16 de janeiro de 2017

Na Estante 69: Terras de sombras (J. M. Coetzee)


Livro: Terras de Sombras
Autor: J. M. Coetzee
Editora: Best Seller
Ano: 1997
Páginas: 152

Terras de sombras ou Dusklands é o romance de estreia do escritor sul-africano J. M. Coetzee e divide-se em duas narrativas independentes: “Projeto Vietnã” e “A narrativa de Jacobus Coetzee”.
A primeira, ambientada no período da Guerra do Vietnã traz o narrador-protagonista Eugene Dawn responsável por elaborar um ensaio profundo sobre os serviços de propaganda feitos no Vietnã. Ao invés de colocar o campo de batalha e suas atrocidades como cenário (ou assumir o ponto de vista de soldados presentes neste conflito), Coetzee prefere lançar o olhar sobre aqueles que encontram-se nos bastidores do evento bélico: os burocratas. Ao mesmo tempo em que conhecemos o material trabalhado por Eugene, também nos deparamos com sua crise profissional, afinal precisa fazer alterações no seu ensaio já que parte dele não agradar ao seu superior chamado Coetzee. Além disso, Eugene passa por problemas conjugais e familiares que conduzem o personagem a uma atitude extrema.
Já em “A narrativa de Jacobus Coetzee” têm-se um relato de um provável antepassado de Coetzee (não podemos confiar na veracidade e na recorrência desse sobrenome ao longo desta obra e de outros trabalhos escritos por J. M. Coetzee) datado do século XVIII. Jacobus Coetzee é um colonizador bôer fazendo uma travessia de gado pelo território Namaqua, auxiliado pelos hotentotes (nativos locais) e acaba entrando em atrito com uma tribo com quem trava contato. Permeia a narrativa o julgamento e o pré-julgamento do colonizador europeu diante daqueles que habitavam a África do Sul (o continente africano como um todo também), vistos como bárbaros, preguiçosos, inferiores entre outras características depreciativas.
Coetzee (o escritor) coloca em cheque as noções vazias do que é civilização, aquela apregoada pelo europeu que invadiu diversos países, destruiu culturas, explorou colônias, colocou os nativos numa posição marginalizada. A noção de barbárie muda drasticamente quando posta em uma nova perspectiva menos arrogante e pretensiosa. A visão colonizadora e imperialista atravessou os séculos e ganha novos contornos e nuances que resultam em mais conflitos, como o ocaso da Guerra do Vietnã.
O autor de Desonra sabiamente faz um paralelo entre passado e presente quando o pensamento humano contaminado pelo eurocentrismo ainda é permanente e criou raízes no senso comum. A história se repete e testemunhamos diversos países poderosos do mundo inteiro tentando conter a dita barbárie e usando-a como principal arma. Nesta lógica quem seria o selvagem então?

11 de janeiro de 2017

Da problematização das desconstruções, ou vice-versa


Tudo é motivo para problematizar, logo agora que alguém estava se autodesconstruindo de tantas coisas. A pessoa mal acompanha a polêmica da última semana e já entra à baila da discussão um novo assunto não menos cercado de controvérsia. E aquela opinião que estava quase formada, volta a ter os alicerces abalados e cai por terra.
O Facebook virou o palco das opiniões, o mundo inteiro é especialista de qualquer tema, todos querem dar o seu pitaco a respeito das mais variadas situações. E se o debate é aprofundado por alguém (em postagens enormes, os chamados “textões”) imediatamente é refutado por comentários lacônicos do tipo “É o que acho”, “Não concordo”, “O perfil é meu e escrevo que eu quiser”, isso quando não descamba para o baixo calão.
            O grande impasse é justamente as pessoas encararem o espaço das redes sociais, que deveria propiciar um diálogo saudável a respeito das preocupações que circulam na nossa sociedade, como um imenso campo de batalha digital, onde cada indivíduo disputa, pela via da bala linguística, das armas verbais, dos emojis irados, um pouco do território no pensamento alheio.
         Ao estar diante de tantas convicções fica difícil para o leitor desconstruir as suas próprias, umas vez que essas convicções propagadas na rede são unilaterais e não permitem abertura para o diferente. O que era para ser plural tornou-se idiossincrático.
E as intenções de convencimentos e as tentativas de comunicar algo esboroam-se à primeira lufada de ânimos inflados, vão tudo por água abaixo...
       Surge daí a dúvida quase hamletiana: “problematizar ou não problematizar, eis a questão”. “Desconstruir-se ou não?”.
Vale a pena apertar o gatilho do revólver das discussões para ver quão longe a bala vai chegar ou qual estrago causará? E o quanto as pessoas estão dispostas a abrirem-se a este tiro que pode nem chegar perto, passar de raspão ou atingir à queima-roupa, desconstruindo assim desta forma? 
Uma coisa não independe da outra, problematização e desconstrução são complementares neste caso. É tudo um caso de comunicação, bem ou mal sucedida (a maneira como o emissor passa a mensagem e o modo do receptor a compreender). E comunicação, na atual conjuntura mundial, é o que mais falta entre nós.

2 de janeiro de 2017

Na Estante 68: As meninas (Lygia Fagundes Telles)


Livro: As meninas
Autor: Lygia Fagundes Telles
Editora: MEDIAfashion
Ano: 2012
Páginas: 320

Uma das correntes da crítica literária é a análise formal do texto, livre das informações do contexto histórico e de outras correntes do pensamento humano, influenciada pelo formalismo russo e o new criticism. Ao se fazer a leitura de As meninas, de Lygia Fagundes Telles, um dos principais problemas é não colocá-lo em perspectiva com o momento em que foi lançado: os anos de chumbo da ditadura militar brasileira.
Lorena, Ana Clara e Lia, um trio de protagonistas tão díspares cujas vozes, pensamentos e conversas são amalgamados na prosa de Lygia, num uso acertado do discurso indireto livre das narradoras autodiegéticas, num inconstante fluxo de consciência. A primeira, uma estudante de Direito, às voltas com um romance fracassado com um homem mais velho (chamado por ela pelas iniciais M.N.) e casado, ela vive encerrada no pensionato onde está hospedada e dedicada aos estudos cercada de seus discos e livros e da recordação da morte do irmão mais novo. A segunda, uma modelo viciada em heroína dividida entre um relacionamento amoroso junkie com um traficante e um casamento com um homem rico (além das memórias de sua infância sofrida e repleta de abusos). A terceira, uma estudante que veio da Bahia e largou a faculdade para dedicar-se à guerrilha revolucionária.
É por esta última personagem que o livro traz à cena literária os espinhos da ditadura militar e também a utópica luta dos grupos revolucionários de esquerda, nesse caso As meninas cutuca um vespeiro em tempos cheios de censura e conservadorismo, além de esmiuçar de maneira aberta e inédita a alma feminina. 
Lygia alterna os pontos de vistas, põe em seu texto as expectativas e frustrações destas três garotas que representam a classe média da época e a juventude de seu tempo e disseca as inquietações e medos de personagens que, apesar de enfrentarem os ardores da vida adulta, com tudo o que elas têm de direito (sexo, drogas, ideologias, famílias disfuncionais, etc.), ainda não deixaram de serem as meninas do título quanto às esperanças e ilusões que nutrem.
As meninas foi publicado em 1973 e quando alguns especialistas classificam de corajosa a atitude de Lygia Fagundes Telles em escrever semelhante obra num período tão conturbado esquecem que a escritora é uma artista que sempre preferiu o risco ao invés de recorrer à soluções mais simplórias em sua literatura. A coragem já estava intrínseca na escrita dela e é evidente nas linhas deste belíssimo romance.