13 de julho de 2017

A culpa

Marcos Oliveira/Agência Senado

Não culpem os patos, não culpem as panelas. Não culpem o PT. Nem Dilma e nem Lula. Não culpem a esquerda e nem a direita. Nem Temer, nem Maia e Renan, nem Cunha. Não é responsabilidade sequer do Senado ou da Câmara. Vamos isentar nossos governadores e prefeitos também. Da mesma forma não vamos apontar os dedos para a elite e nem para os pobres (e a classe média que transita física e psicologicamente entre os dois extremos). O motivo dessa bagunça toda é mais ancestral, mais arraigado do que imaginamos. Impossível não vislumbrar o hoje sem olhar retrospectivamente. Não me proponho um estudo histórico-sociológico para não gerar bocejos, já basta a educação básica que causa essa reação, além da pior indiferença. Sugiro esta viagem no tempo para que juntos pensemos em que momento da vida brasileira tudo se perdeu inexoravelmente. Não, não foi com o pedido de impeachment, como os esquerdistas pretendem afirmar. Não, não foram as marchas de junho de 2013 que a direita cooptou. FHC, Itamar, Collor, Sarney, Diretas Já, Ditadura? A quem responsabilizamos este verdadeiro imbróglio político de consequências catastróficas? Quem, meu Deus? Jesus Cristo? Noé? Adão e Eva? O Big Bang? Onde estou querendo chegar? Nada mais original que a própria explosão que deu início ao que somos (nada mais propício do que um meteoro para dar fim aos dinossauros que ainda restam aqui no planeta Terra). Pois ela permitiu a criação do universo e, consequentemente, o homem em meio de sua vastidão, e em meio ao homo sapiens, o brasileiro, com seu jeitinho, seu sorriso inatingível, sua mania de rir da própria desgraça e continuar seguindo com a sua existência como se nada tivesse acontecido. Hum, avancei bilhões de anos novamente... Recuar mais para quê? Se em meu país, voltamos no tempo através das leis e das medidas provisórias? Leis que logo nos reduzirão novamente aos nossos antecessores, às gerações anteriores, até virarmos átomos, nêutrons e outras partículas ainda menores, nos recolherão cativos das nossas próprias necessidades de sobrevivência. De quem é a culpa? Pergunta retórica que aponta para múltiplas direções às quais é inevitável não ficarmos desnorteados. Distribuamos a culpa então, inclusive um pouco para mim e para você. O problema é saber o que faremos daqui para frente...

10 de julho de 2017

Por quanto tempo?


Por quanto tempo eu tenho que esperar a poeira baixar para as coisas melhorarem ou simplesmente mudarem de forma? Por quanto tempo eu tenho que esperar a revolução acontecer e, se eu mesmo faço a minha própria rebelião, de onde devo arrancar tanta coragem para tal? Por quanto tempo eu tenho que esperar a brisa ir embora, e tudo ao meu redor parar de girar em torno do meu próprio eixo, sou planeta Terra em translação ou rotação? Ainda há tempo para aguardar? O relógio prossegue na sua contínua tortura psicológica. Amanhece e anoitece, faz um frio e não sei se é possível esquentar-me por dentro.  Nada, nem sequer a vodka com sua chama temporária. Por que tanta pressa, tanta urgência? Os dias passam, as férias acabam e o ano se encerra, tanto por fazer, tanto por querer, muito por adiar. E lá fora? Ainda o gelo, ainda a indiferença, espero o momento certo para sair. Por quanto tempo eu tenho que esperar para sair? Mesmo que eu tenha que congelar ao frio, mesmo que tenha que apenas contemplar a paisagem. Gris cenário, monocromática fauna, arquitetura plana, elevada poeira para ânimos rasteiros, poeira assentada por ânimos inflados. Respostas escondidas. E as perguntas impunemente soltas no contexto. 

5 de julho de 2017

Na Estante 76: A comédia humana - Vol. 4 - Estudo de costumes - Cenas da vida privada: O pai Goriot, O coronel Chabert, A missa do ateu, A interdição, Contrato de casamento, Outro estudo de mulher (Honoré de Balzac)


Livro: A comédia humana - Vol. 4 - Estudo de costumes - Cenas da vida privada (O pai Goriot, O coronel Chabert, A missa do ateu, A interdição, Contrato de casamento, Outro estudo de mulher)
Autor: Honoré de Balzac
Editora: Globo
Ano: 2012
Páginas: 768

É inquestionável a importância de Honoré de Balzac para a literatura universal e ao gênero romance em particular. O romance realista tal e qual nós conhecemos é credor das contribuições de Balzac que ainda hoje faz escola e influencia diversos escritores. Cheguei a esse quarto volume de A Comédia Humana por intermédio de um texto de Roberto Schwarz sobre o livro O Pai Goriot. Schwarz ressalta, no ensaio Dinheiro, memória, beleza (O Pai Goriot), que, antes de tudo, a personagem principal de todas as histórias de Balzac é a própria Paris do século XIX, uma entidade viva e onipresente nas obras escritas pelo francês. Paris, como toda grande capital do mundo, traga os seus moradores ao meio do seu redemoinho social, corrompe, retira quaisquer resquícios de inocência que impede a possibilidade de integração total. Sendo o dinheiro também um elemento unificador de todas as histórias desta série. O ensaio despertou a minha curiosidade e como um Balzac só não é suficiente (a minha intenção era ler apenas O pai Goriot), acabei sucumbindo às outras narrativas que compõem o volume 4  da Comédia Humana.
Por ser um escritor prolífico (Balzac redigiu dezenas de livros ao longo de sua vida) é natural que nem todas as narrativas atinjam um grau de perfeição e este volume também não escapa à irregularidade das histórias. Claro, O Pai Goriot se destaca como uma das maiores obras-primas balzaquianas. A triste e trágica história do Sr. Goriot, um ex-empresário que mora numa pensão decadente, vive num mundo recluso e abnegado, dedicando-se com cega devoção a suprir os caprichos das suas duas filhas, Delphine de Nucingen e Anástacia de Restaud, que estão ascendendo socialmente com bons casamentos, mas exploram o pai financeiramente e o apartam de seu círculo. Na Casa Vauquer circulam os mais diferentes tipos, entre eles, Eugène de Rastignac, jovem que veio do interior para cursar medicina e sente um desejo irrefreável de adentrar na alta sociedade parisiense e acaba tornando-se amante de uma das filhas de Goriot.
Destacam-se também neste livro O Coronel Chabert, onde um oficial dado como morto retorna e percebe que sua presença, ao invés de despertar comoção e felicidade, torna-se um grande problema e incômodo, principalmente à esposa dele. Melancólica, A missa do ateu é uma história curta e comovente sobre fé, respeito e a luta diária de quem busca viver e sobreviver e vencer numa metrópole como Paris.
Balzac é necessariamente cruel ao não abrir concessões no retrato destas personagens às voltas com o egoísmo, a mesquinhez, a ambição, dispostas a tudo para conseguir o que desejam e assim conquistar espaço na já tão disputada alta sociedade, dos quais poucos de fora adentram e resistem, conseguir essa passagem consentida pelos aristocratas significa abrir mão de muitos valores como o próprio Eugène de Rastignac, de O Pai Goriot, o faz.
Em A Comédia Humana muitas personagens aparecem em outras histórias, cruzam-se, citam umas às outras , como velhos conhecidos e acabam o sendo de alguma forma para o próprio leitor que diante do vasto painel de uma sociedade entre fascinante e decadente precisa tomar cuidado para não se perder e ser também corrompido. A Paris de Balzac tem esse poder revelador, Paris que Balzac, num misto conflituoso e contraditório de sentimentos, tanto amou e imortalizou com a sua pena.


2 de julho de 2017

Na Estante 75: Diário de um ano ruim (J. M. Coetzee)


Livro: Diário de um ano ruim
Autor: J. M. Coetzee
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2008
Páginas: 248

Publicado em 2007, Diário de um ano ruim é a prova da inquietação de J. M. Coetzee em busca de sempre renovar a sua escrita e procurar outros formatos para a literatura e, principalmente, o gênero romance. Três linhas narrativas dividem, literalmente, o espaço da página do livro: a primeira, contem ensaios denominados “Opiniões fortes”, onde um escritor sul-africano radicado na Austrália expõe seus pensamentos a respeito de temas polêmicos e contemporâneos como o terrorismo, Al-Qaeda, Guantánamo, pedofilia, a direita e a esquerda etc. A segunda traz o mesmo escritor detalhando o seu encontro e convivência com a jovem Anya, uma imigrante filipina, a quem ele solicita os serviços para transcrever os textos que viriam a ser as mesmas opiniões que o leitor verá nas páginas do livro. A terceira linha narrativa trata-se do relato da própria Anya e suas impressões sobre o “Señor C.”, o escritor com quem convive, além disso, mostra o relacionamento dela com o marido Alan, um especialista em investimentos financeiros.
Sendo o próprio Coetzee um escritor sul-africano que vive na Austrália e sabendo o leitor deste fato, é tentador buscar encontrar algum resquício da biografia de Coetzee neste romance. Mas é claro que é também enganoso já que o escritor vencedor do Prêmio Nobel de Literatura algumas vezes se coloca como personagem de seus livros, rompendo as barreiras que separam ficção da realidade, brincando com as perspectivas e as expectativas que qualquer dado autobiográfico despertaria no leitor. Coetzee radicaliza a autoficção numa narrativa ousada estruturalmente, apesar de irregular, procedimento que o autor voltará a usar com um grau maior em Verão (2010), livro que encerra a trilogia Cenas da vida na província.
Diário de um ano ruim reflete a contemporaneidade, não somente nos assuntos que aborda no formato de ensaios curtos, mas assimila esse tom moderno em suas histórias, voltadas a um “eu” que está em constante exposição e questionamento de si mesmo. Coetzee literaliza-se (e problematiza até a própria velhice) e transforma em literatura instigante a outros gêneros que servem para questionar quem é esse eu tão em evidência hoje em dia e qual a relevância de um eu-escritor no mundo atual cheio de outras preocupações, um eu em crise num planeta repleto de crises também.

11 de junho de 2017

Elogio do X9


Ser chamado de cagueta, na minha infância, era algo depreciativo. O dedo-duro, o X9, coisas desaprovadas num grupo social. Se você dedurava alguém, estava traindo uma pessoa ou o coletivo, não sendo leal. Tornava-se um ser indigno de confiança. Não caguetar alguém era um código de honra. Num Brasil atual de delações premiadas é com receio que devemos receber as inúmeras denúncias das rotineiras Lava-Jatos e CPIs? Por alguém voltar-se, sob a pressão da justiça, contra uma conduta tão instituída e estabelecida socialmente? Mas e os desmandos e a corrupção por trás disso? E os acordos que se conseguem por revelar nomes, falcatruas, esquemas, propinas? E as consequências para os envolvidos? E chegamos ao momento em que delatar é bom, pois a sujeira é mostrada, mesmo sabendo que ela sempre esteve ali oculta porcamente por debaixo do tapete, numa absurda redundância. Nem podemos nos enganar com as boas intenções de quem aponta os dedos, pois quem faz as tais delações acaba se beneficiando com as regalias e atenuações de penas que o ato e o judiciário incentivam e garantem, quase numa espécie de elogio do X9. As delações não agregam novidade, afinal o clima é de um salve-se quem puder e como puder, não importa quem caia nesse momento. Agarra-se ao bote durante o naufrágio e larga-se o restante em meio ao oceano congelante. Devemos ficar contentes quando estas notícias expõem o fedor da política brazuca? Essas citações que pululam e crescem como fermento no pão e no bolo e parece que apenas servem para pôr mais lenha à fogueira, que logo será apagada por uma chuva providencial, mantendo as coisas como estão. Afinal a justiça é cega e manca, unilateral, protecionista e aliada daqueles que circulam onipresentes entre as inúmeras denúncias insolucionáveis que esbarram na má vontade e burocracia e nos interesses além da nossa compreensão. Delações estanques que revelam o podre, mas nos forçam a conviver com o odor insuportável do chorume até o tornar-se costume, até tudo parecer normal.

28 de maio de 2017

Na Estante 74: À espera dos bárbaros (J. M. Coetzee)



Um Magistrado responsável por um vilarejo pertencente a um Império sem nome definido. O Magistrado tem contato com o Coronel Joll, que surge para investigar uma possível ameaça de um ataque dos bárbaros. Esse militar utiliza-se da violência e da tortura contra as pessoas levadas presas para arrancar informações importantes e úteis (muitas vezes com resultados pífios ou fatais). O Magistrado tem sua rotina de simples afazeres abalada ao abrigar em sua casa uma mulher bárbara que mendigava pelas ruas da vila, cuja perna está deformada devido às sessões de tortura que sofreu outrora. Logo os dois se envolvem num jogo sensual-afetivo pouco definido e concretizado entre eles.
A oposição barbárie-civilização é um tema recorrente na obra de J. M. Coetzee. À espera dos bárbaros explora a problemática da colonização europeia, o preconceito contra a população nativa dos países invadidos/governados pelas metrópoles. Coetzee situa a narrativa do romance num país não identificado, mas que guarda semelhanças com muitos dos locais dominados à força bruta e ao custo de muito sangue derramado pelas mãos das nações ditas civilizadas, numa simbologia da própria África do Sul e do continente africano em si. O escritor sul-africano borra as fronteiras da realidade numa escrita quase alegórica refletindo o drama das nações espoliadas e da população original dizimada pela ação dos colonizadores  e expulsa de seu próprio território.
J. M. Coetzee dá voz a esse magistrado, que vê-se estupefato e impotente em relação aos desmandos do Império cujas leis ele próprio defende e representa, diante da maneira arbitrária e despótica com que trata a população bárbara, uma inversão de lógica e valores. Quem é o verdadeiro bárbaro naquele cenário? O que não adquiriu determinada cultura ou pertence a uma elite ou potência? Que vive primitivamente ou alimenta hábitos rudimentares? Ou aquele que recorre à selvageria da tortura, do mau julgamento, que se põe acima dos demais? Que mata grupos inteiros, estupra e invade terras alheias? À espera dos bárbaros (cujo título evoca um famoso poema do poeta grego Konstantinos Kaváfis) é antes de tudo uma denúncia contra a prepotência humana e suas atitudes atrozes em nome de uma expansão territorial e da manutenção do poder.


7 de maio de 2017

Do lado de fora


Entre a esquerda e a direita, um abismo. Depressão que se expande e traga. Traga uma cerveja, um champanhe, para celebrar este nada, este zero! Traga tudo para dentro de si, imploda aquilo que ainda resta como alicerce. Se quisesse iria para Cuba ou Miami? Se pudesse me estabeleceria na balbúrdia, já que o elitizado é só repudio e desaprovação. Fora! Tem! Ermo! Dentro! Livro! Me! Um bocado de cultura, um pouco de vergonha pelo entorno brasil. A realidade é surreal, inacreditável é a notícia disseminada, os planos do planalto, assalto do direito pelo destro e o canhoto. Capiroto solto, louco pelo descrédito do inferno diante do que aqui faz-lhe concorrência, com o despótico da história, o arbitrário do estabelecido. Como os livros contarão esses dias? Restarão livros para tamanha ignorância? Ignoro os avisos e aceito convite para bares e afins, para dar um trago. Trago comigo o embargo, aquele amargor que não é o da cerveja trincando. Amargor de fim de festa a qual sequer fui convidado. E que eu seja assim persona non grata, nem penetra, nem VIP. Só aquele que assiste a tudo bebericando um café, tomando umas com a maldita companhia, apenas observando... do lado de fora...


30 de abril de 2017

Na Estante 73: São Bernardo (Graciliano Ramos)


Livro: São Bernardo
Autor: Graciliano Ramos
Editora: Record
Ano: 2014
Páginas: 270

Lembrar de São Bernardo, de Graciliano Ramos, ou relê-lo, é recordar-me da professora Catarina que deu aula de literatura e língua portuguesa para mim no Ensino Médio. Ela apenas o recomendara como uma das leituras para aquele ano, mas numa conversa em particular, mostrou-se emocionada toda vez que falava sobre este clássico do Modernismo. Instigado pelo componente sentimental do relato dela fiz a minha primeira leitura da obra, a qual eu guardo boas impressões, apesar da imaturidade em compreender as entrelinhas, porém novamente foi a releitura que revelou a magnitude da prosa graciliana. Lá estão novamente a palavra no lugar exato, a concisão de um narrador-protagonista pouco afeito a rebuscamentos desnecessários tão comuns à linguagem literária.
Paulo Honório é um sujeito bruto, ríspido que ambicionou uma vida de conquistas e posses e conseguiu-a aos poucos. Venceu a pobreza, possuidor de um bom tino para os negócios, foi de empregado a patrão adquirindo a fazenda que tanto almejara, a São Bernardo do título, e a administra de maneira austera.
O dinheiro é um elemento que ronda e media a vida de Paulo Honório e sua relação com os empregados, o pequeno círculo de amizades. Mas até o homem mais bronco sente a necessidade de uma companhia e entra nessa equação Madalena, professora com quem Paulo Honório se casa. No entanto a mulher torna-se questionadora dos métodos e ideias do marido, desencadeia um embate com o capitalismo e o patriarcado que o protagonista representa e, consequentemente, desperta os ciúmes dele, ciúmes que a sufocam de uma maneira incontornável.
Se Otelo surgiu como exemplar máximo da temática do ciúme na literatura universal e Dom Casmurro conseguiu ser a grande referência do tema na literatura brasileira no final do século XIX, São Bernardo parece reforçar genialmente essa tradição no século seguinte.
O que comove em São Bernardo é a solidão esmagadora de Paulo Honório seja pela administração à mão de ferro que ele executa na fazenda que possui, seja pela personalidade rústica no trato com as pessoas, afastando-as, seja pelos ciúmes que o levaram a acusar a esposa Madalena de traição. Tamanha isolamento que faz com que essa figura procure uma das mais solitárias atividades do ser humano que é arte de escrever e confessar na forma de um livro, nas palavras do mestre Antonio Candido, sua derrota, a violência que infringe aos outros e a si mesmo. E agora, voltando ao tempo, eu entendo o que pode ter provocado tamanha emoção na minha professora ao simplesmente recordar-se deste livro...

16 de abril de 2017

Nebulosidade


Está tudo nebuloso, impreciso. Um silêncio incomodante, uma paz quando tudo deveria ser caótico. Não entendo a passividade, aguardo o estopim, a faísca necessária para o início do grande incêndio, aquele que porá tudo abaixo, aquele que reduzirá as coisas à cinzas. Tudo que acreditamos, pó. Aquilo que está posto, gás carbônico. A realidade que vivemos, passado. Enquanto isso encontram maneiras de sabotarmo-nos, o golpe preciso e mortal. A rasteira invisível a qual não enxergamos quem, só percebemo-nos em queda. Ou seria suspensão? Ou seria apenas impressão? Sonho? A existência assemelhando-se a um pesadelo. Os monstros do imaginário popular metamorfoseados em seres legislativos e executivos a nos forçar o medo, a nos operar lobotomia, a nos empurrar um prato frio (como vingança. De quê? O que fizemos? Que culpa temos nós?) e podre. Engolindo a seco tudo que se encerra nesse pacote. Anseio pela revolta, mas eu mesmo encontro-me refém da situação, mobilizado pelos afazeres, pelas obrigações, pelos débitos na conta corrente. Tentando caminhar e persistir em meio a tanta névoa, a visão turvada pela neblina. Nebulosidade que me impede (e aos meus também) enxergar além, vislumbrar uma réstia que seja de luz, um fio esperançoso, a trazer luminosidade, a trazer calor, a esquentar os ânimos a tal ponto que, quiçá, uma combustão irrefreável se inicie, enfim, e as chamas se espalhem rapidamente, como num mato seco...

2 de abril de 2017

Na Estante 72: Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis)



Livro: Memórias póstumas de Brás Cubas
Autor: Machado de Assis
Editora: Ática
Ano: 2002
Páginas: 206

A literatura brasileira não seria a mesma após Memórias Póstumas de Brás Cubas, o livro que inaugurou o Realismo-Naturalismo em nosso país. Dar a voz a um defunto-autor ou autor-defunto não foi a única ousadia do mestre Machado de Assis. O autor de Dom Casmurro poderia muito bem ter caído nas fáceis convenções da escola realista e naturalista vigentes na época, ao contrário, seus trabalhos surgem num patamar acima do que foi produzido pelos seus contemporâneos como Aluísio Azevedo, Adolfo Caminha e Raul Pompeia.
Seu texto nunca recorreu à simples teorização determinista, positivista. Antes de declamar certezas em sua prosa, Machado de Assis prefere a desconfiança e a ironia, o foco é o ser humano no que ele tem de mais contraditório.
Um morto narrando a vida pregressa o faz despir-se de quaisquer compromissos e receios com aqueles que conviveram com ele e Brás Cubas não poupa nem a si próprio nas páginas que tece no além. Criança peralta, jovem esbanjador e preguiçoso, a quem o pai previa um destino glorioso (na Igreja ou na Política), estudante pouco brilhante, adulto afeito à riqueza da família.
Além das inovações formais (o capítulo LV – O velho diálogo de Adão e Eva), momentos oníricos (Capítulo VII – O delírio), Memórias Póstumas de Brás Cubas tem nas digressões bem humoradas a sua principal característica (estilo que permanecerá nos romances posteriores do Bruxo do Cosme Velho) e o diálogo quase frequente do narrador em primeira pessoa com o leitor, aquele que poderia estranhar ou se chocar com algumas das observações feitas ali no romance.
E não podemos esquecer, claro, das personagens. Além do próprio Brás Cubas, temos a prostituta Marcela, primeira grande paixão do protagonista (“Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis”), Quincas Borba, o louco filósofo e sua crença no Humanistismo (teoria que é uma sátira velada aos ideais naturalistas) e Virgília, que surge como o principal interesse amoroso de Brás Cubas e com quem ela mantém um relacionamento extraconjugal (“Virgília comparou a águia e o pavão, e elegeu a águia, deixando o pavão com o seu espanto, o seu despeito, e três ou quatro beijos que lhe dera.”), mais uma que entra para a galeria das grandes personagens femininas machadianas.
No romance, que mistura em seu subtexto uma observação das relações sociais do Brasil no século XIX (o Brasil escravocrata, o Brasil Império), Machado de Assis aperfeiçoa com primor o projeto de uma literatura brasileira, com personalidade e voz própria, iniciada no Romantismo (principalmente com a obra de José de Alencar), abrindo caminho para tornar-se o nosso autor mais representativo.


26 de março de 2017

Poema espinhoso



cavuco
futuco
rompo
abcessos
mancho
epidermes
expilo
protuberâncias
amareladas
desbotadas
botões de
apertar
espremer
sinal
gritante
na cútis
agredida
por ecos
adolescentes
apesar da
balzaquiana
idade
que nem
flor viça é
é flor baça
sem graça
tez não
uniforme
não conforme
ao padrão
homogêneo
se me aguarda
retrato de
Dorian Gray
aflige-me
a face
Doriana
oleosa
como a
margarina
no porão
deve ser
o rosto
límpido
enquanto
aqui o
exato
oposto
antiestético
espinhoso


19 de março de 2017

Na Estante 71: A bolsa amarela (Lygia Bojunga)


Livro: A bolsa amarela
Autor: Lygia Bojunga
Editora: Casa Lygia Bojunga
Ano: 2013
Páginas: 135

Uma bolsa que cabe tudo, o mundo, dentro dela cabem todas as vontades da protagonista, protagonista que almeja aquilo que é oposto dela ou que é esperado ao gênero o qual ela pertence. Raquel quer ser adulta, ser menino, pois eles têm mais privilégios do que as meninas, ela deseja ser escritora, mas suas histórias não são bem recebidas ou compreendidas pelo grupo familiar.
Ao ganhar de presente uma bolsa amarela, grande demais para o tamanho de Raquel, mas o suficiente para carregar os seus sonhos e suportar o peso de sua imaginação. Ela convive com personagens como um guarda-chuva, um alfinete, um galo oriundo de uma das estórias que ela criou. Ao mesmo tempo convive com a mãe, o pai e os irmãos, de origem pobre, e suporta a caridade de sua tia que tem uma situação financeira melhor e se desfaz das muitas coisas que ela compra e que não usa mais, entregando-as para a família de Raquel.
Em A bolsa amarela, temos uma protagonista criativa, escritora, dona de si e de suas opiniões, com uma imaginação em franco crescimento, que percebe o mundo ao redor e projetando o seu próprio universo para atenuar a sua realidade e sua condição. O livro utiliza-se de uma linguagem coloquial com termos como “Aí”, “tô”, interjeições e outros recursos, etc. e reforça a proximidade com a oralidade das crianças da mesma idade da protagonista.
Passados 40 anos da sua publicação, A bolsa amarela dialoga com temas urgentes da atualidade como a questão de gênero e o feminismo, além de, como é comum em grande parte da produção literária infanto-juvenil, exaltar a importância da leitura e da escrita como formas de libertação e de afirmação no mundo.

5 de março de 2017

Multas linguísticas

       As pessoas têm uma ideia equivocada de que todo profissional formado em Letras é alguém que vai monitorar a fala do mundo inteiro e encontrar os erros existentes nela, como se a língua oficial do nosso país se resumisse a uma questão gramatical-ortográfica.
E sempre quando descobrem que você trabalha nessa maravilhosa área das linguagens, surgem as dúvidas mais corriqueiras: “Quando eu uso onde/aonde?”, “E os porquês?”, “Tal palavra é com s ou ss?” e assim por diante. Isso quando não aparecem comentários do tipo: “Vamos falar direito que temos um professor de português ao nosso lado.”, “Ele já deve ter notado um monte de erros no que a gente falou...”, como se, antes de tudo, nós fossemos fiscais da fala alheia a pontuar as inadequações. Não que nós, de vez em quando, não reparemos os momentos em que alguma frase foge daquilo que se estabeleceu como norma-padrão, mas não saímos com um bloquinho de anotações distribuindo multas linguísticas por aí.
O que a população ainda não entende é que existem vários modos de fazer o uso da nossa língua materna, depende da situação (e o grau de formalidade e informalidade que ela vai exigir) em que você se encontra. E que ela não se restringe apenas à norma-culta de comunicação (tanto na oralidade quanto na escrita, apesar de alguns puristas desejarem assim). A língua portuguesa pode ser até uma (no nome), porém são muitas as ditas pelo mundo afora.
Nós, profissionais de Letras, cometemos os nossos errinhos (acredito até que o Bechara, Celso Cunha e o Pasquale também) e, se somos exigentes, é apenas com a própria fala ou escrita. Não dá para ser 100% o tempo todo e nem carregar uma gramática e/ou um dicionário inteiro na cabeça. A memória falha, o esquecimento vem...
O que importa então é a expressividade da língua e também a capacidade e responsabilidade de comunicar uma informação para evitar mal entendidos. Pense sempre onde você está (numa palestra, num boteco, numa reunião da empresa?) e quem é o seu interlocutor (o chefe, o melhor amigo, um recrutador de RH?) e, se for necessário, procure utilizar o máximo daquilo que você conhece sobre a língua em sua forma padrão.
Já a escrita possui uma rigidez maior e nela, na maioria das vezes, você terá que redigir um texto seguindo as normas ortográficas, além de se ocupar com a coesão e a coerência de suas ideias e outros aspectos textuais. No texto escrito um “erro” não tem como ser consertado e fica registrado aos olhos do receptor da mensagem (a não ser que ocorra uma revisão rigorosa anteriormente).
Então, caros leitores, relaxem conosco e consigo mesmos. Para evitar qualquer constrangimento, não custa nada recorrer a um velho hábito que ajuda bastante a melhorar nosso convívio com a complexa língua portuguesa e a dominá-la, além de ampliar o conhecimento de mundo e das pessoas ao redor: o hábito da leitura. Aposto que as dúvidas e o receio de usá-la de uma maneira plena vão diminuir consideravelmente a partir do contato frequente com os livros.

19 de fevereiro de 2017

Na Estante 70: O retrato de Dorian Gray (Oscar Wilde)


Livro: O retrato de Dorian Gray
Autor: Oscar Wilde
Editora: Landmark
Ano: 2012
Páginas: 413

Oscar Wilde poderia ter escrito apenas este romance que já teria seu nome garantido entre os grandes da língua inglesa e universal. Autor de contos, peças teatrais e outros gêneros, Wilde é um sinônimo de ironia fina e os ideais estéticos que pregava em sua literatura estão todos sedimentados e resumidos na sua obra mais famosa: O retrato de Dorian Gray.
Ao ver-se no retrato do título, o jovem protagonista Dorian Gray, deseja que a beleza, da mesma forma que imortalizada na pintura feita por seu amigo e admirador Basil Hallward, pudesse ser indelével nele próprio. Instigado e influenciado pela amizade com o excêntrico Lorde Henry Wotton, entrega-se aos prazeres mundanos e hedonistas e despe-se de qualquer postura ética ou empática em relação às pessoas com quem convive ou nutre interesse. Concomitantemente, enquanto a sua aparência mantém-se jovem, vivaz e intacta, de forma inexplicável, a imagem do quadro, que ele passa a esconder da vista de outras pessoas, vai se deteriorando, quase que numa representação da putrefação de sua alma.
Oscar Wilde tem total domínio do enredo encadeando as ações que, num crescente, revelam o lento ocaso do protagonista, dando a Lorde Henry, quase que um alter ego de Wilde, os diálogos mais ácidos e não menos verdadeiros que denunciam a sociedade inglesa conservadora de sua época. A mesma que seria responsável pela decadência de Oscar Wilde, condenando-o e execrando-o, após a prisão devido às práticas homossexuais (proibidas por lei até então, o homossexualismo é uma temática que sutilmente é abordada dentro deste livro e gerou censura na época da publicação). 
Wilde questiona sem moralismos o valor da beleza, a hipocrisia da sociedade que se esconde por trás do superficial e do vazio de seus pensamentos. Por este motivo, O retrato de Dorian Gray acaba sendo uma leitura intrigante e também prazerosa pela sinceridade com que foi desenvolvido e a eletricidade que ainda emana de suas páginas.

12 de fevereiro de 2017

Era apenas um almoço de domingo


Era apenas um almoço de domingo.
Chegaram quase todos ao seu horário com as dificuldades que podiam enfrentar naquele dia: a ressaca, a quase inanição do transporte público, a preguiça, o sono, a ausência de alguém que não poderia vir. Nada de novo até então. Conversas banais, amenidades, trocadilhos e um delicioso almoço à espera. Comeu-se rápida e fartamente, o barulho do contato dos talheres no prato quebrado por conversas esparsas ou vice-versa. Olhares trocados evidenciando a mente que inquiria: “O que farei agora?”, “O que dizer?”, “Qual história engraçada contar?”. Era um silêncio que de início poderia ser constrangedor, mas eloquente na dinâmica daquelas relações amistosas ali. Como quebrar a atmosfera silenciosa num dia tão contagiado pelo mormaço? Filme? Um filme para compensar tamanha quietude. Foram à sala, escoraram-se no sofá, no torpor do pós-almoço. Mal o filme iniciara, o primeiro do grupo sucumbiu e deixou-se levar pelo ir e vir do sono irreprimível, percebeu que outra pessoa também entregara-se aquilo que parecia maior, onipotente. O terceiro também se omitia em silêncio e os três ficaram ali no sono entrecortado pela obra cinematográfica, pontuado pelas preocupações que ocupavam os seus pensamentos já há muito tempo: a iminente volta ao trabalho, conflitos amorosos, ao vazio daquele dia, a luta contra o enjoo, a consciência ainda no torcer-se de ter causado uma péssima impressão a alguém no dia interior, as coisas que procuraria fazer durante a viagem para outro estado, qual conduta escolher após tantos anos distante, longo intervalo não suficiente para acumular saudade do local a ser visitado. Os três dormiram e, ao acordarem, olharam-se compungidos e entenderam-se em seu cansaço, aquele cansaço que extrapola o peso do corpo, massacra mais que a uma surra, compreenderam mutuamente a possibilidade da não resolução fácil dos problemas diários que enfrentavam, mas viram-se cúmplices, parceiros no silêncio daquele dia. O entendimento que não encontrava palavra fácil, apesar de algumas reprimidas na cabeça, apesar de outras entaladas na garganta. Não precisavam de conversas ininterruptas e em volume alto pelo menos não naquele domingo. O estar junto já era suficiente.

16 de janeiro de 2017

Na Estante 69: Terras de sombras (J. M. Coetzee)


Livro: Terras de Sombras
Autor: J. M. Coetzee
Editora: Best Seller
Ano: 1997
Páginas: 152

Terras de sombras ou Dusklands é o romance de estreia do escritor sul-africano J. M. Coetzee e divide-se em duas narrativas independentes: “Projeto Vietnã” e “A narrativa de Jacobus Coetzee”.
A primeira, ambientada no período da Guerra do Vietnã traz o narrador-protagonista Eugene Dawn responsável por elaborar um ensaio profundo sobre os serviços de propaganda feitos no Vietnã. Ao invés de colocar o campo de batalha e suas atrocidades como cenário (ou assumir o ponto de vista de soldados presentes neste conflito), Coetzee prefere lançar o olhar sobre aqueles que encontram-se nos bastidores do evento bélico: os burocratas. Ao mesmo tempo em que conhecemos o material trabalhado por Eugene, também nos deparamos com sua crise profissional, afinal precisa fazer alterações no seu ensaio já que parte dele não agradar ao seu superior chamado Coetzee. Além disso, Eugene passa por problemas conjugais e familiares que conduzem o personagem a uma atitude extrema.
Já em “A narrativa de Jacobus Coetzee” têm-se um relato de um provável antepassado de Coetzee (não podemos confiar na veracidade e na recorrência desse sobrenome ao longo desta obra e de outros trabalhos escritos por J. M. Coetzee) datado do século XVIII. Jacobus Coetzee é um colonizador bôer fazendo uma travessia de gado pelo território Namaqua, auxiliado pelos hotentotes (nativos locais) e acaba entrando em atrito com uma tribo com quem trava contato. Permeia a narrativa o julgamento e o pré-julgamento do colonizador europeu diante daqueles que habitavam a África do Sul (o continente africano como um todo também), vistos como bárbaros, preguiçosos, inferiores entre outras características depreciativas.
Coetzee (o escritor) coloca em cheque as noções vazias do que é civilização, aquela apregoada pelo europeu que invadiu diversos países, destruiu culturas, explorou colônias, colocou os nativos numa posição marginalizada. A noção de barbárie muda drasticamente quando posta em uma nova perspectiva menos arrogante e pretensiosa. A visão colonizadora e imperialista atravessou os séculos e ganha novos contornos e nuances que resultam em mais conflitos, como o ocaso da Guerra do Vietnã.
O autor de Desonra sabiamente faz um paralelo entre passado e presente quando o pensamento humano contaminado pelo eurocentrismo ainda é permanente e criou raízes no senso comum. A história se repete e testemunhamos diversos países poderosos do mundo inteiro tentando conter a dita barbárie e usando-a como principal arma. Nesta lógica quem seria o selvagem então?

11 de janeiro de 2017

Da problematização das desconstruções, ou vice-versa


Tudo é motivo para problematizar, logo agora que alguém estava se autodesconstruindo de tantas coisas. A pessoa mal acompanha a polêmica da última semana e já entra à baila da discussão um novo assunto não menos cercado de controvérsia. E aquela opinião que estava quase formada, volta a ter os alicerces abalados e cai por terra.
O Facebook virou o palco das opiniões, o mundo inteiro é especialista de qualquer tema, todos querem dar o seu pitaco a respeito das mais variadas situações. E se o debate é aprofundado por alguém (em postagens enormes, os chamados “textões”) imediatamente é refutado por comentários lacônicos do tipo “É o que acho”, “Não concordo”, “O perfil é meu e escrevo que eu quiser”, isso quando não descamba para o baixo calão.
            O grande impasse é justamente as pessoas encararem o espaço das redes sociais, que deveria propiciar um diálogo saudável a respeito das preocupações que circulam na nossa sociedade, como um imenso campo de batalha digital, onde cada indivíduo disputa, pela via da bala linguística, das armas verbais, dos emojis irados, um pouco do território no pensamento alheio.
         Ao estar diante de tantas convicções fica difícil para o leitor desconstruir as suas próprias, umas vez que essas convicções propagadas na rede são unilaterais e não permitem abertura para o diferente. O que era para ser plural tornou-se idiossincrático.
E as intenções de convencimentos e as tentativas de comunicar algo esboroam-se à primeira lufada de ânimos inflados, vão tudo por água abaixo...
       Surge daí a dúvida quase hamletiana: “problematizar ou não problematizar, eis a questão”. “Desconstruir-se ou não?”.
Vale a pena apertar o gatilho do revólver das discussões para ver quão longe a bala vai chegar ou qual estrago causará? E o quanto as pessoas estão dispostas a abrirem-se a este tiro que pode nem chegar perto, passar de raspão ou atingir à queima-roupa, desconstruindo assim desta forma? 
Uma coisa não independe da outra, problematização e desconstrução são complementares neste caso. É tudo um caso de comunicação, bem ou mal sucedida (a maneira como o emissor passa a mensagem e o modo do receptor a compreender). E comunicação, na atual conjuntura mundial, é o que mais falta entre nós.

2 de janeiro de 2017

Na Estante 68: As meninas (Lygia Fagundes Telles)


Livro: As meninas
Autor: Lygia Fagundes Telles
Editora: MEDIAfashion
Ano: 2012
Páginas: 320

Uma das correntes da crítica literária é a análise formal do texto, livre das informações do contexto histórico e de outras correntes do pensamento humano, influenciada pelo formalismo russo e o new criticism. Ao se fazer a leitura de As meninas, de Lygia Fagundes Telles, um dos principais problemas é não colocá-lo em perspectiva com o momento em que foi lançado: os anos de chumbo da ditadura militar brasileira.
Lorena, Ana Clara e Lia, um trio de protagonistas tão díspares cujas vozes, pensamentos e conversas são amalgamados na prosa de Lygia, num uso acertado do discurso indireto livre das narradoras autodiegéticas, num inconstante fluxo de consciência. A primeira, uma estudante de Direito, às voltas com um romance fracassado com um homem mais velho (chamado por ela pelas iniciais M.N.) e casado, ela vive encerrada no pensionato onde está hospedada e dedicada aos estudos cercada de seus discos e livros e da recordação da morte do irmão mais novo. A segunda, uma modelo viciada em heroína dividida entre um relacionamento amoroso junkie com um traficante e um casamento com um homem rico (além das memórias de sua infância sofrida e repleta de abusos). A terceira, uma estudante que veio da Bahia e largou a faculdade para dedicar-se à guerrilha revolucionária.
É por esta última personagem que o livro traz à cena literária os espinhos da ditadura militar e também a utópica luta dos grupos revolucionários de esquerda, nesse caso As meninas cutuca um vespeiro em tempos cheios de censura e conservadorismo, além de esmiuçar de maneira aberta e inédita a alma feminina. 
Lygia alterna os pontos de vistas, põe em seu texto as expectativas e frustrações destas três garotas que representam a classe média da época e a juventude de seu tempo e disseca as inquietações e medos de personagens que, apesar de enfrentarem os ardores da vida adulta, com tudo o que elas têm de direito (sexo, drogas, ideologias, famílias disfuncionais, etc.), ainda não deixaram de serem as meninas do título quanto às esperanças e ilusões que nutrem.
As meninas foi publicado em 1973 e quando alguns especialistas classificam de corajosa a atitude de Lygia Fagundes Telles em escrever semelhante obra num período tão conturbado esquecem que a escritora é uma artista que sempre preferiu o risco ao invés de recorrer à soluções mais simplórias em sua literatura. A coragem já estava intrínseca na escrita dela e é evidente nas linhas deste belíssimo romance.