinha gente que não saía da frente delas para continuar a fotografar e a se fotografar. A popularização destas exposições é um ótimo indício de que existe, sim, mesmo que secundário ou para vias de ostentação facebookiana, um interesse pela arte em geral. O contato de olhos não habituados a este tipo de manifestação artística, mesmo que atabalhoadamente ou terceirizado pela lente do smartphone, pode ser uma iniciação ou um apuro do gosto estético ou o despertar do interesse por outras exposições que possam acontecer. Porém novos hábitos devem acompanhar este evoluir visual, porque o afã de tirar a foto, não substitui em nada o prazer ou o estranhamento (e Ron Mueck trabalha mais com o incômodo das situações que representa do que apenas o realismo de suas formas) do contato com uma obra de arte que propõe um diálogo silencioso com quem vê, comunicação que sofre interferências quando tem um aparelho telefônico como intermediador daquilo que seus próprios olhos podem fazer e com maior precisão e sensibilidade.


13 de fevereiro de 2015

Na Estante 33: Dom Casmurro (Machado de Assis)


Livro: Dom Casmurro
Autor: Machado de Assis
Editora: Globo
Ano: 1997
Páginas: 217



A tradição diz para não confiarmos em narradores em 1ª pessoa. Tudo que lemos no romance, conto ou crônica com este tipo de narrador é fruto de uma visão particular e subjetiva das coisas, de um determinado ponto de vista, um olhar parcial dos fatos. Pronto. Tendo em vista este conselho, você pode se aventurar e se deliciar com Dom Casmurro.
O romance de Machado de Assis, entre outras tantas obras-primas que ele escreveu, narra com primor a história de amor entre Bentinho e Capitu. Bentinho decide recontar este relacionamento desde a infância até a vida adulta, tentando, na velhice, trazer a juventude e a inocência de outrora, unir estes dois lados tão distantes através da escritura de um livro. Ele relembra a infância e adolescência na casa de Mata-Cavalos, no Rio de Janeiro, quando se dá conta dos sentimentos que nutre pela vizinha e amiga Capitu, após ouvir a conversa de José Dias, o agregado da família, lembrando a mãe de Bentinho da promessa que ela fizera de transformar o filho num padre e do perigo iminente da aproximação cada vez maior dele com Capitu.
“Olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, “Olhos de ressaca”, a protagonista deste romance, uma das maiores personagens femininas da nossa literatura, senão a maior, é retratada como alguém que consegue disfarçar os seus segredos, dominar os sentimentos, alguém que tem um grande autocontrole de si, enquanto Bentinho mal consegue esconder aquilo que sente quando pego de surpresa. Assim esperam a solução do impasse de Bentinho em seguir a carreira eclesiástica, que conta com a ajuda não muito eficiente do próprio José Dias. Bentinho vai para o seminário, faz amizade com Escobar. Fora isso, Bentinho é a insegurança em pessoa e já demonstra os ciúmes que, na vida adulta culminarão na acusação de traição de Capitu com seu melhor amigo. Dom Casmurro tem momentos mágicos de lirismo, quando retrata as descobertas do primeiro amor, os sentimentos que invadem o jovem Bentinho, as suas incertezas e a interação com Capitu, que parece sempre estar a um passo à frente dele. O romance também mostra com a argúcia e a ironia já conhecidas do Bruxo do Cosme Velho o ser humano e suas contradições, sem julgamento, pois estes defeitos todos nós possuímos.
O que está em jogo, além do mistério da traição de Capitu, que se torna secundário diante do panorama da vida social no Rio de Janeiro na segunda metade do século XIX, são os costumes e as relações humanas que se davam no íntimo das casas e das hierarquias sociais impostas a estes relacionamentos. Dom Casmurro é um romance agridoce, o humor que extrai de suas linhas e o estilo machadiano justificam a alcunha de clássico, nos deleitam, porém nos incomodam também, pois a melancolia e a amargura encerram as mesmas linhas de forma genial. Mas e Capitu? Traiu ou não traiu Bentinho? Ah, vão ler o livro e tirar suas próprias conclusões!!!

10 de fevereiro de 2015

Elas conseguiram




 De repente se descortinou outro universo naquelas antigas lousas. Era a língua portuguesa pelo olhar daquelas docentes que estavam há tanto tempo exercendo a sua função. Talvez cansadas, quiçá desestimuladas, possivelmente assustadas com as mudanças que cada geração traz consigo e, com elas também, uma infinidade de problemas de aprendizagem. A língua de cada país é um mistério, a portuguesa é quase um enigma maior. Estrangeira até para os seus próprios falantes. Afinal como compreender o monte de regras que assolam até mesmo quem se dispôs a encará-las com coragem ou, pasmem, ensiná-las a outras pessoas? Elas conseguiram. Neuza, Georgina, Rosana, Catarina, Meire. Entre sérias e tradicionais, entre divertidas e inovadoras. Elas lançaram o mínimo de luz que fosse sobre a escuridão dos aspectos gramaticais, dos elementos semânticos e sintáticos, das intermitências do português, suas inconstâncias e birras. Não é tarefa fácil. Falar a mesma língua a uma sala tão plural, jovem e imatura. Falar línguas diferentes com o intuito de aprender uma só. Dominá-la. Apreendê-la e permitir que outros a entendam. Nem o filho de Zeus com uma mortal realizaria trabalho tão hercúleo. Elas conseguiram. O professor de português é antes de tudo um forte (todo professor, na verdade). Força misturada à flexibilidade diante de tantas transformações orais e escritas. Uma capacidade camaleônica de se adaptar ao ambiente e salvar o mais importante: a aula dada e o conhecimento do aluno (mesmo com as interferências comuns e crescentes da indisciplina). Por isso não as esqueço, por isso é inevitável não espelhar-se nelas. Porque elas conseguiram...

1 de fevereiro de 2015

Na Estante 32: Nove Noites (Bernardo Carvalho)


Livro: Nove noites
Autor: Bernardo Carvalho
Editora: Companhia de Bolso
Ano: 2006
Páginas: 152


O tema do suicídio foi o que me chamou a atenção no romance de Bernardo Carvalho, talvez, junto com “Mongólia”, o livro mais celebrado do escritor e jornalista. O primeiro contato que tive com a literatura de Bernardo Carvalho foi através do romance “O Filho da Mãe” (comentando neste blog, clique aqui para lê-lo). Não tinha sido uma boa experiência de início e apenas depois conseguiu conquistar minha atenção leitora totalmente.
“Nove Noites” também é uma narrativa que se faz por caminhos tortuosos, mas o mistério envolvendo a figura do jovem antropólogo americano Buell Quain e as causas do seu trágico suicídio em 1939, aos 27 anos, é um dos chamarizes para o insistir nas páginas deste livro. Temos o narrador que tenta refazer a trajetória do antropólogo durante a sua estadia no Brasil enquanto ele estava na companhia dos índios krahô, que vivem no Tocantins. O narrador busca as motivações do ato extremo de Quain através das cartas que ele mandou a familiares, amigos e pessoas da universidade que supervisionavam sua pesquisa e expedição, além de entrevistas com algumas destas pessoas. Essa perspectiva funde-se às vivências do próprio escritor junto ao pai durante as visitas de negócios deste à região do Xingu (que o narrador, quando criança, comparava ao próprio inferno) e quando ele se encontrava à beira da morte num hospital.
O processo de pesquisa de Bernardo Carvalho, que também passou uma temporada na tribo dos índios krahô para obter informações a respeito de Buell Quain, não foi uma experiência gratificante e, até por isso mesmo, o autor apresenta um olhar pouco elogioso dos indígenas, sua visão desta convivência vai na contramão da abordagem, em geral, condescendente de especialistas e estudiosos. Fora isso tem a presença do engenheiro Manoel Perna (este também fictício), que teve contato direto com Buell Quain durante nove noites antes de o antropólogo retornar à tribo e dar fim à sua vida. Através destes múltiplos olhares sobre a persona misteriosa de Quain que o autor tenta dar coerência e unidade ao romance e que nem ele consegue apreender num todo, apenas tem vislumbres do que pode ter sido e acontecido. É essa personagem fragmentada com quem os leitores terão contato.

É clara a intenção de Carvalho fazer ficção com um fato real, apesar de toda a investigação que levaria a um inconcluso material jornalístico (foi através de uma resenha de jornal, onde o caso foi apenas mencionado, que o escritor teve conhecimento da história de Quain e se interessou em explorá-la). “Nove Noites” tenta, através da ficção, fazer as amarras possíveis de uma vida, ou reconstruí-la ao menos, cujas explicações todas estão enterradas na floresta e cuja verdade ninguém mais terá acesso.