30 de abril de 2015

Pombo


Pombo esmagado no asfalto, massa confusa e disforme na negritude da rua. Dá pena de olhar, tem pena de se ver. O que outrora fora vida, praga urbana a cruzar a cidade, agora morta, a lembrarmo-nos do incontornável destino. Senão pela roda do veículo apressado e desprevenido, talvez pela naturalidade da doença. Doença do pombo, mais um número na estatística. Menos um na paisagem citadina, que permanece gris, um tom acinzentado ressaltado pelas penas monocromáticas (enfeite inusitado no centro da rua) que se evidenciam e desprendem do pombo esmagado, quase desaparecido no asfalto, que será esquecido de vez.


19 de abril de 2015

Na Estante 37: Barba Ensopada de Sangue (Daniel Galera)

Livro: Barba ensopada de sangue
Autor: Daniel Galera
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2012
Páginas: 424


Daniel Galera é um dos nomes mais conhecidos da literatura contemporânea, já teve uma de suas obras adaptadas para o cinema e foi consagrado com o Prêmio São Paulo de Literatura em 2013 com o seu mais recente trabalho: Barba Ensopada de Sangue. O protagonista sem nome muda-se para Garopaba, no litoral catarinense, longe da família e dos amigos, após o suicídio do pai, de quem ele passa a cuidar da cachorra que o pertencia. No entanto outra motivação o traz para aquela região: foi lá que seu avô Gaudério foi brutalmente assassinado há muitos anos atrás, porém o corpo dele simplesmente desapareceu. O assunto tornou-se um tabu entre os mais velhos e adquiriu contornos de lenda urbana. 
Enquanto investiga com dificuldades e pouco sucesso os eventos que levaram à morte do avô, o protagonista trabalha como professor de natação numa academia, dá treinos de corrida para um grupo e envolve-se amorosamente com duas mulheres. A personalidade do protagonista é quase da de um ermitão, ele visa uma vida simples, reclusa, com poucos recursos e dinheiro suficiente para sobreviver. Daniel Galera tem uma capacidade descritiva impressionante (ainda mais para reforçar o problema congênito do protagonista em fixar na memória a feição daqueles com quem trava contato) e faz um retrato minucioso da cidade de Garopaba, local de uma decadência implícita, dependente do turismo, que vive seus momentos de glória quando o verão e a alta temporada traz milhares de turistas para visitar as suas praias, porém passa por uma fase de pouco movimento, um período moroso, de considerável tristeza nos meses posteriores, clima psicológico que parece contagiar os moradores nesta época e da qual o protagonista é um grande observador. 
O livro trata os relacionamentos humanos e sociais com sensibilidade, principalmente os familiares, cheios de contas por acertar e aos quais não cabem nem um dissimulado perdão. O protagonista encontra em Garopaba um local perfeito e adequado ao seu jeito calado, pouco exigente, como se isolado encontrasse a si mesmo, numa jornada mínima de autodescoberta e realização. Um romance que descortina uma existência simples porém nunca rasa, um autor que oculta nas entrelinhas das interações retratadas, dos segredos da cidade e do perfil de seus moradores, uma insuspeita e bem-vinda complexidade..

6 de abril de 2015

KKKKKKK


O rosto inerte contrastava com os risos da conversa on line. Notava-se até certo enfado e um aparente cansaço. E a piada do colega e o comentário jocoso do amigo nem foram tão engraçados assim. Mas os dedos automaticamente escreviam a onomatopeica expressão advinda dos diálogos na Internet, da mesma forma que um riso espontaneamente aconteceria numa interlocução em carne e osso.
“kkkkkkk” para quando enviaram pelo WhatsApp uma foto engraçada. Tudo bem, a imagem era apenas diferente.
“kkkkkkk” depois de um vídeo com uma fala engraçada de um bêbado ou uma encenação caseira de uma situação do cotidiano.
“kkkkkkk” porque alguém falou mal de uma pessoa a qual você não vai com a cara (neste caso o riso até se esboçou no semblante).
Mas quando você mandou a sua mensagem que faria rolar de rir o mais sério dos homens, veio o silêncio. Mensagem visualizada, nenhum comentário, minutos eternos que converteram-se em horas. Quando o ostracismo de seu comentário brilhante era inevitável, o riso surgiu dentro do grupo. “kkk”. Três letrinhas e mais nenhuma outra observação. O que acontecera? O riso foi apenas de solidariedade para não ficar no vácuo? Não aceitaria esta esmola de atenção. Saiu do grupo ofendido, com a moral em baixa e o ego clamando por uma atenção virtual.
Segundo o internetês, o riso mais contido é o “rsrs”, enquanto a gargalhada escancarada é representada por vários e seguidos “k”, letra reincorporada ao alfabeto brasileiro. Só que ainda não quantificaram com quantos “k” se faz uma risada sincera.