31 de janeiro de 2016

Retrato da cidade quando viva


A cidade continua a correr
Entre buzinas e fumaças
Entre ronco de motores
Entre gente apressada,
engravatada, neurastênica
A cidade sua com o trabalho
Assusta-se com a multidão
Com a pobreza e a barbárie
Luta feroz contra o tempo
Mal almoça, mal toma o café
O riso do mendigo quebra o ritmo
A criança pedinte no semáforo
Torna denso o clima já insuportável
O concreto fervilha ao sol rachante
Cidade onde ninguém se olha
Cidade indiferente e relapsa
Que abandona os seus à própria sorte
Nas filas dos bancos
Nas praças e alamedas
Na busca pelo emprego
Displicente com os destinos
Que vagam como sangue em veias
Pelas suas ruas, avenidas e becos
E assim o trabalhador se indigna
E assim o casal encontra-se ao acaso e se apaixona
E o estrangeiro ou o migrante perdem-se na imensidão
Então a cidade segue o seu rumo
Ao infinito, ao moto perpétuo, ao caos
Rumo à noite que repousa como bálsamo
Ameniza relógios biológicos
E o silêncio se estende, enfim
Para dormir, para sonhar, para vagar insone
E a cidade se distrai e cochila
Para despertar assustada no dia seguinte
(Pois sempre acorda atrasada)
E recomeçar tudo outra vez...

24 de janeiro de 2016

Na Estante 54: O Idiota (Fiódor Dostoiévski)


Livro: O idiota
Autor: Fiódor Dostoiévski
Editora: Presença
Ano: 2001
Páginas: 640

Este post também poderia chamar “Das dificuldades de ler um romance russo”, tamanho os problemas que surgiram durante a leitura. Primeiro, os nomes e sobrenomes; depois, as variações de apelidos que estes recebem (um mesmo nome pode ter dois ou mais apelidos). Ao longo do livro, quando acha que o narrador se refere à determinada personagem, você percebe que, na verdade, ele faz menção a outro. No entanto, você vai se acostumando à medida que atravessa as mais de 600 páginas de “O Idiota”, de Fiódor Dostoiévski, romance que é considerado um dos melhores produzidos pelo autor de “Crime e Castigo”.
O protagonista é o Príncipe Míchkin, um jovem que retorna da Suiça para Petersburgo após um longo tratamento de epilepsia, cuja bondade de coração e até mesmo certa ingenuidade, além de um olhar humanista a todas as pessoas, é confundida pelas pessoas do círculo de amizades que acaba fazendo como uma idiotia. Míchkin procura pela família Epanchin, que possui um parentesco distante com ele, e logo sua figura destoante e conduta diferente ganha simpatia e curiosidade de diversas pessoas. Dostoiévski faz aqui um retrato da alta sociedade russa pré-revolução, seus hábitos, preconceitos, as relações de dominância e subserviência que mantém com outras classes sociais. O curioso é descobrir e entender como Míchkin consegue sobreviver ou até mesmo manter-se convicto de seus valores em meio a um grupo que não prioriza questões mais humanas e cujas preocupações se dão ao redor do dinheiro, do status social? Quem acaba tendo razão e sabedoria nesse jogo de interesses, ele, o idiota, ou os outros?
As dificuldades apenas recrudescem quando surge a figura de Nastássia Filíppovna, execrada socialmente por muitas pessoas pela sua conduta e sua história como protegida de um general, dona de uma personalidade excêntrica e que escandaliza os que se encontram ao seu redor, menos Míchkin que consegue enxergar o interior de Nastássia e se interessa por ela como que numa necessidade de protegê-la ou salvá-la desta corrupção de valores a qual está imersa. Acaba disputando os sentimentos dela com Parfión Rogójin, jovem que Míchkin conheceu no trem de retorno à Rússia, de conduta boêmia e extravagante e que, além disso, alimenta uma paixão obsessiva por Nastássia.
Dostoiévski faz um panorama de uma sociedade em transformação onde não cabem idealistas como Míchkin e o escritor tem um domínio incrível do enredo que prende o leitor em certas passagens de suas diversas páginas, mesmo que algumas idas e vindas ou revelações exasperem e deem a impressão da trama girar em círculos. “O Idiota” é um exercício de leitura que nos dá um protagonista cuja conduta lembra às vezes Dom Quixote, personagem que o próprio Dostoiévski assume ter se inspirado para escrever este livro, e é nessa caracterização, dele e de outras figuras que trafegam pelo romance, que Dostoiévski tem muito a dizer sobre o próprio povo russo e sobre a humanidade acima de tudo.

18 de janeiro de 2016

Ave, Café!


Se eu consegui sobreviver aos desastres do ano de 2015 foi devido ao café. Se houvesse a quem dedicar todo o meu sucesso ou fracasso profissional e estudantil, seria ao café ou falta dele no momento certo. Exagero? Sim e não. Afinal quem não gosta daquele líquido negro, cheiroso e que tanto nos estimulam a níveis viciantes?
O café é a cachaça de quase todo trabalhador. Aquela bebida autorizada que dá energia e desperta. Sentiu sono? Café! Está desanimado? Café! Hora do lanche? Café! Antes, durante ou depois de uma reunião infrutífera? Café, óbvio! Ao fim de um dia estressante ou começo de uma nova jornada diária! Não existe momento inadequado, o café consegue arrumar um espaço para se inserir e fazer-se exigir.
Se existisse versão injetável, usaria. Uma droga necessária. Como as pessoas evitariam o cansaço e o sono? Dormindo e repousando, possivelmente. Num mundo perfeito já que nosso serviço assalariado assemelha-se cada vez mais a um trabalho escravo. Fazer mais com menos. Otimizar custos. Ter vistas grossas à qualidade em detrimento da quantidade. O café move o mundo. Café é o melhor amigo, superior aquele colega do serviço que faz piadinhas manjadas para te animar. O café te dá energia em silêncio e cheira bem melhor do que o tal colega durante o expediente.
Sua apreciação é como um rito de iniciação a uma vida adulta repleta de responsabilidades e falta de tempo, gosto de maturidade que se une ao odor do cigarro, ao sabor da cerveja e outras bebidas destiladas ou fermentadas e da comida de self service. Coisas que aprendemos a tolerar ou apreciar em nossas vidas pela força do hábito, o impulso do vício ou simplesmente pela necessidade de tê-las ali ao nosso alcance. 

12 de janeiro de 2016

Na Estante 53: Verão (J. M. Coetzee)


Livro: Verão
Autor: J. M. Coetzee
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2010
Páginas: 280

Ok, podem reclamar. J. M. Coetzee de novo. Mas o que eu posso fazer? O cara é bom. Então vamos a “Verão”, que encerra a trilogia “Cenas da Vida na Província”, precedida por “Infância” e “Juventude”. 
Neste terceiro livro, J. M. Coetzee quebra toda a narrativa iniciada nas obras anteriores e desta vez o protagonista é já um autor consagrado e morto. Um jovem chamado Vincent decide escrever a sua biografia e o livro é composto também por entrevistas em que conhecemos um pouco das facetas de Coetzee pelo olhar de outras pessoas que tiveram contato com ele após o seu retorno à África do Sul para cuidar do pai: Margot, uma prima que também foi amiga de infância dele; Julia, uma vizinha casada com quem Coetzee teve um relacionamento; Adriana, dançarina brasileira de quem Coetzee é professor de língua inglesa de uma de suas filhas; Martin, um senhor com quem o protagonista teve discreta amizade, após concorrerem ambos a uma vaga de professor numa universidade; Sophie, professora universitária com quem Coetzee dividiu algumas aulas e com quem também teve um caso. 
Assim o leitor entende (ou tenta ao menos) compreender a personalidade difícil de Coetzee já adulto e sua pouca afeição ao convívio social (alheio quase ao ambiente de apartheid em seu país) e até mesmo amoroso. Coetzee não poupa a si próprio, como personagem, de críticas e ironia, claro, lembrando que, antes de tudo, o romance não passa de uma obra ficcional e não uma autobiografia tradicional. Não devemos confiar no narrador (quando este aparece esparsamente na forma de diário no início e final do livro) ou no colóquio das outras personagens ao fazerem seus depoimentos. 
Comparando os dois primeiros livros com este “Verão”, considero este último inferior. Como foi escrito antes, a narrativa é quebrada por entrevistas, porém se elas trazem um “olhar de fora” e lançam luz sobre o protagonista, deixam a estória mais fragmentada e frágil, de menor unidade do que, por exemplo, com o uso da narração em terceira pessoa dos romances anteriores (quiçá Coetzee quisesse evitar ter feito uma convencional trilogia como tantas que existem na literatura atual). Há um certo estranhamento na escolha estilística quanto ao formato deste terceiro livro, mas não tira o interesse do leitor que, como Vincent a recolher as impressões sobre o seu biografado, monta um quebra-cabeças a respeito do personagem que acompanhou por três livros e, ainda assim, este permanece um enigma aos nossos olhos.

7 de janeiro de 2016

Fim do mundo


Talvez o mundo acabe amanhã
Quando menos esperarmos
No durante o sono antes de despertar o despertador
Não haveria mais atraso ao trabalho
Nem serviço acumulado
Nem cobranças, nem prazo apertado
Nem a bajulação do solícito colega de labuta

Talvez o mundo acabe amanhã
Antes que me toque durante o banho
E o fim não permita o esbarrar n’alguém na lotação do metrô
Acabe tão rápido quanto a troca de olhares
Que me atingirá como a morte e é como se eu
Não existisse antes daquele momento
Não haverá olhar, não haverá toque, não haverá nada

Talvez o mundo acabe amanhã
Via meteoro, dilúvio, via e-mail
Numa avassaladora combustão ou
Submergindo a minha impaciência, a minha pressa
Tudo quanto é sonho estagnado
Tudo quanto é vida desperdiçada na duração de uma fila
Extinguindo qualquer falta de vontade

Diante de iminente catástrofe
Que não permitirá o humano
Que não permitirá natureza ou cultura
Tudo pó, tudo um dó, tudo só
Aguardo os sinais deste Armageddon
Que é diário e, no entanto,
Nunca se faz definitivo

3 de janeiro de 2016

Na Estante 52: Predadores (Pepetela)


Livro: Predadores
Autor: Pepetela
Editora: Dom Quixote
Ano: 2006
Páginas: 383

Predadores (2005) é um romance escrito pelo angolano Pepetela (pseudônimo de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos), autor de outras obras como Mayombe (1971) e A geração da utopia (1992). Pepetela participou ativamente da guerrilha pela libertação de Angola da colonização portuguesa e sua literatura trata muito deste período importante, quando a independência do país aconteceu tardiamente em 1975 e teve Agostinho Neto como um dos grandes expoentes políticos e literários daquela época. No entanto Predadores faz um retrato irônico de tudo que sucedeu à revolução em seu país, onde a corrupção e a busca pelo poder resultaram em diversas guerras civis e violência e miséria para seu povo. Predadores é uma obra de desencanto antes de tudo.
O que chama atenção do livro, além da temática importantíssima para compreender a realidade social de Angola, é o uso de uma narrativa que recusa o convencional, abusando das idas e vindas ao tempo e fazendo um uso curioso e esporádico de um narrador que, por vezes, flerta com uma narrativa tradicional, recorrendo ao discurso indireto livre, narrador este que também dialoga com o leitor, propiciando uma sensação bem-vinda de estranhamento à obra.
Predadores conta a estória de Vladimiro Caposso, um empresário inescrupuloso, que ascendeu socialmente ao ter se filiado ao MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), após a independência de Angola. O leitor acompanha a trajetória de VC (como é chamado pelo narrador ao longo do romance) desde quando era um jovem ambicioso, funcionário de um estabelecimento comercial cujo dono o deixa sob a sua responsabilidade (quando a incerteza dos conflitos que resultaram na independência do país era ainda muito grande, principalmente para os portugueses que lá moravam) até quando perde diversos aliados e passa por uma crise em sua empresa. Ao longo do romance conhecemos também o jovem Nacib, morador dos musseques (o equivalente a nossas favelas) que se envolve com a filha mais nova de Vladimiro Caposso e que almeja formar-se engenheiro mecânico, Sebastião Nunes, que conheceu VC na juventude, idealista advogado que irá processar o empresário por prejudicar um vilarejo ao adquirir uma fazenda cujo território impede a alimentação do gado local e o acesso à água aos moradores, desfilam também para o leitor políticos outrora camaradas engajados na luta pelo povo e que agora vivem do aproveitamento do dinheiro público em benefício próprio e da influência que possuem no partido e nos governos atuais. Vladimiro Caposso mesmo é um personagem representante de toda a situação política (repleta de predadores como ele) que dominou Angola nas décadas que sucederam a 1975.
Pepetela não segue uma narrativa tradicional, começo, meio e fim se misturam, cada capítulo ganha o ponto de vista de uma personagem diferente e o tom sarcástico predomina num narrador em 3ª pessoa que de vez em quando na narrativa faz as suas intervenções para dialogar jocosamente com o leitor. Vladimiro Caposso, protagonista do romance tem mais semelhanças com os políticos brasileiros do que imaginamos. A própria realidade de Angola, por mais que distante, continentalmente, aproxima-se da nossa em muitos aspectos. Predadores pode muito bem ser um livro para compreensão do universo político e social angolano quanto ser uma introdução à riquíssima literatura produzida pelos escritores e escritoras oriundos dos países africanos lusófonos.