29 de outubro de 2015

Protozoários


Desliguem os aparelhos, o Brasil morreu de falência cerebral e estupidez generalizada!!! Todos os esforços para demovê-lo de uma nostalgia pelas coisas normais como a escravidão, a submissão feminina, a prisão homossexual em armários blindados, a truculência justificada da ditadura militar, a delimitação explícita entre pobres e ricos ou fazê-lo enxergar além do ódio a um único partido foram em vão. Estamos no século XXI apenas na aparência, nossa mentalidade é medieval, as atitudes derivam dos tempos pré-históricos de onde a capacidade leitora e escrita se restringia a desenhos primitivos numa caverna remota. Vivemos uma época em que a literariedade cedeu lugar a literalidade, quando a preguiça de interpretar uma informação mínima é regra nos universos reais e virtuais. O que gerou essa morte lenta e dolorosa? Raiva acumulada que afetou um coração repleto de ódio e anuviou os pensamentos com a incompreensão da inevitabilidade da mudança, de que os padrões irão se transformar, querendo ou não. O mundo é outro mas luta para manter as aparências de uma estranha normalidade anacrônica, ainda não sabe lidar com o que chamamos de modernidade. Adicionamos um prefixo novo, agora vivemos uma contraditória pré-história-moderna, substituímos os tacapes por celulares e logo largaremos os computadores para andarmos sobre quatro patas. Mais uma vez. Estilo condizente ao atual estado mental que se estabelece e acompanha um pensamento que, de tão voltado ao antes, logo se lamentará de uma época em que éramos apenas insignificantes protozoários e não havia PT, comunismo, feminismo ou ditadura gayzista.

24 de outubro de 2015

Na Estante 46: O Irmão Alemão (Chico Buarque)


Livro: O irmão alemão
Autor: Chico Buarque
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2014
Páginas: 240


         Há uma tendência na literatura brasileira atual da escrita de romances com forte carga autobiográfica, também chamada de autoficção. “O Filho Eterno”, de Cristovão Tezza, e “Divórcio”, de Ricardo Lísias, são exemplos deste tipo de texto onde fatos da biografia do escritor se entrelaçam à ficção. Chico Buarque, cantor, compositor e escritor consagrado, também recorreu à autobiografia para engendrar sua mais nova obra chamada “O Irmão Alemão”. Da realidade, Chico retira a história do filho que o pai Sérgio Buarque de Holanda teve com uma alemã, durante a sua estadia em Berlim nos anos 30. No romance, o narrador Francisco de Hollander encontra uma carta escrita em alemão endereçada ao seu pai, Sérgio de Hollander, até que, por intermédio de um conhecido do amigo Thelonious (com quem também cometia pequenos delitos ou arruaças), descobre que a informação de que Sérgio teve um romance com uma mulher chamada Anne Ernst e a engravidara. A figura deste irmão em Berlim persegue o narrador de forma obsessiva, que vai juntando aos poucos as peças deste enigma, e o faz querer obter maior conhecimento do paradeiro dele, ao mesmo tempo que usa a imaginação para adivinhar como poderia ter sido a trajetória deste irmão desconhecido.
       “O Irmão Alemão” é ambientado no período negro da ditadura militar e o romance é hábil em retratar este momento como um perigo sempre a espreitar as personagens, prestes a roubar-lhes ou cercear-lhes a liberdade. Chico não pretendeu com sua obra disfarçar as referências à própria história, o sobrenome Hollander é um exemplo. Pelo menos no livro ele não é um ascendente compositor e cantor dos tempos dos festivais e, sim, um professor universitário.
         O livro acaba por ser uma homenagem ao próprio pai do autor, retratado como alguém fascinado pelo universo dos livros e da literatura, que possui uma casa entupida de exemplares raros e manteve contato direto com os maiores nomes da literatura não somente brasileira como mundial. As menções à rica biblioteca e ao comportamento recluso e distante de Sérgio acabam rendendo as melhores passagens do livro. O irmão do narrador, as aventuras amorosas e o quanto de inveja o narrador tinha da rotina diária de mulheres que frequentavam o quarto dele, também valem um elogio. Francisco ficava à sombra deste irmão mais velho, contentando-se até em travar relacionamento com estas mulheres que já tinham passado pelos braços do outro. 
         Se há algo a reprovar em “O Irmão Alemão” é o final abrupto demais, que não dá tempo do leitor despedir-se das personagens ou até de sentir maior simpatia pela busca do narrador, mesmo que a curiosidade de saber o que é verdadeiro ou não na matéria narrada o prenda até a última página. Mas este romance, primeiro que leio de Chico Buarque, pretendo conhecer os outros em breve, demonstra a habilidade do cantor de “A Banda”, “Meu Guri” e tantos outros clássicos da MPB com a literatura, universo onde o domínio com as palavras é primordial e que inquestionavelmente Chico Buarque possui de sobra.

15 de outubro de 2015

Sala de aula pós-apocalíptica


As lousas estão abandonadas, os cadernos amassados e esquecidos n’algum lugar. A poeira oculta os rabiscos de uma carteira, desenhos rupestres registrados por alguém não muito longe. As salas estão vazias. O que antigamente era cheio, vivaz, barulhento, que tinha a paz e o silêncio interrompidos por corridas e gritos eufóricos, conversas sussurrantes ou suspiro de tédio. Tédio. Tudo começou a partir dele e depois de um observar ao redor, aquele espaço perdera o sentido total. Um sentimento geral. Vírus daninho e sinuoso a contaminar qualquer vontade discente ou docente. De repente a educação não era mais necessária, após tantas organizações e desorganizações. Os discursos clichês da importância do estudo, da necessidade do ensino, perderam o viço, fez-se vinco na mais lisa das sedas, corroeu-se o restante de resiliência que havia em nós, mesmo que aos nós. Perdeu-se no embolar de tantas prioridades econômicas e exigências burocráticas. Mero produto descartável, jogado junto aos outros personagens deste drama barato (depois de muitos cortes e ajustes financeiros) no aterro que é esquecido e encoberto por outros lixos. No limbo. E quão mais pobre o país ficou. O quão miserável pereceu nosso estado. Pois sem saber, não entendíamos que tudo aquilo era um pesadelo vivo do qual não lutáramos para acordar, do qual era possível um súbito despertar. Tarde demais?...

1 de outubro de 2015

Na Estante 45: Sonetos do Amor Obscuro e Divã do Tamarit (Federico García Lorca)


Livro: Sonetos de amor obscuro / Divã do Tamaritt
(Coleção Folha Literatura Ibero-Americana)
Autor: Federico Garcia Lorca
Editora: MEDIA Fashion
Ano: 2012

Páginas: 90

O amor alimenta a poesia, desde as produções mais antigas, como no caso das cantigas de amor e de amigo da literatura portuguesa. Federico Garcia Lorca recupera um tanto quanto desse amor desesperado da época medieval e os conflitos internos da poesia barroca e acrescenta imagens e metáforas sombrias na tessitura dos versos de “Sonetos do Amor Obscuro” revelando o quanto este sentimento tem de sofrido quando não há correspondência ou pela simples espera de uma resposta ou escutar da voz de quem se ama ao telefone ou a distância que faz-se entre os dois, enfim, toda ânsia positiva e negativa de estar apaixonado. Os poemas ganham nova interpretação se lembrarmos que o poeta foi um homossexual assumido num período em que era um tabu falar abertamente a respeito disso. Já em “Divã do Tamarit”, Lorca acrescenta a presença da morte nos gazéis e casidas (formas fixas de poemas, como o soneto e a ode, por exemplo), resgata a paisagem de Granada com a inventividade metafórica dos versos que por vezes remetem ao amor e flertam com o fantástico e o surreal, inventividade esta que o tornou um dos maiores nomes da literatura espanhola. Conhecia um pouco da trajetória do poeta espanhol Federico García Lorca, mas nunca tinha travado contato com sua obra poética. Lorca também revolucionou o teatro e foi uma das vítimas da Guerra Civil Espanhola. “Sonetos de Amor Obscuro e Divã do Tamarit” foram publicados postumamente e tem a vantagem de ser uma edição bilíngue, o que permite ao leitor vivenciar também na língua original a musicalidade e o lirismo muito bem traduzidos para o nosso português, como no exemplo abaixo:

Casida II
Do Pranto

Fechei a minha sacada
porque não quero ouvir o pranto,
mas por detrás dos muros grises
não se ouve outra coisa que o pranto.

Há pouquíssimos anjos que cantem,
há pouquíssimos cães que ladrem,
mil violinos cabem na palma da minha mão.

Mas o pranto é um cão imenso,
o pranto é um anjo imenso,
o pranto é um violino imenso,
as lágrimas amordaçam o vento,

e não se ouve outra coisa que o pranto.