2 de julho de 2017

Na Estante 75: Diário de um ano ruim (J. M. Coetzee)


Livro: Diário de um ano ruim
Autor: J. M. Coetzee
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2008
Páginas: 248

Publicado em 2007, Diário de um ano ruim é a prova da inquietação de J. M. Coetzee em busca de sempre renovar a sua escrita e procurar outros formatos para a literatura e, principalmente, o gênero romance. Três linhas narrativas dividem, literalmente, o espaço da página do livro: a primeira, contem ensaios denominados “Opiniões fortes”, onde um escritor sul-africano radicado na Austrália expõe seus pensamentos a respeito de temas polêmicos e contemporâneos como o terrorismo, Al-Qaeda, Guantánamo, pedofilia, a direita e a esquerda etc. A segunda traz o mesmo escritor detalhando o seu encontro e convivência com a jovem Anya, uma imigrante filipina, a quem ele solicita os serviços para transcrever os textos que viriam a ser as mesmas opiniões que o leitor verá nas páginas do livro. A terceira linha narrativa trata-se do relato da própria Anya e suas impressões sobre o “Señor C.”, o escritor com quem convive, além disso, mostra o relacionamento dela com o marido Alan, um especialista em investimentos financeiros.
Sendo o próprio Coetzee um escritor sul-africano que vive na Austrália e sabendo o leitor deste fato, é tentador buscar encontrar algum resquício da biografia de Coetzee neste romance. Mas é claro que é também enganoso já que o escritor vencedor do Prêmio Nobel de Literatura algumas vezes se coloca como personagem de seus livros, rompendo as barreiras que separam ficção da realidade, brincando com as perspectivas e as expectativas que qualquer dado autobiográfico despertaria no leitor. Coetzee radicaliza a autoficção numa narrativa ousada estruturalmente, apesar de irregular, procedimento que o autor voltará a usar com um grau maior em Verão (2010), livro que encerra a trilogia Cenas da vida na província.
Diário de um ano ruim reflete a contemporaneidade, não somente nos assuntos que aborda no formato de ensaios curtos, mas assimila esse tom moderno em suas histórias, voltadas a um “eu” que está em constante exposição e questionamento de si mesmo. Coetzee literaliza-se (e problematiza até a própria velhice) e transforma em literatura instigante a outros gêneros que servem para questionar quem é esse eu tão em evidência hoje em dia e qual a relevância de um eu-escritor no mundo atual cheio de outras preocupações, um eu em crise num planeta repleto de crises também.

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